Por Tereza Coelho
O Pará possui o equivalente a 32 mil hectares de cultivo de soja com potencial para adoção de práticas regenerativas e sustentáveis. Este é o diagnóstico conduzido pelo Projeto Soja Sustentável na Amazônia, que coloca o estado à frente de outros como Acre e Rondônia.
Apresentada no ‘Sustensoja – Caminhos para a Soja Sustentável’, evento realizado em Santarém neste mês, a iniciativa é coordenada pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal (Imaflora), em parceria com a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio (Fundepag) e a AgriTierra, com apoio da Alauda Consulting e da organização britânica Jacobs Futura Foundation (JFF)
O estudo avaliou 69 produtores dos três estados amazônicos em uma área superior a 61 mil hectares cultivados com soja. O levantamento identificou oportunidades para ampliar produtividade, reduzir impactos ambientais e aumentar o acesso dos produtores a mercados internacionais que exigem rastreabilidade e conformidade socioambiental.
Segundo a coordenadora de projetos do Imaflora, Caroline Anelli, o principal anúncio do encontro foi justamente a apresentação dos diagnósticos individuais aos produtores da região.
“O projeto oferece esse diagnóstico para cada produtor e apresenta possibilidades de melhoria com adoção de práticas relacionadas aos cinco critérios avaliados”, explicou.
O trabalho utiliza o PARS (Protocolo de Agricultura Regenerativa e Sustentável), ferramenta desenvolvida pela Fundepag em parceria com pesquisadores de universidades públicas. A metodologia avalia propriedades rurais a partir de cinco critérios: ambiental, socioeconômico, governança, agropecuário e biodiversidade.
De acordo com Caroline, o objetivo não é criar um ranking entre os estados, mas identificar oportunidades regionais para a transição da agricultura convencional para modelos regenerativos.
“A agricultura regenerativa é uma solução para aumentar essa produtividade e diminuir os custos, trazendo uma outra lógica de rentabilidade para o produtor”, afirmou.
Tecnologias a serviço dos ganhos ambientais
Entre as práticas debatidas durante o Sustensoja estão tecnologias como biochar (biocarvão, utilizado para aumentar o sequestro de carbono no solo) e a remineralização, técnica que busca recuperar nutrientes naturais do solo e reduzir a dependência de fertilizantes químicos.
Além do ganho ambiental, as medidas podem aumentar a resiliência hídrica das propriedades e melhorar a produtividade agrícola em longo prazo. O protocolo também destaca o potencial estratégico do Pará na consolidação da agricultura regenerativa no Brasil, especialmente pela experiência acumulada com sistemas agroflorestais.
O município de Tomé-Açu foi citado como referência em sistemas agroflorestais sustentáveis na Amazônia. Estudos mencionados pelo documento identificaram estoques entre 126 e 137 toneladas de CO₂ por hectare em sistemas agroflorestais da região.
O cacau cultivado em sistemas agroflorestais também aparece como exemplo de atividade capaz de unir produção e conservação ambiental. Segundo o levantamento, um hectare de cacau pode armazenar cerca de 57 toneladas de carbono, enquanto o cultivo sombreado pode sequestrar entre 11,9 e 16,3 toneladas de CO₂ equivalente por hectare ao ano.
Floresta como ativo econômico
O estudo aponta ainda que áreas de Reserva Legal da Amazônia armazenam, em média, 118 toneladas de CO₂ por hectare na vegetação, além de cerca de 34,7 toneladas no solo amazônico.
O documento aponta o potencial para novas oportunidades econômicas ligadas ao mercado de carbono e aos pagamentos por serviços ambientais, principalmente em sistemas produtivos biodiversos, como integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), sistemas silvipastoris e agroflorestais.
O avanço da agricultura regenerativa também surge como estratégia diante das novas exigências internacionais, como o Regulamento Antidesmatamento da União Europeia (EUDR) e o crescimento do mercado de soja Non-GMO.
A avaliação do Imaflora é de que a combinação entre produtividade, conservação florestal e rastreabilidade pode se tornar um diferencial competitivo para os produtores amazônicos.
“O produtor busca rentabilidade em um cenário mundial de commodities cada vez mais desafiador, mas essa rentabilidade não pode vir às custas da floresta. É a floresta que permite as condições climáticas para a agricultura”, destacou Caroline Anelli.
Os resultados completos do diagnóstico para Acre, Rondônia e Pará devem ser divulgados publicamente até o fim deste ano.


