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ECONOMIA 14 de agosto de 2026

Mais soja, menos alimento: o retrato do campo nas metrópoles amazônicas

Estudo do Instituto Escolha mostra que a área de soja cresceu 71%, enquanto a de mandioca caiu 28%
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Foto: Embrapa
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Resumo

  • Nas metrópoles da Amazônia Legal, a área de soja cresceu 71% (ocupando 62% do solo agrícola em 2024), enquanto a de mandioca caiu 28% (restando apenas 3%).
  • Análise faz parte do estudo “Muita soja e pouca mandioca: a alimentação nas regiões metropolitanas da Amazônia Legal”, publicado pelo Instituto Escolhas.
  • No Pará metropolitano, metade dos produtores rurais saiu de cena (-49%), mas a área agrícola cresceu 32%, concentrando mais terras em menos propriedades.
  • Outros alimentos tradicionais também perderam espaço, como a melancia (-51%), banana (-11%) e arroz (-1%).
  • 72% da soja produzida na Amazônia Legal em 2024 foi para fora do Brasil.
  • Apenas 1,4% das frutas e hortaliças nas Ceasas brasileiras vêm da Amazônia; em Belém, 80% dos alimentos do entreposto chegam de outros estados.
  • Sugere que prefeituras aloquem recursos e entrem no SISAN, que estados modernizem Ceasas e que o Governo Federal trate o abastecimento como prioridade urbana.

A dinâmica agrícola nas áreas metropolitanas da Amazônia Legal mudou: a produção voltada para a exportação avança a passos largos, enquanto o cultivo de alimentos tradicionais da dieta regional perde espaço. A constatação faz parte do relatório “Muita soja e pouca mandioca: a alimentação nas regiões metropolitanas da Amazônia Legal”, publicado pelo Instituto Escolhas.

O trabalho analisou a produção agrícola e a infraestrutura alimentar nas 15 regiões metropolitanas da Amazônia Legal — incluindo os polos paraenses de Belém e Santarém —, onde vivem mais de 12 milhões de pessoas.

“Nosso estudo mostra que essas regiões estão reduzindo a produção de alimentos tradicionalmente destinados ao consumo da população local e aumentando a produção de soja, voltada majoritariamente à exportação”, afirma Juliana Luiz, diretora de Pesquisa do Instituto Escolhas.

Concentração de terras no Pará

Os dados mostram um movimento claro de concentração de terras no Pará. Entre 2017 e 2022, a quantidade de sítios, fazendas e estabelecimentos rurais nas regiões metropolitanas paraenses caiu 49% — ou seja, praticamente metade dos produtores saiu de cena, afetando principalmente a agricultura familiar.

Por outro lado, o total de terras ocupadas pela agropecuária aumentou 11% no mesmo período. Até 2024, a área agrícola nessas regiões metropolitanas do Pará saltou para 424 mil hectares (um crescimento de 32% em relação a 2017). Na prática, menos pessoas estão controlando áreas cada vez maiores de terra.

Esse mesmo cenário se repetiu no restante da Amazônia Legal metropolitana, onde o número de propriedades rurais caiu 26% (de 142 mil para 105 mil) enquanto a área total subiu 8% (de 11,1 milhões para 12 milhões de hectares).

O avanço da soja versus o encolhimento da mandioca

A expansão da soja nas áreas metropolitanas da Amazônia foi bem mais rápida do que a média do País. Entre 2017 e 2024, a área plantada com o grão cresceu 71% nessas metrópoles, contra 45% no restante da Amazônia Legal e 36% no Brasil.

A comparação entre as culturas mostra o tamanho da mudança no uso do solo:

  • Soja: Saltou de 966,4 mil hectares (55% das lavouras) em 2017 para 1,65 milhão de hectares em 2024 (62% de toda a área plantada).
  • Mandioca: Encolheu de 98,6 mil hectares (6% da área) em 2017 para pouco mais de 71 mil hectares em 2024 (apenas 3% do total), o que representa uma queda de 28%.

Se em 2017 a área de soja já era 10 vezes maior que a de mandioca, em 2024 ela passou a ser 23 vezes maior.

O impacto na diversidade do prato

Embora a área agrícola total tenha crescido 53% nas metrópoles da Amazônia, esse crescimento ficou concentrado em poucas culturas. Enquanto soja (+71%), milho (+73%) e feijão (+49%) ganharam espaço, alimentos fundamentais para a mesa do paraense encolheram: Melancia (-51%), Mandioca (-28%), Banana (-11%) e arroz (-1%).

A presença da soja nos municípios metropolitanos também aumentou: em 2017, o grão era cultivado em 46% das cidades analisadas; em 2024, já estava em 57%. A mandioca ainda é a cultura mais espalhada pelo território (presente em 96% dos municípios em 2017), seguida por milho (91%), banana (89%), arroz (76%), melancia (66%) e feijão (64%).

Produção vai para fora

Grande parte do que é colhido na região não abastece as feiras e mercados locais. Em 2024, o Brasil exportou 68% da sua safra de soja. Na Amazônia Legal, a fatia enviada ao exterior foi ainda maior: dos 52 milhões de toneladas produzidos, 38 milhões (72%) foram para o mercado internacional.

Enquanto a soja vai para fora, a comida do dia a dia precisa vir de longe. Dados da Conab mostram que, em 2024, apenas 1,4% (161 mil toneladas) das frutas e hortaliças vendidas nas Ceasas do País vieram da Amazônia Legal. As centrais de abastecimento brasileiras venderam até mais produtos importados de outros países (184 mil toneladas) do que alimentos vindos da nossa própria região.

Na prática, isso deixa as cidades vulneráveis. Em Belém, por exemplo, 80% dos alimentos vendidos na Ceasa chegam de outros estados. A situação fica mais urgente com o crescimento populacional: as 15 regiões metropolitanas pesquisadas abrigam 12,5 milhões de pessoas e viram sua população crescer 6% entre 2017 e 2024 — três vezes mais do que a média nacional (2%).

O que o estudo propõe

Para recuperar a capacidade de produzir a própria comida e garantir preços justos na mesa, o Instituto Escolhas defende:

  • Para as Prefeituras: Entrar no Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN) e garantir verba própria para o setor.
  • Para os Estados: Modernizar entrepostos e Ceasas (como a do Pará), conectar a infraestrutura ao Plano Nacional de Abastecimento Alimentar e recompor o orçamento do setor.
  • Para o Governo Federal: Tratar a segurança alimentar como peça central da política urbana no país e garantir mais transparência sobre a origem da comida que chega aos mercados.

“Quando analisamos os instrumentos de gestão da agenda de segurança alimentar nas regiões metropolitanas, vemos um número muito baixo de municípios com planos e recursos para a agenda, 11% e 9%, respectivamente”, afirma Juliana Luiz. “É preciso que essas prefeituras, mas também os estados e o Governo Federal, melhorem de fato seus compromissos e ações para garantir o acesso das pessoas que vivem nessas cidades encravadas na floresta à alimentação regional e saudável.”

Clique aqui para acessar o estudo

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