Resumo
- A pecuária bovina é responsável por 17% das emissões nacionais de gases de efeito estufa e concentra mais de 60% do metano emitido no Brasil, gerado principalmente pela fermentação entérica (digestão) dos animais.
- O estudo do CPI/PUC-Rio aponta que reduzir as emissões de metano no País depende do aumento de produtividade no campo, unindo ganhos econômicos, competitividade e sustentabilidade.
- As principais estratégias propostas incluem a recuperação de pastagens, o uso de aditivos e melhorias no manejo alimentar, o controle da taxa de lotação de animais e a adoção de sistemas de integração pecuária-floresta.
- A aplicação dessas soluções exige investimento inicial, assistência técnica individualizada para os produtores e políticas públicas que coordenem os incentivos.
- O relatório sugere três ações para o financiamento do setor: articular o crédito com a assistência técnica e metas mensuráveis; direcionar recursos para sistemas de alta produtividade e baixa emissão; e fortalecer a rastreabilidade da cadeia.
A transformação da pecuária bovina tornou-se a peça-chave para as metas de descarbonização do Brasil. Responsável por 17% das emissões nacionais de gases de efeito estufa e por mais de 60% do metano emitido no País, o setor de corte e leite enfrenta o desafio de revisar seu processo produtivo.
De acordo com um novo estudo do Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio), a solução para esse cenário não exige frear o crescimento, mas sim acelerar a eficiência no campo.
Como o Brasil consolidou sua posição de maior exportador global de carne, o aumento do rebanho exige novas tecnologias para mitigar o aquecimento global. O diretor executivo do CPI/PUC-Rio, Juliano Assunção, aponta que a sustentabilidade pode se traduzir em ganho financeiro para o pecuarista:
“Melhorar o perfil das emissões de metano na pecuária brasileira é, em larga medida, um desafio de aumento de produtividade. Ganhos econômicos e climáticos no setor caminham juntos. O desafio das emissões representa, efetivamente, uma oportunidade concreta de competitividade e liderança global em sustentabilidade.”
A biologia por trás das emissões
O foco central das pesquisas está na fermentação entérica, um processo natural de digestão dos animais que libera o gás na atmosfera. A pesquisadora sênior do CPI/PUC-Rio, Gabriela Zangiski, detalha a dinâmica biológica do problema:
“O metano é um gás de efeito estufa altamente potente e com ciclo de vida curto. Na agropecuária, a fermentação entérica é a principal origem das emissões. É um processo biológico que ocorre no sistema digestivo dos bovinos. Durante a digestão do boi, microrganismos no rúmen decompõem a matéria orgânica ingerida pelos animais, gerando metano, o qual é liberado principalmente por meio da respiração e da eructação.”
Caminhos para a transição
Para reverter esse impacto, o estudo sugere ações práticas de manejo, como a recuperação de pastagens degradadas, o uso de sistemas integrados (lavoura-pecuária-floresta) e a adoção de aditivos alimentares que reduzem a produção de gás no estômago do animal. No entanto, o sucesso dessas técnicas depende diretamente de incentivos estruturados. Segundo Gabriela Zangiski:
“A implementação efetiva das soluções depende de um arcabouço de políticas públicas que coordene incentivos, reduza incertezas e amplie a escala de adoção das práticas disponíveis.”
Diante disso, a agropecuária precisa posicionar o gás como tema central em seu planejamento. Juliano Assunção conclui reforçando o peso político e ambiental dessa agenda:
“A agropecuária é o segundo maior emissor de GEE no Brasil, atrás somente do desmatamento. O metano precisa ser tratado como prioridade na política climática para o setor pecuário brasileiro.”
Saiba mais
O que é o gás metano?
Ele é produzido principalmente pela decomposição de matéria orgânica na ausência de oxigênio. Isso acontece em pântanos, aterros sanitários e, de forma muito expressiva, no sistema digestivo de animais ruminantes (como bois e ovelhas) durante o processo de digestão de plantas.
O metano é o principal componente do gás natural e do biogás. Por ser altamente inflamável, ele é amplamente utilizado como fonte de energia para gerar eletricidade, aquecimento e como combustível veicular (GNV).
Na atmosfera, o metano é um poderoso gás de efeito estufa. Embora ele permaneça menos tempo no ar do que o dióxido de carbono, ele tem uma capacidade muito maior de reter o calor do sol no curto prazo, sendo um dos focos centrais nas discussões sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas.


