Resumo
- Desde 2024, a praga da vassoura-de-bruxa ameaça os canaviais de mandioca em terras indígenas do Amapá e do Norte do Pará, colocando em risco a base da alimentação e de bebidas tradicionais como o caxiri.
- Para combater o fungo, o instituto Iepé e associações locais lançaram um vídeo educativo dublado nas línguas nativas tiriyó e aparai por integrantes das próprias comunidades.
- O projeto busca misturar o conhecimento dos antigos com técnicas modernas de manejo do solo, promovendo roçados mais fortes e biodiversos.
- O desenho ensina a identificar o fungo, queimar plantas doentes, limpar ferramentas e até produzir a “água de vidro”, uma receita que ajuda a mandioca a brotar saudável.
- Além de estar no YouTube, o vídeo está circulando por grupos de WhatsApp e será exibido em assembleias e oficinas nas aldeias para alcançar o maior número de pessoas.
A mandioca não é apenas comida na mesa dos povos indígenas do Amapá e do Norte do Pará; ela é história, cultura e a base de preciosidades diárias como o beiju, a farinha e o caxiri. Por isso, quando a doença da vassoura-de-bruxa começou a avançar sobre as roças da região, o sinal de alerta acendeu.
Para contra-atacar esse fungo e proteger a segurança alimentar das aldeias, o Instituto Iepé, em uma parceria com os povos das Terras Indígenas Parque do Tumucumaque e Rio Paru d’Este, transformou a informação em arte e lançou uma animação educativa totalmente personalizada.
O grande diferencial do vídeo é que ele fala diretamente com quem cuida da terra. A animação ganhou versões nas línguas tiriyó e aparai, com a tradução e a narração feitas pelos próprios indígenas das associações Apitikatxi e Apiwa. A ideia é fazer com que o conhecimento científico e as orientações técnicas circulem de forma natural e sem barreiras pelas comunidades do Complexo Tumucumaque.
O poder de um roçado biodiverso
O projeto nasceu da união entre o braço de comunicação do Iepé e o Programa Tumucumaque-Wayamu. O foco não é apenas apontar o problema, mas mostrar como a própria natureza, quando bem cuidada, sabe se defender.
“Nosso objetivo é promover um entendimento da dinâmica do problema, explicando sobre o ciclo de vida do fungo e outras interações ecológicas existentes no roçado e pensarmos, em conjunto, estratégias para enfrentá-lo, combinando técnicas novas e tradicionais”, explica João Covolan, assessor do Iepé e atuante no projeto Solo Vivo, que cuida das roças da região.
Para ele, o segredo está no equilíbrio ecológico debaixo da terra:
“Um roçado diverso, crescendo em um solo cheio de microrganismos, com uma ciclagem de nutrientes bastante dinâmica, fornece melhores condições para o desenvolvimento sadio daquilo que foi plantado, mesmo com o fungo potencialmente presente naquele ambiente”, completa o especialista.
E essa receita já está mostrando resultados na prática. Testes com plantios experimentais de variedades de manivas no lado leste do território estão vingando muito bem, graças a cuidados especiais no solo e ao uso de biofertilizantes. A meta agora é fazer com que essas boas práticas se espalhem ainda mais com a ajuda do vídeo.
Instruções na tela e no celular
De forma bem didática, o desenho animado desvenda o ciclo do fungo e dá um passo a passo de como os agricultores podem proteger suas terras. O roteiro ensina a monitorar as plantas, fazer o corte e a queima correta das partes contaminadas e a esterilizar ferramentas, roupas e calçados para não carregar a praga de uma roça para outra.
O vídeo também ensina truques práticos para antes do plantio, como o tratamento das manivas e a receita da “água de vidro” — uma solução que fortalece a brotação da mandioca. No fim, a produção faz um convite sensível: olhar para o passado e resgatar o cuidado que os antigos já tinham com a terra.
A estratégia de distribuição também é pop e digital. Além de estar disponível no canal do YouTube do Iepé, a animação está voando de celular em celular via grupos de WhatsApp e será o centro das atenções em assembleias e oficinas comunitárias, viajando inclusive até a região do rio Trombetas para alcançar ainda mais parentes e falantes das línguas locais.
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