Resumo
- Estudo da Zero Carbon Analytics aponta que florestas tropicais podem abrigar até US$ 1,2 trilhão em remédios não descobertos, gerando cerca de US$ 7 trilhões em benefícios para a saúde global.
- A bacia amazônica concentra US$ 214,7 bilhões desse potencial, mas o desmatamento desde 2001 já colocou em risco entre US$ 12 bilhões e US$ 36 bilhões desse valor (10% do total da região).
- O desmatamento tropical desde 2001 já custou US$ 86 bilhões em valor comercial farmacêutico. Se o ritmo continuar até 2050, a perda pode alcançar US$ 145 bilhões, valor que cairia para US$ 9 bilhões caso o desmatamento seja zerado até 2030.
- A biodiversidade já gerou tratamentos fundamentais como a pilocarpina (jaborandi), o paclitaxel (câncer), a vincristina (leucemia) e a quinina (malária).
- Das 15 maiores empresas do setor, apenas a AstraZeneca (US$ 400 milhões) e a Novo Nordisk Foundation (US$ 25-30 milhões) anunciaram aportes concretos para a conservação da biodiversidade.
- A distribuição de valor e financiamento da biodiversidade será pautada na reunião da Convenção sobre Diversidade Biológica em Nairóbi e na COP17, na Armênia.
Um novo estudo estima que as florestas tropicais podem esconder até US$ 1,2 trilhão em medicamentos que ainda não foram descobertos. O cálculo é da Zero Carbon Analytics, grupo de pesquisa internacional voltado a clima, natureza e transição energética.
Segundo a mesma análise, esses compostos ainda não identificados poderiam gerar cerca de US$ 7 trilhões em benefícios de saúde para a sociedade, somando o impacto de futuros tratamentos sobre pacientes e sistemas de saúde pública.
A Amazônia é uma das regiões com maior potencial: cerca de US$ 214,7 bilhões em possíveis medicamentos estariam associados à bacia. O problema é que parte desse valor já pode ter sido perdida. O estudo estima que, desde 2001, entre US$ 12 bilhões e US$ 36 bilhões desse potencial foram colocados em risco pelo desmatamento — o equivalente a 10% do total estimado para a região.
A lógica por trás do cálculo é direta: plantas, fungos e microrganismos carregam informações químicas que podem virar remédio. Quando uma área é destruída antes de ser estudada, essa informação se perde — e, com ela, a chance de transformá-la em tratamento. No total, o desmatamento tropical já pode ter eliminado US$ 86 bilhões em valor comercial farmacêutico desde 2001 (a estimativa varia entre US$ 46 bilhões e US$ 142 bilhões) e US$ 860 bilhões em valor social de saúde. Para dar uma ideia de escala, os pesquisadores comparam o potencial que ainda resta nas florestas ao custo da resposta mundial à pandemia de Covid-19: US$ 246,2 bilhões. O valor em jogo seria quase cinco vezes maior.
Vale notar que o cálculo olha só para plantas de florestas tropicais e subtropicais — não entram na conta organismos marinhos, ecossistemas de água doce nem fungos. Por isso, os próprios pesquisadores dizem que o número é conservador.
Remédios que já vieram da floresta
Essa relação entre biodiversidade e remédio não é hipotética — já existe, e há décadas. A pilocarpina, usada contra glaucoma e boca seca, vem do jaborandi, planta nativa do Brasil. O paclitaxel (vendido como Taxol), usado contra câncer, foi isolado do teixo-do-Pacífico; já tratou mais de 1 milhão de pacientes e faturou US$ 1,7 bilhão em 2025. A vincristina e a vimblastina, extraídas da vinca-de-Madagascar, ainda são usadas na quimioterapia de leucemia infantil e linfoma de Hodgkin. E a quinina, tirada da casca de árvores andinas do gênero Cinchona, foi o primeiro remédio eficaz contra a malária.
A indústria investe pouco
Apesar de depender desses recursos há tanto tempo, a indústria farmacêutica investe pouco na conservação das florestas que os originam. Das 15 maiores farmacêuticas do mundo, só duas anunciaram investimentos concretos em biodiversidade: a AstraZeneca, com US$ 400 milhões, e a Novo Nordisk Foundation, com algo entre US$ 25 milhões e US$ 30 milhões. As demais — como Bayer, Pfizer, Roche e Novartis — até falam sobre o tema publicamente, mas não assumem compromissos financeiros claros, segundo o levantamento.
Jo Bentley-McKune, autora principal do estudo, resume o problema assim: décadas de dependência dos recursos genéticos das florestas tropicais não vieram acompanhadas de investimento equivalente para proteger essa biodiversidade. Na avaliação dela, isso significa que compostos com potencial terapêutico podem estar desaparecendo antes mesmo de chegarem a ser estudados.
O que está em jogo até 2050
Se o desmatamento continuar no ritmo atual, a perda de potencial farmacêutico pode chegar a US$ 145 bilhões até 2050. Mas, se o mundo conseguir zerar a perda de florestas até 2030 — meta assumida por mais de 140 países na COP26 —, essa perda cairia para cerca de US$ 9 bilhões. Ou seja: agir a tempo preservaria um valor cerca de dez vezes maior do que o custo de não agir.
Além da Amazônia, Sudeste Asiático e Bacia do Congo concentram, juntos, mais da metade (54%) de todo o valor comercial estimado pelo estudo. O tema do financiamento à biodiversidade deve entrar em pauta na SBI-7, reunião da Convenção sobre Diversidade Biológica que acontece entre 4 e 12 de agosto em Nairóbi, com continuidade prevista para a COP17, em outubro, na Armênia.


