Por Tereza Coelho
Antes do amanhecer, elas já dividiram o tempo entre o cuidado com os filhos, o café no fogão e o manejo da roça. Neste Dia das Mães, o olhar se volta para as mulheres que personificam a multifuncionalidade no campo: aquelas que administram propriedades, lideram cooperativas e movimentam a economia, provando que sustentabilidade e produção caminham juntas.
Segundo o último Censo Agropecuário do IBGE, as mulheres dirigem ou codirigem cerca de 1,7 milhão de propriedades rurais no Brasil. No Pará, essa força é nítida em mais de 57 mil estabelecimentos gerenciados por elas — o equivalente a 20% do total do estado. São, em sua maioria, produtoras acima dos 45 anos que atuam na agricultura familiar, quintais agroflorestais e pecuária, conciliando a geração de renda com a missão de garantir a segurança alimentar de suas famílias.
Com tantas responsabilidades acumuladas entre a maternidade e a gestão da terra, o que essas mulheres gostariam de compartilhar?
Neste Dia das Mães, o Pará Terra Boa ouviu quem faz do cuidado a sua maior ferramenta de produtividade.
“Administrar uma família é um grande trabalho de gestão”
Há 12 anos, a produtora rural Maria Gorete Ribeiro trocou a vida urbana e o trabalho como secretária pela rotina no campo. Hoje, à frente de uma propriedade de 78 hectares em Novo Repartimento, ela se tornou referência em manejo sustentável e regularização ambiental na pecuária paraense.

Graças ao trabalho diário e a busca por políticas públicas, ela foi a primeira produtora do município a identificar todo o rebanho e realizar venda direta ao frigorífico.
“Quando está tudo dentro das regras, fica mais fácil ter novas oportunidades e ganhar mais entrada no mercado e em projetos de incentivo. Isso é fundamental para mais pessoas engajem na produção sustentável”, diz.
Mas o caminho não foi simples. Além dos desafios técnicos, Gorete precisou enfrentar o preconceito por ser mulher em um setor historicamente masculino.
“Por muito tempo os caras não queriam me respeitar por ser mãe, mulher, proprietária. Tive que mostrar resultados muito acima da média para conquistar respeito, o que é péssimo. A única parte boa disso é que quando você prova que dá para produzir de forma sustentável e ter vantagens práticas, você vira referência”, conta.
Hoje, ela é frequentemente convidada para conversar com outras produtoras sobre regularização ambiental, sustentabilidade e gestão rural. E é justamente na experiência de mãe e chefe de família que ela diz encontrar força para administrar o negócio.
“Existe um julgamento que nem sempre é dito na cara (por ser mulher e mãe). Algumas pessoas olham como se tua capacidade fosse menor por administrar a família e ao mesmo tempo cuidar da terra, do gado e do dinheiro. Administrar uma família envolve tantos detalhes que jamais pensariam isso se soubessem o grande trabalho de gestão que é manter uma família de pé”, declara.
Para Gorete, as políticas públicas voltadas ao campo fazem diferença concreta na vida dessas famílias chefiadas pelas mães, avós e tias.
“Quando aquela mãe vê que existem políticas públicas suficientes para dar apoio ao trabalho dela, tipo um Pronaf Mulher, é quase a mesma coisa do que ter alguém para ajudar com os filhos numa emergência. O apoio do governo é fundamental e ajuda a salvar vidas”, frisa.
“Sonhar junto vai mudar o futuro da nossa comunidade”
Na Terra Quilombola Moju-Miri, o trabalho coletivo é parte da sobrevivência e da construção do futuro.
Michele Cardoso é uma das criadoras da Kakau Rivier, marca de chocolates e derivados do cacau desenvolvida por sete famílias da comunidade. Filha e neta de agricultores, ela cresceu vendo o trabalho na roça como parte da identidade familiar, mas percebeu cedo que seria preciso inovar para garantir renda e permanência das novas gerações no território.
“Viver é cada vez mais caro, embora a gente tenha uma boa disposição do básico para alimentação, só ela não basta para que nossos filhos também tenham uma vida digna”, explica.
Na comunidade, as decisões e os desafios são compartilhados, o que também reflete na produção agrícola e na adoção de práticas sustentáveis como Sistemas Agroflorestais, onde mesclam plantios de cacau com cupuaçu, banana e outras culturas.
“Uma parte muito importante do nosso conhecimento da roça vem do que nossos pais, tios e avós aprenderam ao longo da vida. Agora que podemos estudar mais e entender melhor os programas de incentivo, entramos numa nova fase de juntar o que sabemos desde sempre com o que a ciência avançou”, cita.
Michele acredita que a chegada de escolas, universidades e políticas voltadas ao campo vem mudando a relação dos jovens com a vida rural.
“Por muito tempo existia aquela ideia nos meninos e nas meninas de que precisava ir para a cidade grande para fazer a vida. Aos poucos isso está mudando. Nem todo mundo é mais obrigado a abandonar a terra pra virar gente”, declara.
Para ela, iniciativas sustentáveis têm impacto muito além da produção: possuem o poder de unir famílias, alinhar propósitos e reinventar o próprio futuro, consolidando um sonho coletivo de décadas. Entretanto, a manutenção desses direitos pode ser preservada (e ampliada) por um instrumento importante: o investimento em políticas públicas.

