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MEIO AMBIENTE PECUÁRIA 3 de julho de 2026

Sombra e água fresca: Veja como proteger o rebanho e evitar perdas com o El Niño

Altas temperaturas podem fazer o gado perder peso, reduzir a taxa de reprodução e gerar prejuízos para o ano seguinte
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Foto: Embrapa
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Resumo:

  • Sob altas temperaturas, o gado consome menos alimento e gasta energia para tentar resfriar o corpo. Isso atrasa o peso de abate, piora a conversão alimentar e encarece o custo de produção.
  • O estresse térmico diminui a taxa de prenhez, aumenta abortos e atrasa o cio das matrizes. Dados da Embrapa mostram que vacas com acesso à sombra produzem até quatro vezes mais embriões no calor do que as mantidas a pleno sol.
  • Garantir água limpa e fresca continuamente e oferecer áreas de sombra (naturais ou artificiais) são as medidas mais importantes.
  •  Atividades que geram estresse, como vacinação, apartação e transporte de animais, devem ser concentradas no início da manhã ou no fim da tarde, evitando os momentos mais quentes do dia.
  • Além do calor extremo, as grandes oscilações de temperatura entre o dia e a noite na transição para a seca estressam o rebanho e facilitam o surgimento de doenças.
  • Propriedades que se planejaram antes da chegada do último El Niño conseguiram manter ou até superar as metas de reprodução e produtividade, ao contrário daquelas que apenas reagiram quando a seca apertou.

Manejo da lavoura e preparo da forrageira foram os primeiros passos para enfrentar o período de seca e calor extremo anunciado com a chegada do El Niño. Agora, a atenção do produtor deve se voltar diretamente ao gado, que sob altas temperaturas pode desacelerar o ganho de peso, reproduzir menos e levar prejuízo para o ano seguinte.

Na última passagem do fenômeno, entre 2023 e 2024, o Centro-Oeste viveu a seca mais intensa registrada no Brasil desde 1950, segundo o Cemaden, com termômetros passando de 42 °C em diversas cidades da região. Ao Gigante 163, especialistas apontam caminhos para o produtor atravessar o período sem perder produtividade.

O médico-veterinário e consultor técnico Vitor Hugo Padilha resume o problema: sob calor intenso, o animal gasta parte da energia só para manter a temperatura corporal estável.

“Como consequência, ocorre redução do consumo de alimento, menor ganho de peso diário, pior conversão alimentar e queda da eficiência produtiva. No bolso do produtor, isso significa animais demorando mais para atingir o peso de abate, aumento do custo de produção e menor rentabilidade por hectare”, disse.

Reprodução é o ponto mais sensível

Embora os zebuínos, predominantes no Brasil, apresentem boa adaptação ao clima, o calor intenso e prolongado, associado à falta de sombra, água ou nutrição adequada, resulta em estresse térmico, o que pode reduzir a taxa de prenhez, aumentar a mortalidade embrionária e os abortos e atrasar o retorno ao cio.

“Esses efeitos geram impactos econômicos significativos, pois reduzem a quantidade e a qualidade dos animais produzidos por safra, reduzindo a lucratividade do empreendimento”, diz o zootecnista Felipe Palombino.

Para se ter ideia, segundo a Embrapa, vacas com acesso à sombra de árvores em sistemas integrados podem produzir até quatro vezes mais embriões no período mais quente do ano, e 22% mais leite ao longo dos 33 meses de avaliação, na comparação com as mantidas a pleno sol.

Sombra e água fresca

Para evitar as perdas, o veterinário Ronaldo Oliveira aponta que a primeira medida é garantir água limpa, fresca e em quantidade suficiente durante todo o dia. Em seguida, é preciso assegurar áreas de sombra adequadas, naturais ou artificiais, permitindo que os animais reduzam sua carga térmica nos horários mais quentes.

“O erro mais frequente é subestimar a importância desses fatores. A água é indispensável para manter as funções fisiológicas e deve estar disponível continuamente, em quantidade e qualidade. Da mesma forma deve ocorrer com a sombra, seja por meio de árvores, sistemas silvipastoris ou estruturas artificiais”, afirmou.

Um estudo publicado na revista Animals em 2026, com gado majoritariamente Nelore, estimou que oferecer sombra adequada reduz em 85% o tempo do animal em desconforto térmico severo, com retorno de US$ 12 a 16 por cabeça na terminação.

Variação térmica

Oliveira também recomenda concentrar tarefas mais estressantes, como vacinação, transporte e apartação, nas primeiras horas da manhã ou no fim da tarde, evitando os períodos de maior temperatura.

“Vale lembrar que não é apenas o calor intenso que preocupa. As grandes variações de temperatura entre o dia e a noite, comuns no período de transição para a seca, aumentam o estresse dos animais e favorecem o aparecimento de diversas enfermidades”, diz ele.

Sombra artificial também é estratégia para ajudar o gado a atravessar o calor. Foto: Juliana Sussai/Embrapa

Antecipar sai mais barato que remediar

Vitor Hugo acompanhou cerca de dez propriedades na seca de 2023/2024, quando houve alterações na estação reprodutiva convencional (setembro a dezembro). Nas fazendas com pasto de pior qualidade e matrizes de baixo escore corporal, a estação de monta atrasou e a prenhez caiu.

A diferença, segundo o consultor, esteve menos no clima e mais no preparo. Quem se antecipou, em vez de apenas reagir quando a seca apertou, atravessou o período sem perder produtividade.

“Por outro lado, propriedades que realizaram planejamento antecipado, com suplementação adequada, manejo sanitário eficiente, disponibilidade de água, sombra e acompanhamento técnico contínuo, conseguiram manter ou até superar os índices reprodutivos de anos anteriores”, concluiu.

Saiba mais:

O El Niño 2026/27 – O El Niño foi confirmado pela NOAA em 11 de junho de 2026 e está em curso, ainda em intensidade fraca, com tendência de fortalecer no segundo semestre. A probabilidade de persistência fica entre 97% e 99% em todos os trimestres até o verão de 2027, e há 63% de chance de atingir intensidade “muito forte” entre novembro e janeiro, o que o colocaria entre os episódios mais intensos desde 1950, ao lado de 1982-83, 1997-98 e 2015-16.

Fonte: André Garcia/Gigante 163

 

Amazônia El Niño Embrapa estresse térmico pecuária PRINCIPAL rebanho
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