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Home»MEIO AMBIENTE»Como o rematamento produtivo quer romper o ciclo de degradação e pobreza na Amazônia
MEIO AMBIENTE 6 de agosto de 2026

Como o rematamento produtivo quer romper o ciclo de degradação e pobreza na Amazônia

Ao contrário da restauração tradicional, modelo prioriza impacto econômico e geração de renda local
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Foto: CAMTA
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Resumo

  • A Amazônia vive um paradoxo entre a importância de seu ecossistema e os baixos índices socioeconômicos locais, gerando um descompasso entre as agendas ambiental e de desenvolvimento da população.
  • Proposto pelo pesquisador Salo Coslovsky, o “rematamento produtivo” visa converter áreas desmatadas e pastagens degradadas em sistemas produtivos de espécies perenes (como agroflorestas e reflorestamento para madeira e biomassa).
  •  Ao contrário da restauração florestal tradicional, o foco principal do “rematamento produtivo” é a geração direta de emprego e renda para a população local.
  • Os mercados globais para produtos da região (cacau, açaí, óleo de palma, etc.) movimentam cerca de US$ 230 bilhões por ano, e empreendimentos já instalados na Amazônia movimentam US$ 7,2 bilhões anualmente.
  • A intensificação da pecuária existente pode liberar até 37 milhões de hectares para o rematamento, com estimativa de gerar um emprego direto a cada dois hectares restaurados.
  • Estratégia de Implementação tem 4 Frentes): regime regulatório adaptado ao contexto local;  acordos comerciais favoráveis para a produção sustentável; mobilização da rede de inovação nacional para aumentar a competitividade; fortalecimento de “Mesas Executivas” para articulação entre os setores público e privado.
  • A proposta defende redirecionar mecanismos e órgãos que já atuam no país (como Embrapa, BNDES, Plano Safra, Fundo Clima e EcoInvest) para alavancar essa agenda em larga escala.

A Amazônia enfrenta um paradoxo. Ao mesmo tempo em que abriga um dos ecossistemas mais importantes do planeta para a estabilidade climática global, a região convive com indicadores de emprego, renda e qualidade de vida inferiores aos do restante do Brasil. Diante da falta de oportunidades econômicas, cresce o apoio local a iniciativas que prometem desenvolvimento, mesmo quando associadas a custos ambientais.

É a partir desse diagnóstico que o estudo “Rematamento Produtivo, Conservação e Desenvolvimento Econômico na Amazônia Brasileira”, do pesquisador Salo Coslovsky, propõe uma nova estratégia para a região: o rematamento produtivo, conceito que busca transformar áreas já desmatadas e pastagens degradadas em sistemas produtivos baseados em espécies perenes, capazes de gerar empregos, renda e conservar recursos naturais.

Segundo o estudo, o debate amazônico tem sido marcado por um descompasso crescente. De um lado, a sociobioeconomia contribui para a conservação e a valorização de comunidades locais, mas enfrenta dificuldades para alcançar escala. De outro, o financiamento climático tem ampliado os recursos destinados à proteção ambiental, mas nem sempre prioriza a geração de empregos e oportunidades econômicas para a população amazônica.

“O resultado é uma guerra de desgaste que não entrega plenamente nem conservação ambiental nem prosperidade econômica”, apontam os autores.

A proposta do rematamento produtivo parte da premissa de que a Amazônia já possui os elementos necessários para impulsionar uma nova economia baseada na recuperação produtiva de áreas abertas. O conceito engloba atividades como sistemas agroflorestais, reflorestamento para produção de fibras, madeira e biomassa, restauração florestal remunerada por créditos de carbono e agricultura de alto valor agregado.

Diferentemente das estratégias tradicionais de restauração, o rematamento tem como principal métrica de sucesso a geração de emprego e renda.

Potencial econômico

O estudo destaca que existe demanda consolidada para produtos associados ao rematamento. Consumidores no Brasil e no exterior movimentam cerca de US$ 230 bilhões por ano em mercados relacionados a produtos como cacau, açaí, óleo de palma e frutas tropicais. Além disso, empreendimentos sediados na Amazônia já movimentam aproximadamente US$ 7,2 bilhões anuais na produção e comercialização dessas mercadorias.

Outro ponto ressaltado pelos pesquisadores é a disponibilidade de terras. A pesquisa aponta que a intensificação da pecuária em áreas já abertas poderia liberar cerca de 37 milhões de hectares para novos usos produtivos, sem prejuízo à produção de carne.

O potencial de geração de empregos também é expressivo. Segundo estimativas citadas pelo estudo, a restauração de dois hectares pode gerar, em média, um emprego direto. Em sistemas produtivos permanentes, esse potencial tende a ser ainda maior.

Conservação com prosperidade

Além de apresentar uma proposta econômica, o estudo faz um alerta sobre a crescente distância entre as prioridades da população amazônica e a agenda ambiental tradicional.

Os autores argumentam que grande parte dos moradores da região vê o desenvolvimento econômico como uma necessidade imediata, enquanto temas ambientais costumam aparecer em segundo plano diante de desafios como emprego, renda, segurança e acesso a serviços públicos.

Nesse contexto, o rematamento produtivo é apresentado como uma estratégia capaz de aproximar objetivos frequentemente tratados como conflitantes: conservar a floresta e gerar prosperidade econômica.

Quatro frentes para avançar

Para transformar o rematamento em política pública de escala, o estudo propõe quatro grandes frentes de atuação:

  • Criação de um regime regulatório adaptado à realidade amazônica;
  • Construção de acordos comerciais favoráveis a produtos e serviços associados ao rematamento;
  • Mobilização do sistema nacional de inovação para aumentar produtividade e competitividade;
  • Fortalecimento das Mesas Executivas como espaços de coordenação entre setor público e iniciativa privada.

Segundo os autores, a Amazônia já dispõe de instituições e instrumentos capazes de impulsionar essa agenda, como Embrapa, BNDES, Plano Safra, Finep, Fundo Clima e EcoInvest. O desafio passa agora por direcionar esses mecanismos para uma estratégia que combine conservação ambiental, competitividade econômica e geração de oportunidades para a população da região.

“A trajetória recente tem custado à Amazônia sua floresta sem trazer prosperidade. O rematamento produtivo busca justamente romper esse ciclo”, conclui o estudo.

Fonte: Amazônia 2030

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