No último fim de semana, Belém sediou a décima edição do Festival Internacional do Chocolate e do Cacau – Chocolat Amazônia e Flor Pará, que reuniu cerca de 100 mil visitantes ao longo de quatro dias de programação. Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap), o evento movimentou aproximadamente R$ 15 milhões em negócios diretos e futuros.
A programação que reuniu mais de 500 produtores em 170 estandes, teve opções para todos os públicos como degustações, lançamentos, oficinas, apresentações culturais e atividades para o público infantil. Espaços paralelos como a Cozinha Show, o Flor Show, Fórum do Cacau e Chocoday ampliaram a experiência dos visitantes e trouxeram novos horizontes para os trabalhadores do setor.
Além da exposição e venda de produtos, o festival também abriu espaço para discussões sobre o futuro do setor por meio de painéis temáticos, onde especialistas abordaram a cadeia do cacau desde o plantio até a exportação, apontando desafios e oportunidades.
O chef e chocolatier Fábio Sicília foi um dos palestrantes e destacou a necessidade de fortalecer a identidade do produto brasileiro no mercado global, para gerar negócios com o DNA da Amazônia.
“O Brasil movimenta bilhões de reais em chocolates, todos os anos. A gente aborda essa questão de se posicionar, de definir a marca, parar de cair na armadilha da commodity e nos colocar para o mercado”, diz.
Para Fábio, um dos caminhos possíveis para essa mudança é o fortalecimento das marcas locais, que geraria mais valor agregado para a produção, indo além do lugar clássico de fornecedor de matéria-prima.
“O Brasil tem que achar esse ponto de equilíbrio, para se posicionar como produtor de cacau e chocolate de referência, por isso, a marca Brasil-Pará importa”, afirmou.
Ivaldo Santana, coordenador do festival e do Fundo de Apoio à Cacauicultura do Pará (Funcacau), comenta que a troca de experiências entre produtores é um dos principais ganhos do evento.
“Um evento dessa natureza integra várias regiões. Os produtores trocam informações entre si. Nós temos o Fórum do Cacau, onde vários especialistas do Brasil e do mundo vêm falar sobre cacau, e painéis com chocolatiers ensinando várias formas de produzir chocolate. Então, isso aqui é uma escola para o produtor e isso leva o nome do Pará para o Brasil e mundo”, reforçou.
Tendências de mercado
Iniciativas que promovem o turismo por meio do conhecimento da cadeia produtiva, semelhante ao turismo comunitário, foram um grande destaque nas tendências de mercado. A chocolatier Sarah Brogni compartilhou a experiência ao abrir sua fazenda para visitação guiada, prática que já atrai clientes e gera resultados positivos.
“A gente lançou o que chamamos de rota turística, com experiência de café da manhã, almoço e imersão na fazenda. Foi algo que precisávamos implementar para investir na juventude e hoje a gente recebe turismo internacional”, disse.
Produção de origem indígena
O protagonismo indígena também teve espaço relevante no evento. Um dos destaques foi o lançamento do chocolate artesanal Kunhã Arã, produzido por uma associação indígena de Altamira, região que concentra boa parte da produção de cacau paraense.
A líder da associação, Irasilda Juruna, destacou os impactos da iniciativa, que dá nova vida a um projeto antigo e contribui para o sustento de diversas famílias.
“O que temos hoje na comunidade é resultado de um trabalho que começou com o antigo Chocodjá e teve grande aceitação. É um projeto voltado principalmente para as mulheres, com o objetivo de complementar a renda das famílias”, afirmou.
Já a fundadora da Sidjä Wahiü, Katyana Xipaya, ressaltou o papel do chocolate na valorização do manejo sustentável promovido pelas comunidades tradicionais.
“O chocolate abriu portas para nós e para outras comunidades indígenas e ribeirinhas. A nossa comunidade foi conquistando reconhecimento internacional pela forma com que a gente trabalha, com sustentabilidade, gerando renda e valorizando a cultura, os saberes ancestrais e a floresta”, afirmou.
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