O avanço do garimpo ilegal segue pressionando terras indígenas e áreas protegidas da Amazônia, principalmente na região da Bacia do Xingu, entre os estados do Pará e Mato Grosso. Um relatório divulgado pela Amazon Conservation e pelo Instituto Socioambiental (ISA) mostra que a atividade afeta diretamente os territórios indígenas paraenses, considerados estratégicos para a conservação da floresta.
Segundo o estudo, que usou imagens de satélite, radar e inteligência artificial para detectar áreas modificadas, a maior concentração do desmatamento ligado ao garimpo ilegal está no corredor socioambiental do Xingu. A área tem mais de 26 milhões de hectares de florestas protegidas, que contempla 24 terras indígenas e nove áreas protegidas, onde vivem 26 povos remanescentes.
De acordo com o estudo, entre 2018 e 2024, foram registrados cerca de 11,5 mil hectares de floresta destruídos pelo garimpo ilegal dentro de territórios indígenas e áreas protegidas do corredor. Apenas em 2025, outros 400 hectares já haviam sido impactados até setembro.
As mais atingidas estão no Pará
Entre as áreas mais afetadas estão as terras indígenas Kayapó, Baú e Kuruaya, todas no Pará. A TI Kayapó é apontada como o território com a maior área desmatada por garimpo ilegal em toda a Amazônia brasileira. De acordo com o Amazon Mining Watch, o território acumula cerca de 7.940 hectares degradados pela mineração ilegal.
Na Terra Indígena Kuruaya, localizada em Altamira, o avanço recente do garimpo preocupa lideranças locais. O estudo mostra que a atividade ilegal se expandiu principalmente ao longo do igarapé Madalena, onde o desmatamento cresceu nos últimos dois anos.
Já na Terra Indígena Baú, também em Altamira, o relatório destaca conflitos envolvendo indígenas e garimpeiros. A região conhecida como “Pista Velha” voltou a registrar atividade intensa de mineração ilegal, mesmo após operações de fiscalização.
Thaise Rodrigues, Analista de Geoprocessamento do ISA, constata a necessidade de uma intervenção articulada para combater a intervenção nessas áreas e defender sua integridade a longo prazo.
“Os dados dos sistemas de monitoramento utilizados por ambas as instituições não deixam dúvidas de que o Corredor do Xingu enfrenta um cenário de pressão crescente e generalizada, com a mineração ilegal avançando para áreas que até então permaneciam intactas. Para lidar com essa situação, é necessária uma resposta estrutural de longo prazo que garanta a integridade dessas florestas e das populações que delas dependem”, alerta.
Outros impactos
Além da destruição da floresta, o relatório alerta para os impactos sociais e ambientais provocados pelo garimpo, como a contaminação de rios por mercúrio, aumento de conflitos e pressão sobre comunidades indígenas e ribeirinhas.
O documento também afirma que a atividade não ocorre de forma isolada, já que o funcionamento dos garimpos ilegais depende de redes logísticas e econômicas que ajudam a manter seu funcionamento.
Os pesquisadores defendem a criação de uma força-tarefa permanente para combater o avanço do garimpo ilegal, feito em parceria com , ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas).
Além disso, essa iniciativa também deve levar apoio a iniciativas de monitoramento conduzidas pelas próprias comunidades indígenas, fortalecendo seus instrumentos de gestão.
LEIA MAIS
MPF denuncia contaminação por mercúrio em garimpos ilegais na Amazônia à CIDH
MPF processa Vale, União e estado do Pará por contaminação com metais pesados


