Por Tereza Coelho
Em meio aos desafios provocados pelas queimadas que atingiram o arquipélago do Marajó nos últimos anos, a Comunidade Quilombola de São Bernardo, em Oeiras do Pará, se mobiliza para reconstruir áreas degradadas por meio do reflorestamento comunitário, fortalecendo a produção sustentável, a segurança alimentar e o protagonismo das mulheres quilombolas na gestão do território.
Na última semana, 15 famílias da comunidade participaram de um mutirão voltado à recuperação ambiental e ao fortalecimento das práticas agroecológicas. A iniciativa desenvolvida pelo Observatório do Marajó já passou por outros municípios como Portel, Breves e Melgaço. Em Oeiras, o mutirão foi feito em parceria com o Coletivo de Mulheres Meninas do Quilombo.
A ação reuniu as famílias da comunidade em torno do plantio de mil mudas de espécies como açaí, abacaxi, banana, café e cítricos, como limão, laranja e tangerina, promovendo o início da recomposição da vegetação afetada pelo fogo, gerando também alternativas de geração de renda e autonomia alimentar para as famílias.
Representante do Coletivo Meninas do Quilombo, Dona Jacirene destaca o papel financeiro dos plantios para a independência financeira e valorização das mulheres da comunidade:
“Sabemos que o que vamos colher vai servir tanto para nos alimentar, quanto para melhorar a renda financeira de cada família. Cada mulher vai se sentir mais empoderada de saber que terá uma colheita de algo que ela vai estar ali produzindo, que é produção dela, que ela vai vender e ter uma autonomia de compra e venda de acordo com aquilo que colher”, declara.
Além do impacto econômico, o reflorestamento comunitário surge como uma resposta direta aos efeitos das mudanças climáticas na região. Dados do Inpe apontam que, entre 2023 e 2025, Oeiras do Pará registrou 859 focos de queimadas, sendo um dos municípios marajoaras mais afetados pelo fogo.

SAFs como estratégia
Ediane Lima, uma das lideranças do projeto, aponta que os Sistemas Agroflorestais (SAFs) são a estratégia ideal para a recomposição dessas áreas por aliar recuperação ambiental e produção de alimentos, uma dupla avaliada como altamente eficaz para lidar como avanço da crise climática:
“Os SAFs são soluções eficazes baseadas na natureza, viáveis para mitigar e adaptar os efeitos das mudanças climáticas, seja pela sua comprovada eficiência na recuperação de áreas degradadas, como também pela restauração de florestas nativas. Sem contar que nesses sistemas, diferente dos monocultivos, é possível produzir alimentos diversos, contribuindo para a segurança alimentar das famílias e com o aumento de suas rendas”, argumenta.
Segundo o Observatório do Marajó, o mutirão faz parte de um conjunto de ações voltadas à justiça climática, à valorização dos territórios tradicionais e à construção de alternativas sustentáveis na Amazônia marajoara. A organização, formada por lideranças comunitárias e ativistas socioambientais, defende que as próprias comunidades devem estar no centro das políticas de enfrentamento à crise climática, especialmente por já desenvolverem soluções baseadas em conhecimentos ancestrais e práticas tradicionais.

Diretora-executiva do Observatório do Marajó e liderança ribeirinha de Portel, Valma Teles aponta a necessidade de ampliar os investimentos públicos em iniciativas comunitárias:
“Na ponta, as comunidades lidam com a emergência climática usando seus conhecimentos tradicionais e práticas ancestrais para chamar a atenção para soluções baseadas na natureza que precisam de financiamento público e escala. O dinheiro do Estado não pode priorizar o agronegócio do latifundiário, muitas vezes grileiro, e esvaziar as comunidades de recursos para fazerem a gestão territorial”, diz.


