Resumo
- O Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) publicou um caderno com 37 recomendações para cortar emissões de metano nos setores de agropecuária, resíduos, uso da terra e energia.
- A iniciativa surge em momento estratégico para atingir a meta de cortar 30% do gás até 2030, sob risco de intensificação de incêndios na Amazônia devido ao El Niño.
- A Agropecuária responde por 75,8% do metano emitido no Brasil (com a pecuária representando mais de 90% do volume), recebendo 15 propostas específicas.
- No setor de Uso da Terra (5 propostas), o combate a incêndios é considerado a ação prioritária. Em 2024, queimadas por desmatamento geraram 1,14 milhão de toneladas de metano (mais 1,01 milhão vindos de queimadas em vegetação nativa fora dos dados oficiais).
- Por ter vida mais curta na atmosfera que o CO2, o corte de metano traz resultados rápidos. A recém-aprovada Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo reforça a aplicação das medidas.
- O setor de resíduos reúne 12 propostas (fim de lixões e coleta seletiva) e o de energia possui 5 ações (redução de vazamentos em petróleo/gás).
- Como 4º maior emissor de metano do mundo (atrás de China, EUA e Índia), o Brasil precisa acelerar medidas práticas para cumprir a meta assumida na COP26.
O Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) lançou nesta terça-feira, 18, um caderno com 37 recomendações para reduzir as emissões de metano nos principais setores emissores do País — agropecuária, gestão de resíduos, mudança de uso da terra e florestas, e energia.
A iniciativa chega em um momento estratégico: o Brasil enfrenta um El Niño forte já consolidado no Pacífico, o que deve intensificar o risco de incêndios na Amazônia justamente quando o País busca cumprir o compromisso de cortar 30% das emissões de metano até 2030.
“Já estamos ultrapassando o limite de aquecimento global estabelecido no Acordo de Paris e sentimos as consequências pelo planeta. Reduzir o metano é uma ação crítica para retornar à normalidade climática. Temos à disposição um amplo conjunto de soluções para fazer isso, mas o Brasil precisa transformar esse conhecimento em ação coordenada e com escala”, afirma David Tsai, coordenador do SEEG.
O documento reserva atenção especial à agropecuária, responsável por 75,8% de todo o metano emitido no Brasil. Em 2024, o Brasil lançou na atmosfera 15,7 milhões de toneladas do gás, e mais de 90% desse volume veio da criação de gado. Das 37 ações propostas, 15 são voltadas especificamente a esse setor.
Entre as medidas sugeridas estão o zoneamento para melhor planejamento territorial, ampliação da assistência técnica, criação de linhas de crédito voltadas a práticas menos poluentes, recuperação de pastagens degradadas e adoção de sistemas integrados de produção.
O caderno também recomenda ajustes na idade de abate dos animais, melhoramento genético dos rebanhos, uso de aditivos que reduzam a produção de metano na digestão bovina e redução da queima de resíduos agrícolas.
“Mitigar metano na agropecuária é uma grande oportunidade para o setor, por incluir produtividade e eficiência na produção de alimentos. Essa edição do SEEG Soluções expande as estratégias já existentes, trazendo opções que podem ser implementadas por produtores, municípios e regiões do país”, ressalta Gabriel Quintana, coordenador da área de Ciência do Clima do Imaflora.
Combater incêndios é ação de maior impacto
No bloco voltado a Mudanças de Uso da Terra e Florestas — que reúne cinco das 37 propostas —, o SEEG aponta o combate a incêndios florestais como o principal caminho para reduzir as emissões desse setor, hoje associadas sobretudo a queimadas ligadas ao desmatamento.
Em 2024, essas queimadas foram responsáveis por 1,14 milhão de toneladas de metano — cerca de 6% do total emitido no país naquele ano.
Vale destacar que esse número não inclui as emissões de incêndios que atingem exclusivamente vegetação nativa, que ainda não entram nos inventários oficiais do governo.
Somado a isso, o SEEG estima que outro 1,01 milhão de toneladas de metano tenha sido emitido em 2024 apenas por esse tipo de queimada — o que reforça a dimensão do problema além do que os dados oficiais capturam.
Segundo Bárbara Zimbres, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e integrante do setor de Mudanças de Uso da Terra e Florestas no SEEG, medidas voltadas ao metano têm potencial de gerar resultado rápido, já que o gás tem meia-vida mais curta na atmosfera do que o CO2.
Ela avalia que a aprovação recente da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo cria um momento favorável para transformar planejamento em ação diante do risco de incêndios ligado ao El Niño.
“À medida que as mudanças climáticas tornam os períodos de seca mais longos e intensos e ampliam o risco de incêndios, investir em prevenção, monitoramento e manejo integrado do fogo passa a ser uma estratégia de adaptação climática”, complementa.
Resíduos e energia completam o pacote
O caderno dedica 12 propostas ao setor de resíduos, com foco em reduzir a geração de lixo, encerrar lixões e ampliar a coleta seletiva. Já o setor energético recebe cinco recomendações, voltadas principalmente à redução de vazamentos de metano na cadeia de petróleo e gás e à transição para tecnologias de menor emissão.
O Brasil é hoje o quarto maior emissor de metano do mundo, atrás de China, Estados Unidos e Índia. Mesmo após aderir ao Compromisso Global do Metano na COP26, em 2021, o país segue distante da meta assumida — o novo caderno do SEEG busca justamente detalhar o caminho técnico para reverter essa trajetória.


