Nesta semana, uma comunidade da zona rural de Breves, no Arquipélago do Marajó, recebe o mutirão de reflorestamento coordenado pelo Observatório do Marajó, que vai levar mais de 2,5 mil mudas para recuperação de áreas degradadas na região.

Em 2024, Breves viveu mais de 20 dias consecutivos sob fumaça provocada por incêndios florestais. O cenário é reflexo de um ciclo de desmatamento e queimadas crescentes que têm pressionado a região.
A ação circular começou no último final de semana em Portel, onde a parceria com comunidades levou oficinas, plantio, mapeamento e desenho de mapas de SAFs ao longo de três dias. O que levou a iniciativa até lá foram os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que mostraram que Portel registrou 4.565 focos de queimadas entre 2023 e 2025, o maior número da área citada.
Salomeia é uma das agricultoras que participaram da ação. Liderança do grupo Sementes do PA, ela comenta que participar do projeto dá continuidade ao propósito do grupo, que é expandir os plantios nas comunidades e usá-los para recuperar áreas degradadas.
“A gente sabe que é possível (usar o plantio para regeneração de áreas), mas não tínhamos condições de fazer em uma escala maior. Agora, com o mutirão, o que era desejo já é algo possível, real”, comenta.
Ao todo, a mobilização que reúne 50 membros de comunidades ribeirinhas e quilombolas realiza o plantio de mudas de espécies nativas como açaí, cacau, pracaxi e acapu em sistemas agroflorestais. A ideia principal é garantir renda para as famílias que vivem ali, fortalecendo a economia comunitária, valorizando a floresta em pé e garantindo segurança alimentar.
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Na comunidade N.Sra do Carmo, principal beneficiada pelo mutirão em Breves, o agricultor Benedito Pantoja revela que sempre sonhou em plantar café, mas nunca conseguiu pelo preço e dificuldade no acesso às mudas. Agora, o sonho é realizado pelo mutirão, que plantou as tão sonhadas mudas de café para Benedito.
“Eu tô realizando um sonho porque sempre quis plantar café, mas nunca deu pelo preço ou pela dificuldade de trazer a muda pra cá. Agora a muda tá aqui sendo plantada e daqui a três ou quatro anos vamos ter esse alimento tão importante na mesa. É um presente finalmente ter minha mudinha, que vai trazer outras oportunidades”, celebra.

Ediane Lima, gestora de projetos do Observatório do Marajó, explica que as atividades, planejadas desde 2025, incluem formações em agroecologia, construção de planos de ação comunitária e mapeamento das áreas onde os sistemas agroflorestais serão implantados. Antes do plantio, as comunidades participam de oficinas, intercâmbio de saberes e desenho coletivo dos mapas das áreas produtivas.
Ela explica ainda que a proposta vai além de recompor a vegetação, já que o modelo agroflorestal permite que a produção de alimentos comece já no primeiro ano.
“ (As SAFs) Fortalecem a coletividade, geram conhecimentos e contribuem para que as famílias colham alimentos seguros e construam novas fontes de renda”, afirmou.
Já a diretora executiva da organização, Valma Teles, reforça que o plantio representa uma estratégia de futuro para cada município atendido.
“Plantamos hoje e promovemos práticas sustentáveis para um futuro melhor. As comunidades estão fazendo na prática o que foi prometido em grandes conferências climáticas. Estamos plantando o presente para garantir um futuro mais próspero.”
Além dos mutirões de reflorestamento, o Observatório do Marajó já formou cinco brigadas comunitárias de combate a incêndios florestais desde 2020, fortalecendo a capacidade de resposta das comunidades.
Para eles, a grande expressão das queimadas no Marajó destaca a vulnerabilidade da região, assim como a necessidade de ações urgentes para evitar novos focos e recuperar áreas degradadas.
Após a passagem por Breves e Portel, os mutirões chegarão a Melgaço e Oeiras do Pará nas próximas semanas. Nesses municípios, a grande meta é continuar a corrente para transformar áreas queimadas em novas florestas produtivas, dando novas possibilidades de sustento em parceria com a natureza.


