O Pará ocupa uma posição central na malha aérea invisível que sustenta o crime organizado na Amazônia. De acordo com levantamento do Ministério da Defesa, obtido pelo o Globo via Lei de Acesso à Informação (LAI), das 2.837 pistas de pouso irregulares da região, 942 estão no estado, situando-se como a segunda maior concentração da Amazônia Legal, atrás apenas do Mato Grosso, com 967.
No entanto, é em solo paraense que está o epicentro do problema: o município de Itaituba, polo histórico da mineração de ouro, é o campeão nacional de ocorrências, abrigando sozinho 218 pistas não registradas.
O levantamento, baseado em dados do Censipam, revela que a rede ilegal não para de crescer no estado. Enquanto Roraima viu o número de pistas ilegais diminuir após operações na TI Yanomami, Pará e Mato Grosso registraram 121 novas ocorrências entre 2024 e 2026. Segundo especialistas, o ranking reflete a própria economia do metal precioso.
“As pistas são a principal estrutura logística do ouro. Todo ouro, legal ou ilegal, é exportado de avião, pois tem muito valor para o mercado, mas um volume pequeno“, diz;
Invasão de áreas protegidas
A infraestrutura criminosa avança sobre o patrimônio ambiental. Das pistas mapeadas em Itaituba, 22 estão localizadas dentro da Terra Indígena Munduruku. Em toda a Amazônia, quase 30% dessas estruturas situam-se em TIs ou Unidades de Conservação (UCs).
Além do garimpo, a rede é compartilhada com o tráfico de drogas para reduzir custos operacionais.
“Sabemos que elas também são usadas pelo tráfico. São duas economias ilícitas que compartilham da mesma estrutura logística por facilidade e redução de custos”, reforça Larissa.
Mudanças recentes na fiscalização — como o fim da “presunção de boa fé” na venda do ouro e a obrigatoriedade da nota fiscal eletrônica — alteraram o fluxo do crime no Pará
De acordo com Rodrigo Chagas, pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a rota de “esquentamento” de minério, que antes drenava ouro de outros estados para Itaituba, agora parece ter se invertido para o contrabando via Guiana.
Nos últimos dois anos, o estado liderou as apreensões de ouro da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no País.
“Enxugamento de gelo”
A repressão esbarra em dificuldades físicas e técnicas. O professor Tássio Franchi, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), aponta que radares convencionais não detectam voos baixos na densa floresta paraense.
“Há uma dificuldade física em relação aos radares. Por conta dos modelos e da curvatura da Terra, eles enxergam até uma determinada distância e não pegam voos baixos”, elenca Franchi.
Mesmo quando identificadas e explodidas, a recuperação das pistas é veloz. Para Franchi, a destruição física muitas vezes resulta em um esforço inglório.
“É como enxugar gelo. O que acontece é que nas pistas mais importantes isso vai dar um refresco de três meses, a depender do grau de isolamento da área, até o grupo que opera ali refazer a pista”, sustenta o professor.
Impasse institucional
Apesar da gravidade, o combate ao problema sofre com o que o Ministério Público Federal (MPF) classifica como “troca de responsabilidades”.
Enquanto a Anac afirma que a inutilização de pistas cabe às polícias e à FAB, o Ibama e o ICMBio alegam falta de meios operacionais. No Pará, o controle do espaço aéreo permanece como um dos maiores gargalos para interromper o ciclo econômico do ouro ilegal e do tráfico na Amazônia.


