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O Território Quilombola de Gurupá, no Marajó (PA), abriga cerca de 310 famílias que dependem diretamente do rio Arari e de igarapés para transporte e subsistência, tendo o açaí como base alimentar e econômica.
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Secas extremas e mudanças nos ciclos de chuva provocaram a queda de rios, mortalidade de peixes e choque térmico nos açaizais (deixando os frutos secos). Além disso, a redução da água doce permitiu o avanço da água salgada do oceano na região.
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Entre 12 e 16 de maio de 2026, um grupo de 13 pesquisadores e dois jornalistas de instituições como Imazon, ISA, Bioflore e Fiocruz realizou uma expedição na área para medir e mitigar os danos ambientais.
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A equipe utilizou drones com tecnologia LiDAR (laser) e câmeras de alta resolução para mapear 300 hectares de floresta. Os dados servem para calcular a altura da vegetação, o estoque de carbono e amparar o manejo comunitário do açaí.
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Testes laboratoriais da Fiocruz avaliaram a qualidade da água dos rios. A falta de saneamento e tratamento governamental força as famílias a usarem poços sem tratamento adequado, gerando surtos de diarreia e vômito, sobretudo em crianças.
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Os pesquisadores planejam retornar ao território no segundo semestre de 2026 para apresentar um diagnóstico consolidado e construir, junto com os moradores, um plano de adaptação climática para o quilombo.
A crise climática global está ameaçando a subsistência de 310 famílias no Território Quilombola de Gurupá, no Marajó (PA). De acordo com pesquisadores do projeto Áreas Úmidas da Amazônia (RAISG), as secas extremas e o desequilíbrio ambiental já desestabilizam a produção de açaí e a pesca, atividades que são a base econômica e alimentar da comunidade.
“As populações e a biodiversidade já sofreram impactos negativos das mudanças climáticas, com as secas extremas de 2023 e 2024, mas ainda não foram caracterizados nem medidos”, explica Carlos Souza Jr., coordenador científico do projeto Áreas Úmidas da Amazônia, conduzido pela RAISG:
Os moradores já relatam a diminuição expressiva do nível dos rios, lagos e igarapés, a mortalidade de peixes e a queda na produtividade do açaí, cujos frutos começaram a aparecer “queimados” e secos nos próprios cachos devido ao choque térmico causado por chuvas torrenciais em períodos de calor extremo.
Além disso, a redução do volume de água doce permitiu que a água salgada do oceano avançasse com maior força pelo estuário do Marajó entre os meses de julho e dezembro, elevando a salinidade local.
O professor Rosivaldo Correa, residente da comunidade e presidente da Associação de Remanescentes de Quilombo do Rio Gurupá (ARQUIG), descreve o impacto prático na lavoura:
“O que tem afetado diretamente a produção do açaí, de forma notória, são as mudanças nos ciclos do período chuvoso e do período de seca. Se já tá quente e o cacho do açaí tá maduro e cai uma chuva (às vezes tem chuvas torrenciais), há um choque térmico, o açaí na árvore amolece e posteriormente ele seca.”
Para mensurar e mitigar esses danos, um grupo de 13 pesquisadores e dois jornalistas do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), do Instituto Socioambiental (ISA), da startup Bioflore e da Fiocruz, realizou uma expedição de campo na região entre os dias 12 e 16 de maio de 2026. A ação integra os projetos Áreas Úmidas e Vulnerabilidade Hídrica, liderados pela Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG).
Tecnologia 3D mapeia os impactos
Durante três dias, a equipe utilizou drones equipados com sensores LiDAR (tecnologia laser capaz de penetrar na copa das árvores e gerar imagens tridimensionais) e câmeras RGB de alta resolução. Foram mapeados cerca de 300 hectares ao longo de 12 pontos estratégicos no rio Arari e nos igarapés Murucutu, Gurupá e Baixo Gurupá. O levantamento envolveu áreas de açaizais nativos intocados, áreas manejadas e extensões de floresta ainda não exploradas.
Heitor Filpi, CEO da startup Bioflore — responsável pelo suporte técnico de sensoriamento remoto e Inteligência Artificial —, detalha a aplicação prática do maquinário:
“Trabalhamos com o LiDAR, um tipo de sensor capaz de penetrar a copa da vegetação e gerar imagens tridimensionais da floresta. Com essas informações em 3D, conseguisons calcular a altura da vegetação e o estoque de carbono que as árvores armazenam. Outra tecnologia utilizada é a câmera RGB, que captura imagens em altíssima resolução para que a gente possa identificar as espécies existentes aqui, a quantidade delas e conhecer melhor a biodiversidade da região”.
Os dados coletados servirão para amparar o manejo comunitário do fruto e fundamentar novos pleitos políticos e econômicos, como aponta Rosivaldo Correa:
“Com esse levantamento, a gente vai ter dados mais precisos e poderá elaborar projetos, participar de editais, e isso vai ser um ganho muito grande para nós. É muito importante ter esses dados para buscar melhorias para o nosso povo”.
Reflexos na saúde pública
Paralelamente ao monitoramento da vegetação, a qualidade da água dos rios e poços locais passou por avaliação laboratorial. A pesquisadora Gina Boemer, da Fiocruz, coletou sete amostras de água líquida em pontos do rio Arari e dos igarapés Gurupá, Murutucu e Aracaju para analisar parâmetros como pH, teor de oxigênio e a concentração de sais minerais decorrentes do avanço marítimo. Segundo ela:
“O desejável é que a água esteja mais próxima das condições originais e que não haja grandes impactos humanos interferindo nessa qualidade hídrica. Esse equilíbrio ambiental é necessário para a manutenção da vida nesse ecossistema”.
A vulnerabilidade estende-se também à água de consumo doméstico. Sem redes de tratamento governamentais, as famílias dependem de poços artesianos e poços rasos (conhecidos como “poços de boca aberta”), purificando a água individualmente por fervura ou uso de hipoclorito de sódio. A ausência de tratamento adequado e de um diagnóstico frequente tem provocado surtos de diarreia e vômito na população local, com maior incidência entre crianças.
A coordenadora escolar e moradora Miriam Santos compartilhou sua experiência pessoal com o problema:
“Na minha casa, eu fervo a água para tomar, porque há muito tempo já sofri com algumas doenças causadas pela contaminação. Então, eu tenho certeza de que essa pesquisa vai gerar bons frutos, principalmente em relação à saúde das pessoas”.
Próximos passos
O cronograma do projeto prevê o retorno dos pesquisadores ao Território de Gurupá ainda no segundo semestre de 2026 para apresentar o diagnóstico consolidado à comunidade. A meta é utilizar o conjunto final de dados para formular soluções e estruturar um plano robusto de adaptação climática. O pesquisador do ISA, Cícero Augusto, conclui:
“Em breve, vamos ter um dossiê detalhado sobre o que está acontecendo na comunidade. Existem algumas tendências sobre o que pode estar acontecendo, mas esse conjunto de dados pode nos dar perspectivas para compreender melhor essas mudanças e construir um plano de adaptação climática para o quilombo”.
Fonte: Imazon


