A Amazônia sofreu uma grande transformação em sua estrutura nas últimas décadas. Segundo dados inéditos do módulo de Degradação do MapBiomas, divulgados nesta quarta-feira, 13, o bioma registrou uma explosão de 332% no número de fragmentos florestais, entre 1986 e 2023, evidenciando que a maior floresta tropical do mundo está cada vez mais “fatiada” e vulnerável a fatores como o corte seletivo de madeira.
A queda da vegetação aconteceu em todos os biomas do País, que viu o número de fragmentos de cobertura vegetal passar de 2,7 milhões em 1986 para 7,1 milhões em 2023 – um salto de 163%.
A fragmentação ocorre quando áreas antes contínuas são isoladas pelo desmatamento. No caso da Amazônia, o tamanho médio de seus fragmentos de vegetação nativa encolheu 82%.
“Quanto menor for o tamanho dos fragmentos de vegetação nativa, maior será a suscetibilidade à degradação. O tamanho dos fragmentos de vegetação nativa tem relação direta com a quantidade e variedade da fauna e da flora presente. Cada vez que diminui o tamanho de um fragmento de vegetação nativa, mais problemas aparecem: aumenta o risco de extinções locais dessas espécies, diminui a chance de recolonização por indivíduos vindos de outros fragmentos vizinhos e maior é a proporção do efeito de borda. Em suma, esses fragmentos vão perdendo a diversidade de espécies”, explica o pesquisador do Ipam e coordenador do módulo, Dhemerson Conciani
Corte de madeira
Na Amazônia Legal, a degradação ganha contornos específicos com os “distúrbios de dossel” — rompimentos na camada superior das copas das árvores. O monitoramento indica que, entre 1988 e 2024, 7% da cobertura florestal da região (24,9 milhões de hectares) apresentaram sinais de distúrbio.
O corte seletivo de madeira é um dos principais problemas, afetando 9,7 milhões de hectares no período, com concentração crítica (83,5%) nos estados de Mato Grosso e Pará. Além da ação humana direta, as mudanças climáticas agravam o cenário nas florestas alagáveis.
“A previsão de ocorrência de El Niño para este ano indica condições favoráveis para novas secas na região, o que tende a facilitar a ocorrência desses distúrbios nesse tipo de floresta”, alerta Bruno Ferreira, pesquisador do MapBiomas.
Monitoramento é vital
Diferente do desmatamento total, a degradação mantém a vegetação em pé, porém fragilizada. O pesquisador Eduardo Vélez explica que o monitoramento é vital para a restauração:
“O monitoramento da degradação complementa o monitoramento do desmatamento. A importância desse acompanhamento se justifica pelo fato de que a degradação de um remanescente de vegetação nativa muitas vezes pode ser minimizada ou revertida. Porém, se as causas da degradação não forem interrompidas, a capacidade de recuperação biológica natural das áreas afetadas pode ficar muito comprometida”.
Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, reforça que a nova análise é fundamental para o cumprimento de metas internacionais de restauração:
“O módulo de Degradação do MapBiomas é uma ferramenta estratégica de apoio à recuperação de áreas degradadas e à conservação da vegetação nativa no país.”


