Por Tereza Coelho
Com a gestão da floresta no centro das soluções climáticas globais, a Amazônia começa a consolidar um novo papel no cenário científico e econômico: o de polo estratégico de inovação regenerativa. Impulsionada pela bioeconomia, pela biotecnologia e pela integração entre ciência e saberes tradicionais, seus estados vivem o crescimento de ecossistemas de inovação voltados à criação de soluções sustentáveis inspiradas na própria natureza.
Um levantamento realizado pelo CEPID Bridge (Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão apoiado pela FAPESP) com base em dados da Jornada Amazônia, mostra que o movimento de startups ligadas à bioeconomia amazônica cresceu quase 400% entre 2019 e 2025. O número de iniciativas passou de 205 para 789.
Nesse cenário, o Pará é considerado uma peça estratégica na articulação dessas redes de inovação. Dados do Observatório Sebrae Startups de 2025 mostram que o estado abriga 423 startups que representam mais de 27% do ecossistema local e atuam com soluções que integram biodiversidade, conhecimento tradicional e tecnologia para gerar valor econômico com base sustentável.
Segundo o Comitê Executivo do Plano Estadual de Bioeconomia (PlanBio), a bioeconomia paraense movimenta cerca de R$ 9 bilhões por ano, equivalente a 3,8% do PIB estadual.
Roberto Bernardes, coordenador do Programa de Pesquisa em Ecossistemas Digitais do CEPID Bridge, a Amazônia é uma das chaves para enfrentar esse cenário graças a prática da biomimética, apontando que parte dessas empresas que atuam na região aprendem com os mecanismos que a natureza testou ao longo de milênios para aplicá-los. Na prática, significa que usam soluções naturais para lidar com problemas humanos.
“Os ecossistemas amazônicos são resultado de milhões de anos de evolução e funcionam como uma biblioteca viva de soluções. Quando integramos esse conhecimento com biotecnologia e ciência digital, surgem inovações inspiradas na natureza”, diz o pesquisador.
O que motivou o estudo?
A proposta dos pesquisadores é entender como surgem os ecossistemas de inovação na floresta e de que maneira eles podem se integrar ao restante do País e ao mercado internacional.
Em 2025, o Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o Impacto Climático, da Alemanha, confirmou que a acidificação dos oceanos já ultrapassou o limite planetário considerado seguro. Na prática, isso significa que os ecossistemas naturais estão perdendo a capacidade de se autorregular e gerando impactos irreversíveis ao meio ambiente.
Por outro lado, a floresta ainda é um celeiro seguro de práticas que podem unir avanço ambiental e inovação sustentável.
“Queríamos entender como os atores locais buscam soluções para restaurar a biodiversidade e como isso pode se conectar com ciência avançada e inovação com inclusão e bem-estar social”, afirmou.
A pesquisa reúne universidades, startups, instituições públicas, parques tecnológicos e comunidades locais ao longo de pequenas expedições iniciadas em 2026.
Durante uma passagem feita pelo Amazonas, foram identificadas startups que utilizam nanobiotecnologia e algoritmos bioinspirados para desenvolver curativos avançados a partir de compostos amazônicos, por exemplo, unindo inteligência artificial, bioativos da floresta e conhecimentos tradicionais.
Para os pesquisadores, o avanço dessas chamadas deep techs, startups de base científica e tecnológica, depende diretamente da construção de redes colaborativas entre diferentes estados amazônicos.
Nesse contexto, o Pará ganha relevância especial por sua posição geográfica, científica e econômica na Amazônia oriental.
O estudo ressalta que o conhecimento das comunidades ribeirinhas e dos povos da floresta é parte fundamental das soluções desenvolvidas na região. Segundo os pesquisadores, não há regeneração ambiental sem inclusão social e geração de renda para as populações locais.
“Não existe regeneração ambiental sem regeneração social. É preciso incluir as comunidades, respeitar o conhecimento local e garantir a geração de renda”, destacou Bernardes.
Estratégias
O grupo identificou que o pleno desenvolvimento da inovação na Amazônia depende da arquitetura de redes: onde os ecossistemas locais devem se conectar com outras regiões do país. Eles citam como exemplo o parque tecnológico de Manaus, que troca conhecimento com iniciativas em Belém, e interagem com outros em Santa Catarina.
“Muitos estudos tratam esses ecossistemas de forma isolada, mas eles são complementares — existe clara interdependência entre eles”, explica.
Em breve, os pesquisadores devem visitar Belém, Macapá, Rondônia e Florianópolis para mapear de perto como os ecossistemas de inovação se conectam em diferentes contextos. O levantamento feito pelo grupo também busca alertar para os riscos do uso crescente de inteligência artificial e dados genéticos em pesquisas ligadas à biodiversidade amazônica.
“O uso de dados genômicos e IA exige muita responsabilidade. Riscos como vieses tóxicos e alucinação requerem um novo modelo de governança para a pesquisa”, declara.
Para enfrentar esses desafios, o grupo defende a criação de plataformas digitais capazes de conectar cientistas, investidores e empresas, ampliando o alcance internacional das soluções desenvolvidas na Amazônia. Para eles, isso permite não apenas a sobrevivência das iniciativas, mas sua expansão plena.
“Hoje, muitas soluções locais estão desconectadas do mercado global. É preciso criar condições para que elas possam alcançá-lo”, diz.
A equipe aponta que o potencial de aplicação dessas tecnologias vai muito além da Amazônia e podem ajudar outros grandes centros urbanos brasileiros. Em grandes cidades como São Paulo, problemas ambientais acumulados poderiam ser enfrentados com soluções inspiradas na natureza.
“A recuperação de rios, a qualidade do ar ou o uso da água. Todos esses aspectos podem se beneficiar dessas soluções”, pontua.


