Por Tereza Coelho
O aumento da vazão do Rio Amazonas e das suas áreas de inundação provoca impactos cada vez mais visíveis em comunidades ribeirinhas, ecossistemas aquáticos e cidades da Amazônia, especialmente no Pará, onde estão algumas das maiores várzeas do planeta.
Um estudo conduzido por pesquisadores do Brasil, França e Reino Unido publicado no Environmental Research Letters mostra que pequenas elevações no nível do rio geraram mudanças muito maiores dentro das planícies alagáveis, ampliando enchentes, erosão e alterações ambientais.
De acordo com o estudo, nas últimas décadas, o rio vem sofrendo com secas e inundações cada vez mais extremas. A causa? Mudanças climáticas, que levam em conta o aquecimento global provocado pelo aumento das emissões de gases estufa.
A pesquisa analisou o comportamento das águas entre 1970 e 2023 em áreas do baixo Amazonas, entre Manaus (no Amazonas) e Santarém (no Pará), utilizando imagens de satélite, medições hidrológicas e modelos computacionais.
Os resultados indicam que, desde 2005, a vazão do Amazonas aumentou 4,7% em relação às décadas anteriores. Em algumas várzeas, porém, o crescimento foi ainda mais expressivo. O Lago Grande do Curuai, em Santarém, é um desses exemplos. Por lá, o aumento chegou em 60%.
“Já havia estudos mostrando o aumento da vazão no rio, mas não nas planícies”, afirmou a hidróloga Alice Fassoni de Andrade, líder da pesquisa.
Segundo os pesquisadores, o fenômeno revela que o sistema amazônico está se tornando mais sensível. Hoje, pequenas mudanças no nível do rio conseguem produzir impactos hidrológicos muito maiores do que no passado.
Pará entre as áreas mais vulneráveis
O estudo aponta que o Pará está entre os estados mais expostos aos efeitos dessas mudanças porque concentra grandes áreas de várzea e recebe diretamente a dinâmica do baixo Amazonas.
Municípios como Santarém, Óbidos, Almeirim e regiões insulares do Marajó podem enfrentar enchentes mais frequentes, avanço das águas sobre áreas habitadas, dificuldades de transporte fluvial e danos em estruturas como portos e palafitas.

Em Belém e áreas do estuário amazônico, especialistas também alertam para o aumento da vulnerabilidade urbana e da erosão das margens. O ecólogo Leandro Castello explica que o problema não está apenas na altura das cheias, mas também na velocidade da água.
“O estudo mostra que enchentes muito intensas não causam impactos apenas por atingirem níveis elevados de água, mas também porque aumentam a velocidade com que a água se movimenta dentro das planícies de inundação”, comentou.
Segundo ele, o aumento da velocidade da água acelera processos de erosão, transporte de sedimentos e deslocamento de matéria orgânica, alterando profundamente o funcionamento das várzeas.
Impactos na pesca, agricultura e biodiversidade
As mudanças no regime das águas preocupam porque as várzeas amazônicas dependem de um equilíbrio natural entre seca e cheia. Quando esse ciclo se altera, espécies de peixes perdem áreas de reprodução, árvores adaptadas ao pulso natural das águas podem morrer e toda a dinâmica da fauna e da flora sofre mudanças.
Os efeitos atingem diretamente atividades tradicionais da Amazônia, como a pesca artesanal e a agricultura de várzea. No Pará, a preocupação também envolve a cadeia do açaí, que depende do comportamento natural das cheias. Além disso, espécies como pirarucu, tucunaré e acará-açu podem enfrentar dificuldades devido à maior intensidade das correntezas em lagos e áreas alagadas.
“Ainda é difícil prever com precisão como o aumento da velocidade da água afetará os peixes”, afirmou Castello. “Mas muitas espécies dependem justamente de ambientes de correnteza mais lenta.”
Erosão e desbarrancamentos avançam
Outro efeito apontado pelos pesquisadores é o avanço dos desbarrancamentos e da perda de terras nas margens dos rios. Fluxos mais intensos aumentam a erosão das várzeas, provocam assoreamento de canais e podem comprometer áreas agrícolas e comunidades inteiras. O fenômeno já é observado em trechos do baixo Amazonas e do estuário paraense.
O ecólogo Jochen Schöngart destaca que a vegetação das várzeas funciona como uma barreira natural contra a força das águas. Ele detalha também que poucas áreas de várzea estão atualmente protegidas por unidades de conservação.
“Sem as plantas e árvores da várzea, o impacto das cheias extremas para as populações ribeirinhas seria ainda maior”, declara.
Mudanças climáticas intensificam extremos
Os pesquisadores associam o aumento das secas severas e das cheias históricas às mudanças climáticas e às alterações no regime de chuvas da Bacia Amazônica.
Dados analisados pelo estudo mostram que eventos extremos vêm se tornando mais frequentes nas últimas décadas. Em 2023, por exemplo, a Amazônia enfrentou uma seca histórica, que elevou a temperatura de lagos a até 41°C e provocou a morte de centenas de botos na região de Tefé.
Já durante as grandes enchentes, como as registradas em 2009 e 2021, as áreas de inundação do Amazonas atingiram vazões recordes. O hidrólogo Rodrigo de Paiva afirma que os modelos climáticos já indicam tendência de intensificação desses extremos.
“Existe muita incerteza sobre como essa combinação de mudanças no regime de chuvas vai afetar o Amazonas no futuro”, explicou.
Os pesquisadores defendem a ampliação do monitoramento contínuo das várzeas amazônicas e a criação de políticas públicas voltadas à proteção das populações ribeirinhas e da biodiversidade da região. Pra eles, esta é a principal forma de evitar mudanças irreversíveis na composição da fauna e flora amazônicas.