“Projetos e leis que ajudam a cuidar do campo não geram bem só para a natureza, mas para as famílias, para a autoestima e para as comunidades que fazem a economia girar. Um sonho sonhado junto dos nossos pode mudar uma vida inteira”, comenta.
Jornada dupla de força e resiliência
A história da agricultora e empreendedora Ginelda Lima, de Tomé-Açu, carrega marcas profundas de uma história bem conhecida na Amazônia: infância ribeirinha, maternidade precoce e pobreza. Entretanto, uma história que parecia ter um roteiro pronto foi transformada graças ao trabalho coletivo e a resiliência.
Filha de indígenas e caboclos, ela narra que chegou a Tomé-Açu ainda criança, depois que a mãe se separou do pai e precisou criar sozinha nove filhos. Sem nunca ter frequentado escola até os 12 anos, ela cresceu vendo a mãe sustentar a família produzindo farinha.
“Eu não me tornei agricultora, eu nasci agricultora”, afirma.
Embora tivesse o sonho de ter uma casa de farinha, a vida seguiu por caminhos difíceis. Ginelda casou aos 14 anos, foi mãe ainda adolescente e anos depois, acabou abandonada pelo marido. Desempregada e com as filhas cursando faculdade em Belém, ela encontrou na mandioca uma forma de sobreviver.
“Eu vendia mandioca ralada cedo nas padarias para sustentar minhas filhas. Era a única forma de conseguir dinheiro para ajudar elas”, relembra.
Foi nesse período que o turismo de base comunitária trouxe visitantes canadenses que mudariam sua vida. Encantados com sua história e com o trabalho coletivo desenvolvido no sítio, eles decidiram financiar a construção da tão sonhada Casa de Farinha Quebec, que leva no nome a lembrança deste encontro.
Hoje, o empreendimento possui certificações nacionais, vende para outros outros países, abastece programas de merenda escolar e reúne dezenas de famílias fornecedoras.
“Meus filhos foram criados com a agricultura e isso é motivo de muito orgulho. O trabalho na terra é tão ancestral quanto a própria maternidade”, celebra.
Ao longo do tempo, a produção também passou a incorporar sistemas agroflorestais, com plantio de mandioca integrado a espécies como açaí, cacau, cupuaçu, castanha-do-pará, cumaru e seringueira. Atualmente, a casa de farinha compra dos pequenos agricultores, processa e vende, gerando renda contínua para todos.
Entretanto, ela afirma que uma das maiores conquistas foi gerar oportunidades para outras mulheres, especialmente mães solo, que as vezes se enxergam sem saída no momento do abandono.
“A casa de farinha ajudou muito as mulheres solteiras, mães que não tinham condições. Hoje existe planejamento da roça, assistência técnica, parceria com prefeitura, sementes. Elas plantam e me vendem de volta. Todas sustentando suas famílias e sonhos com dignidade”, detalha.

Ao olhar para trás, ela resume a trajetória com a frase que sua avó gostava de dizer: “Sonho que se sonha só é só um sonho. Mas sonho que se sonha junto se torna realidade”. Em seguida, dá um recado para mães, avós e mulheres.
“Busquem informação, seja de turismo comunitário, SAFs, negócios sustentáveis, pagamento por serviços ambientais, bioeconomia. Nada é tão nosso quanto ter nosso sustento e dos nossos filhos garantido. Tem um monte de políticas públicas aí que dizem que vai nos beneficiar e outras tantas que já foram criadas nos últimos anos, vão atras delas. Uma conversa com líder comunitário ou alguém de um escritório rural pode trazer a transformação que tua vida precisa”, diz.


