Resumo
- Extrativistas da Floresta Nacional de Caxiuanã enfrentam a depreciação da castanha devido à falta de apoio e à dependência de atravessadores, que impõem preços baixos.
- Moradores participaram de uma oficina para mapear 25 pontos de coleta a partir do conhecimento local, dando início ao projeto Castanha Caxiuanã.
- O projeto é realizado pelo IPÊ em parceria com o Serviço Florestal Brasileiro e o ICMBio para estruturar a cadeia produtiva, do manejo à comercialização.
- A criação de uma associação ou cooperativa é vista pelos coletores como o caminho para aumentar o poder de negociação e incentivar as famílias locais.
- A ação prevê o georreferenciamento de áreas em outras comunidades da unidade de conservação, realização de inventários participativos e estudos sobre a cadeia de valor do produto.
Há mais de 50 anos, Maria Calixta, 63, se junta à família todos os anos para coletar castanha na Floresta Nacional de Caxiuanã, no arquipélago do Marajó (PA). É um ritual que atravessa gerações — mas que, segundo ela, vem perdendo valor a cada safra.
“A coleta de castanha faz parte da rotina da minha família. Todos os anos nos reunimos para coletar e vender os frutos, mas devido às dificuldades que enfrentamos a cada ano, sem nenhum apoio, esse trabalho está cada vez mais desvalorizado”, conta.
O motivo, segundo ela, é a ausência de uma cooperativa que dê à comunidade poder de negociação. “Como não temos uma cooperativa para fortalecer as vendas, o atravessador é que impõe o preço dele e muitas vezes acaba colocando um preço muito abaixo, que desestimula o trabalho”, diz Maria. “Por isso, acho importante ter uma oportunidade como essa, pois todos aqui passam pela mesma situação de desvalorização.”

A oportunidade a que ela se refere chegou em forma de oficina, na última semana de julho. Moradores da Flona de Caxiuanã — a mais antiga floresta nacional da Amazônia, criada em 1961 — se reuniram na escola da comunidade para mapear, de próprio punho, os castanhais que conhecem como poucos: 25 pontos de coleta foram identificados a partir da memória e da vivência dos próprios extrativistas, que desenharam o mapa da unidade de conservação.
O encontro é a primeira etapa do projeto Castanha Caxiuanã, do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, iniciado em dezembro de 2025 com financiamento do Serviço Florestal Brasileiro (SFB) e apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão da Flona. O objetivo é organizar a cadeia produtiva da castanha-da-amazônia no território — do manejo à comercialização.
“A nossa ideia é ouvir a comunidade e entender como funciona a cadeia da castanha, já que há muito tempo este produto é manejado no território. A partir disso, vamos auxiliar nos pontos da cadeia que precisarem de atenção, seja na forma de manejo, na organização social ou na venda da castanha”, explica Ilnaiara Sousa, pesquisadora do IPÊ.

Além da oficina, a equipe visitou dois castanhais para fazer o georreferenciamento da área — um levantamento técnico que deve, nas próximas etapas, se estender a mais três comunidades da unidade de conservação, onde vivem cerca de 118 famílias distribuídas em sete comunidades.
Para o extrativista Roberto Araújo, 38, a expectativa em relação ao projeto passa justamente pelo ponto que mais incomoda Maria Calixta: o preço imposto por quem compra a produção. “Acredito que esse projeto pode ser uma oportunidade para fortalecer a nossa cadeia produtiva, principalmente em relação à comercialização. Outro ponto positivo que achei é a possibilidade da gente se organizar numa cooperativa, que certamente vai incentivar os coletores da nossa comunidade”, afirma.
As próximas fases devem incluir inventários participativos dos castanhais, estimativas de produção e um documento técnico sobre a cadeia de valor da castanha na região — passos que, se avançarem como planejado, podem finalmente dar a famílias como a de dona Maria algo que hoje falta: poder de barganha na hora de vender o que colhem há meio século.
Fonte: Instituto IPÊ


