Resumo
- Uma investigação revelou que grandes importadoras holandesas compraram madeira ilegal oriunda da Amazônia.
- A madeira veio da Samise, concessionária no Pará que acumula histórico de crimes ambientais, fraudes e multas de € 1,2 milhão.
- A empresa adulterou identificações de toras e burlou suspensões para exportar 3.000 m³ de angelim-vermelho para a Europa por meio de uma serraria parceira.
- As compradoras justificaram a aquisição baseando-se no selo ambiental FSC, que operou com sucessivas suspensões até ser cancelado definitivamente em março de 2026.
- O caso expôs brechas nas regras da União Europeia (EUTR), evidenciando que empresas dependem de certificados em vez de fiscalizarem de forma rigorosa as cadeias de suprimentos.
- A fraude ocorre em Saracá-Taquera, área de floresta densa e habitat de espécies ameaçadas, acendendo o debate sobre os planos do governo brasileiro de triplicar as concessões florestais federais.
Uma investigação realizada pela ONG Earthsight, com o apoio do Centro de Análise de Crimes Climáticos (CCCA), revelou que duas das maiores importadoras de madeira da Europa — as holandesas Hoogendoorn Hout e Van den Berg Houtgroep — adquiriram madeira de origem ilegal proveniente do Brasil.
Os carregamentos têm origem na Samise Indústria Comércio e Exportação Ltda., empresa que opera na Floresta Nacional de Saracá-Taquera, no Pará. A Samise acumula um histórico de suspensões, condenação criminal e multas que somam € 1,2 milhão.
A concessão da Samise possuía o selo do Forest Stewardship Council (FSC), principal certificação ambiental do setor. Apesar de repetidas suspensões do selo entre 2023 e 2025 devido às ilegalidades, as importadoras continuaram comprando o produto, alegando que adquiriam apenas lotes certificados.
O selo FSC da Samise só foi definitivamente cancelado em março de 2026, coincidindo com o envio do relatório da Earthsight aos órgãos auditores.
O caso expõe as vulnerabilidades do Regulamento da Madeira da União Europeia (EUTR). Especialistas apontam que as empresas europeias dependem excessivamente de selos de certificação terceirizados em vez de realizarem auditorias próprias e rigorosas sobre a origem dos produtos. A fiscalização irregular e a falta de sanções severas na Europa facilitam a entrada do material ilegal.
Resumo do Caso e das Irregularidades
- Fraude e Adulteração: Imagens de satélite e documentos indicam que a Samise adulterou a identificação de mais de 600 toras (avaliadas em € 100 mil) para ocultar a verdadeira origem da madeira.
- Violação de Suspensão: Mesmo após ter as operações suspensas por indícios de fraude, a empresa transportou ilegalmente 3.800 m³ de madeira da espécie angelim-vermelho para a serraria Greenex.
- Rota da Exportação: Entre julho e dezembro de 2023, a Greenex exportou 3.000 m³ desse montante para os Países Baixos. Quase 90% do volume foi comprado pela Hoogendoorn Hout e pela Van den Berg Houtgroep, com vínculos comerciais que se estenderam até 2025.
- Uso no Mercado Europeu: O angelim-vermelho, conhecido por sua alta resistência, foi utilizado na Holanda para a construção civil, incluindo decks de hotéis de luxo e passarelas públicas.
O impacto na Amazônia
Com uma área de 59.408 hectares no Pará, as operações da Samise estão entre as maiores do Brasil. Em 2021, a empresa bateu o recorde histórico de produção de toras em uma concessão federal.
A região de Saracá-Taquera abriga mais de 429 mil hectares de floresta densa e serve de habitat para espécies ameaçadas, como a onça-pintada.
O cenário traz questionamentos sobre a estratégia do governo brasileiro, que planeja triplicar as áreas de concessões florestais federais como medida de combate à extração ilegal.
Estudos científicos indicam que os limites atuais de manejo na região já são insustentáveis para a regeneração da floresta. Casos como o da Samise reforçam o temor de que a expansão das concessões possa agravar a degradação ambiental se não houver um controle rigoroso.
Fonte: ONG Earthsight


