Com o objetivo de combater o avanço de crimes ambientais e invasões em terras indígenas, o Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e o UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime) lançaram, nesta terça-feira, 12, em Brasília, a publicação Boas Práticas para o Fortalecimento da Vigilância Participativa Aplicada à Proteção Territorial Indígena no Brasil.
O documento, apoiado pelo governo italiano, consolida recomendações e experiências construídas diretamente com comunidades indígenas. O foco é fortalecer a proteção territorial e preservar modos de vida que são hoje estratégicos para a agenda climática global.
A publicação destaca que a valorização do conhecimento tradicional é a base para enfrentar ameaças como o garimpo e o desmatamento ilegal.
“A vigilância participativa, quando orientada pelos conhecimentos tradicionais indígenas, fortalece a capacidade de adaptação desses povos diante das pressões crescentes sobre seus territórios. Ao mesmo tempo, assegura a continuidade de práticas que mantêm o equilíbrio ambiental e a integridade cultural, aspectos fundamentais para uma proteção territorial duradoura e que, ainda, contribuem de forma sem precedente na regulação climática global”, disse a diretora adjunta de Ciência do Ipam, Patrícia Pinho.
Um dos eixos centrais do manual é justamente a integração entre os saberes da floresta e tecnologias contemporâneas, como o uso de drones, aplicativos de coleta de dados e monitoramento por satélite para identificar vestígios de invasores e mudanças na fauna.
Vigilância como autonomia e governança
O estudo detalha que esses sistemas de proteção variam desde modelos comunitários até equipes formais articuladas com órgãos públicos.
“A publicação evidencia que a vigilância territorial vai além da proteção física do território: trata-se de uma ferramenta de fortalecimento da autonomia, da governança indígena e da transmissão de conhecimento entre gerações, consolidando-se como elemento central da identidade e da organização social contemporânea desses povos”, afirmou Ray Pinheiro Alves, pesquisador do Ipam.
Dados que reforçam a urgência
A urgência da publicação é sustentada por evidências científicas. Uma nota técnica do Ipam revela que o garimpo ilegal já deixou mais de 80 mil pontos de exploração na Amazônia, com a área impactada dentro de Terras Indígenas crescendo 16 vezes entre 1985 e 2022.
A solução, aponta o manual, reside na convergência de saberes. Ferramentas como o SOMAI (Sistema de Monitoramento Territorial Indígena), que já atua em mais de 80 territórios amazônicos, provam que a ciência indígena e a geotecnologia, quando unidas, garantem a proteção da sociobiodiversidade e a regulação do clima.


