Resumo:
- Mato Grosso e Pará foram os estados que mais queimaram no Brasil nas últimas quatro décadas, com mais de 76 milhões de hectares atingidos pelo fogo desde 1985, e lideram também a expansão agropecuária na Amazônia
- Na Amazônia, a pastagem concentra 48,8% de toda a área queimada: é o único bioma do País onde o fogo atinge mais áreas de uso humano (52%) do que a vegetação nativa (48%)
- A forte redução de 2025, quando a Amazônia teve a menor marca em 41 anos, combina queda do desmatamento, mais fiscalização e uma mudança de comportamento dos produtores, que passaram a usar o fogo com mais cautela após a crise de 2024
- Como a maior parte do fogo tem origem humana, especialistas apontam o produtor rural como peça central do controle das queimadas, sobretudo diante de um novo El Niño, que deve elevar o risco em 2026 e 2027
Por André Garcia
Mato Grosso e Pará foram os estados que mais queimaram no Brasil nas últimas quatro décadas, com mais de 76 milhões de hectares (ha) atingidos pelo fogo desde 1985. Juntos, eles também lideram a expansão agropecuária na Amazônia, onde a pastagem alavanca a destruição, concentrando 48,8% de toda a área queimada do bioma.
Os dados, divulgados nesta semana pelo MapBiomas, mostram que, apesar da forte redução em 2025, a região é a única onde as chamas atingem mais áreas de uso humano do que a vegetação nativa: 52% das queimadas ocorrem em pasto, lavoura e outras áreas abertas para produção, contra 48% em mata preservada.
“A maior parte da área queimada em áreas antrópicas está em pastagem, isso principalmente na Amazônia”, explicou Vera Laísa Arruda, pesquisadora do IPAM e da equipe MapBiomas Fogo. “Tem o uso do fogo historicamente para renovação de pastagens, relacionado com esse tipo de manejo.”
Nesse cenário, especialistas chamam a atenção para o modo como cada bioma reage ao fogo. O Cerrado, por exemplo, evoluiu convivendo com queimadas e se recupera delas. A floresta, não. Quando o fogo usado no manejo do pasto escapa, ele causa degradação, deixando a mata cada vez mais aberta e seca.
“Intervalos curtos entre os eventos reduzem o tempo de recuperação e aumentam o risco de novos incêndios, mais intensos e degradantes. Esse processo pode comprometer progressivamente a regeneração e tornar a floresta cada vez mais vulnerável ao fogo”, explica Luiz Felipe Martenexen, pesquisador da equipe MapBiomas Fogo e do IPAM.
Mapa da destruição
Mato Grosso, Pará e Maranhão respondem por quase metade (47%) da área atingida no país entre 1985 e 2025. No topo do ranking, Mato Grosso concentra 45,1 milhões de ha acumulados, resultado tanto do fogo em vegetação nativa quanto em áreas agropecuárias distribuídas por seus três biomas: Amazônia, Cerrado e Pantanal.
Quatro municípios mato-grossenses estão entre os 15 que mais queimaram no período: Cáceres (1,50 milhão de ha), Paranatinga (1,49 milhão), Cocalinho (1,16 milhão) e Tangará da Serra (1,00 milhão).
O Pará é o segundo colocado, com 31,6 milhões de ha acumulados, e o estado com mais cidades no ranking nacional: cinco no total. São Félix do Xingu encabeça a lista, com 3,12 milhões de ha, o segundo município que mais queimou no Brasil, seguido por Altamira (1,55 milhão), Cumaru do Norte (1,38 milhão), Novo Progresso (1,17 milhão) e Santana do Araguaia (1,01 milhão).
Produtor é aliado
A redução observada em 2025 foi expressiva: a Amazônia queimou 3,1 milhões de hectares, a menor marca em 41 anos. Para os pesquisadores, o resultado combina a queda do desmatamento, o reforço no combate ao fogo e a maior pressão sobre os estados após a crise de 2024.
Para Ane Alencar, diretora de Ciências do IPAM e coordenadora do MapBiomas Fogo, a queda de 2025 também tem um componente de comportamento. Depois de 2024, quando incêndios fugiram do controle e atingiram fazendas e comunidades, muitos produtores passaram a usar o fogo com mais cautela.
“A Amazônia teve um processo que incluiu chuvas esparsas, melhoria na governança e talvez produtores mais conscientes, ou com medo, controlando melhor o fogo”, disse durante a apresentação dos dados. “Muitos incêndios atingiram comunidades, fazendas onde as pessoas não queriam que o fogo extrapolasse”, completou.
Alerta para os próximos anos
Apesar dos avanços, o histórico aponta para o esgotamento da Amazônia. As chamas têm voltado cada vez mais rápido: 31,6% da área já queimada arde de novo em até dois anos, o menor intervalo entre todos os biomas. Como a floresta regula as chuvas em boa parte do país, os números também se traduzem em risco de prejuízo para quem produz.
Além disso, o calendário meteorológico preocupa. Os anos de El Niño concentram as maiores áreas queimadas do país, e o pior costuma vir depois: o impacto tende a ser mais forte no ano seguinte ao início do fenômeno. Com um novo El Niño em curso, a atenção se volta para o fim de 2026 e, sobretudo, para 2027.
“A gente tem a capacidade de controlar a fonte de ignição, seja por iniciativas governamentais, federais e estaduais, mas também pelo próprio uso consciente do fogo pelo produtor rural”, destacou Ane. “A gente tem o poder de ligar o isqueiro. Então também temos a possibilidade de reduzir ou controlar o uso do fogo no país”, concluiu.
Saiba mais:
Área antrópica: é o termo que o MapBiomas usa para as áreas transformadas pela ação humana, em oposição à vegetação nativa. Inclui pastagens, lavouras, plantações de árvores (como eucalipto), áreas urbanas e locais de mineração, entre outros usos. Na prática, é tudo aquilo que deixou de ser paisagem natural para dar lugar à produção ou à ocupação. No caso do fogo, a divisão entre área antrópica e vegetação nativa ajuda a mostrar se as queimadas de uma região estão mais ligadas à atividade produtiva ou a ecossistemas naturais.
Fonte: Gigante 163


