Resumo
- Belém abriu a II Semana do Clima da Amazônia com a missão de transformar as promessas da COP30 em projetos reais para as comunidades da floresta.
- O evento agora faz parte do calendário oficial de Belém, tornando o Pará o quinto estado do país a ter uma semana fixa dedicada ao clima.
- Com o dobro do tamanho da edição anterior, o fórum contou com a participação de agricultores que enfrentam os efeitos do calor e da seca em suas lavouras.
- Um estudo recente aponta que o Brasil tem potencial para aumentar sua cobertura florestal em 8 milhões de hectares até 2035, se investir em conservação e regularizar terras públicas.
- Especialistas e lideranças indicam que a era dos discursos acabou; agora, o foco global está em monitorar metas e financiar a sociobioeconomia.
Diante do enorme desafio de fazer com que as promessas da COP30 saiam do papel e cheguem ao chão da floresta, começou nesta segunda-feira, 29, em Belém, a II Semana do Clima da Amazônia. O encontro, que vai até 4 de julho, é o principal fórum da região criado para garantir que os acordos assinados diante da ONU virem ações de verdade.
Na abertura, a secretária municipal de Meio Ambiente, Juliana Nobre, confirmou que a programação agora faz parte do calendário anual da cidade.
Com isso, o Pará entra para o grupo de estados com uma Semana do Clima fixa — como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Mato Grosso.
O evento dobrou de tamanho em 2026, reunindo uma rede de 30 instituições e mais de 70 atividades organizadas pela própria sociedade civil.
A voz da floresta contra a crise do clima
Muito além da diplomacia, o diferencial do encontro foi dar o microfone a quem vive a crise climática na pele. O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), um dos organizadores, trouxe quase 100 agricultores e líderes comunitários para o centro do debate.
Para essas pessoas, o clima já mudou a renda da família. Marluce Coelho, de 32 anos, liderança do Quilombo Maria Valentina, no oeste paraense, contou como a seca e o El Niño de 2024 castigaram a produção de mandioca, a base do sustento local.
“A seca já deixou o nosso solo muito mais enfraquecido e, consequentemente, ano passado vivemos uma temperatura muito elevada. Isso fez com que, no local de onde tiramos o derivado da mandioca, a gente visse um cozimento da própria raiz ainda debaixo da terra. Eu, que trabalho diretamente com o extensionamento rural, percebi isso na pele: a nossa produção está diminuindo drasticamente e hoje o agricultor precisa de muito mais esforço de trabalho para conseguir uma produção menor. Antes, a regra era outra”, alertou a liderança quilombola.
Marluce, que atua na Federação das Organizações Quilombolas de Santarém (FOQS), defende que esses fóruns são estratégicos para que todos possam compreender a importância de cada indivíduo na engrenagem.
A receita para virar o jogo
O evento também trouxe caminhos desenhados pela ciência. A jornalista Sônia Bridi lembrou que o planeta pode aquecer 2,6 °C até o fim do século se o mundo não acelerar o passo.
Beto Veríssimo, coordenador do projeto Amazônia 2030, defende que “o Brasil terá que errar muito para não conseguir cumprir suas metas”. Um estudo recente do projeto mostra que o País pode aumentar sua cobertura florestal em 8 milhões de hectares em dez anos, desde que regularize 50,9 milhões de hectares de terras públicas e mude a lógica do financiamento.
“Ninguém quer investir na Amazônia se houver confusão entre, de um lado, a ilegalidade e o desmatamento, e, do outro, a floresta. Isso tem que ser resolvido politicamente”, explica Beto.
A aposta deve ser na economia verde, como aponta Joanna Martins, da rede Uma Concertação pela Amazônia.
“A gente tem soluções, mas muitas vezes não são implementadas porque a gente não acredita nelas. Sem medo, podemos mostrar para o mundo que as soluções existem e estão aqui na Amazônia”.
Cobrança e pé no acelerador
A mensagem final é de que as reuniões de negociadores ficaram no passado. André Guimarães, diretor-executivo do Ipam, explicou que a geopolítica do clima mudou de patamar.
“A COP30 deslocou o debate para outro lugar. O debate saiu do grupo de negociadores e foi para os investidores, para as populações tradicionais, para os povos indígenas e para a sociedade em geral. Agora, a gente precisa manter essa energia e fazer com que ela resulte em implementação”, afirmou, lembrando que “não existe como estabilizar o clima do planeta se a gente não resolver a equação amazônica”.
Esse plano de voo é monitorado pela Agenda de Ação da COP30. Mauro O’de Almeida, coordenador dessa agenda, detalhou que as conferências agora cobram resultados reais ao longo do ano.
“A presidência brasileira da COP30 colocou a implementação no centro da estratégia política. Em vez de compreender a conferência como um evento isolado de negociação, passou a enxergá-la como o início de um ciclo permanente de execução. Belém deixa de ser um lugar onde foram negociadas decisões e passa a ser lembrada como o momento em que a COP30 marcou o início da organização de uma verdadeira arquitetura de implementação da governança climática internacional”, enfatizou Mauro.
Como resumiu Lucimar Souza, diretora do IPAM, a II Semana do Clima nasce como um “legado vivo da COP30”, feito para garantir que os compromissos virem realidade no dia a dia de quem cuida da Amazônia.
Fonte: Amazônia Vox e Ipam


