Por Tereza Coelho
Provar um chocolate artesanal é, para muitos, um caminho sem volta. O que começa como uma simples degustação transforma um paladar educado pela pureza do cacau e livre de aditivos, tornando difícil aceitar qualquer coisa menos que a excelência.
Esse movimento silencioso ganha força não apenas pela qualidade das pequenas produções, mas pela crescente decepção com os chocolates industrializados, que tiveram suas fórmulas alteradas ao longo dos anos e se transformaram em produtos com excesso de açúcar e gordura.
Essa mudança no gosto dos chocolates que eram a alegria das crianças, principalmente na Páscoa, tem relação direta com uma legislação brasileira que durou quase vinte anos, permitindo fórmulas com baixo teor de cacau para reduzir custos. Agora isso deve mudar, com o projeto de lei aprovado recentemente na Câmara dos Deputados, que exige que, para ser chamado de chocolate, o produto contenha no mínimo 35% de sólidos totais de cacau, trazendo mais transparência e exigindo índices visíveis no rótulo.
A sensação de “traição”
Para muitos consumidores, a alteração nas receitas industriais gerou um sentimento de perda. A esteticista Luciana Oliveira viu seu bombom favorito, o Ouro Branco, mudar de gosto sem aviso.
“Eu cresci amando esse bombom. Mas houve um momento em que algo mudou e me senti traída. Na primeira mordida senti que o gosto não era mais o mesmo. Parecia até delírio, até pesquisar na internet e ver outras pessoas falando coisas parecidas”, relembra.
O problema também atingiu a saúde do arquiteto Alisson Cunha, que precisou cortar os doces da rotina por questões médicas.
“Sempre comi todos os dias, mas a mudança de formulações virou um problema médico causado pelas gorduras e precisei tirar os doces totalmente. Foi muito ruim, porque o chocolate era o que dava uma doçura para lidar com a dureza do dia a dia”, comenta.
O reencontro de Alisson com o chocolate teve um caminho inesperado. Após passar três anos sem consumir chocolates, um médico reinseriu o produto na dieta, desde que fossem as versões artesanais.
” No começo é diferente porque o sabor é mais intenso do que qualquer chocolate de mercado, mas com o tempo isso vai te conquistando de um jeito que não te larga. É um sabor que fica na boca por mais tempo, que dá para tomar com café, chás. Dá aquela alegria diária e ajuda na saúde”, narra.
Alisson lembra que comer chocolate é memória afetiva.
“Minha mãe descobria lojas, sabores e sempre dividia comigo as caixas. Pra mim, comer chocolate é reviver tudo isso, então vai muito além do sabor”, afirma.
Já Luciana descobriu esse novo mundo através do presente de uma amiga: um chocolate artesanal branco de cupuaçu.
“Quando mordi e senti aquele sabor de fruta, achei insano demais. Não sabia que dava para me ‘reapaixonar’ por algo desse jeito”, conta ela, que achava que chocolates artesanais era caros e inacessíveis.
Especialistas
Com o tempo, tanto Luciana como Alisson desenvolveram uma relação especial com esses produtos, conhecendo outras marcas e até fazendo experiências imersivas para conhecer o processo de fabricação.
Atualmente, Alisson possui na mesa de trabalho uma bomboniére onde disponibiliza porções de chocolates com frutas, de maior ou menor teor de cacau, feitos por marcas locais, todos cuidadosamente identificados. Segundo ele, os chocolates até ajudam a fechar negócios.
“Cada cooperativa e região produtora tem seu padrão, sua marca ali na barra do chocolate. Alguns já vem em moedas, outros preciso dividir em pedaços. Quando ofereço para os clientes, consigo dizer exatamente de onde ele é e isso quase sempre vira uma conversa sobre os municípios que produzem. Incrivelmente isso já me ajudou a fechar clientes”, diz.
Luciana, por sua vez, diz que hoje possui suas marcas preferidas e hoje usa a pureza dos chocolates artesanais na introdução alimentar da filha de três anos.
“Comecei essa introdução há três meses e fiz isso com um chocolate de Altamira com pedaços de frutas. Como ela já conhece o dulçor da fruta, não estranhou tanto. Quero que ela saiba diferenciar o sabor de verdade do excesso de açúcar, que tenha um paladar menos viciado e mais criterioso”, comenta.
Ciência e consciência social
O nutrólogo Gabriel Santana explica que a conexão sentimental que muitas pessoas acreditam experimentar quando comem chocolate possui uma base científica.
“É comprovado que o cacau dos chocolates mais amargos melhora a concentração, memória e pode ajudar na prevenção de doenças cerebrais, isso sem falar na sensação de prazer e tranquilidade logo após o consumo”, explica.
Ele lembra ainda que o chocolate possui benefícios importantes para a saúde, mas além de um consumo adequado, sem excessos, uma composição mais ‘limpa’ é fundamental para garantir benefícios.
“O chocolate pode ser um alimento bom para a saúde, e o que traz esses benefícios é a massa de cacau, rica em compostos antioxidantes. Produtos com 60% ou 70% de cacau já oferecem esses efeitos. Já aqueles com baixo teor de cacau e maior quantidade de açúcar e gorduras se aproximam mais de alimentos ultraprocessados e são muito perigosos para a saúde”, detalha.
Além de todos os benefício, Santana ressalta que o chocolate artesanal é também um elo social.
“É valorizar povos tradicionais e agricultores que estão fazendo o melhor para colocar algo seguro no mercado. Do ponto de vista social, é valorizar quem vive longe e entrega qualidade. Comer bem e de forma saudável é uma herança ancestral e um recado de união”, conclui.


