Por Tereza Coelho
Enquanto o cenário internacional amarga 40 dias de tensão entre potências como Estados Unidos, Israel e Irã, provocando uma disparada global no preço do petróleo e dos fertilizantes, o Pará encontra na própria biodiversidade um “amortecedor” contra a inflação.
Diferente de outras regiões do País, onde a alta do dólar encarece imediatamente a cesta básica, a força da produção regional de alimentos cria uma blindagem parcial para o consumidor local.
Em entrevista ao Pará Terra Boa, o economista e professor do Instituto Federal do Pará (IFPA), Pedro Loureiro, afirma que essa menor dependência de cadeias logísticas globais permite que o estado sinta os efeitos da crise de forma mais lenta e menos intensa, reforçando a importância estratégica dos produtos que vêm da floresta.
“A produção local funciona como um amortecedor inflacionário importante”, declara.
Segundo ele, o impacto na economia paraense existe, mas segue um caminho diferente do observado em outras regiões do país.
“(Os impactos da crise) chegam de forma indireta via preços internacionais e cadeias logísticas. Esses conflitos tendem a pressionar o preço do petróleo e dos fretes marítimos, o que acaba encarecendo insumos, transporte e, por consequência, produtos”, explica.
Na prática, produtos regionais como açaí, pescado, mandioca e hortifrutigranjeiros até podem ficar mais caros se o conflito se prolongar, mas o reajuste tende a ser menor.
“Isso não elimina a inflação, mas suaviza seus efeitos no consumo cotidiano”, resume.
Reação em cadeia
Em situações como essa, a primeira reação costuma ser a pressão inflacionária sobre o petróleo e as exportações de commodities minerais e agropecuárias. Em seguida, há uma valorização intensa do dólar, o que prejudica quase imediatamente estados e países que importam mais do que exportam, cenário que não se aplica ao Pará.
Segundo dados do Comex Stat, sistema do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o Pará é um estado exportador e, por isso, tem menor dependência externa nesses aspectos.
Em 2025, por exemplo, o estado registrou mais de US$ 24 bilhões em exportações, ocupando a 5ª posição no ranking nacional e concentrando 7% das vendas externas do país.
“O Pará é um estado exportador, então pela falta de dependência dessa longa cadeia, os impactos chegam depois e forma menos intensa. O principal problema é gerado na exportação é relacionado a volatilidade dos preços, que pode afetar margens de lucro e previsibilidade de receitas”, destaca.
Apesar da vantagem, o economista faz um alerta: a cesta básica do paraense pode ser afetada se o conflito se prolongar, principalmente por causa da relação direta entre combustíveis, fertilizantes e produtos industrializados com o mercado internacional.
“Há uma redução da intensidade da inflação em determinados itens, mas não uma imunidade ao fenômeno inflacionário global, então essa blindagem é parcial. Afinal, se o conflito se estender, os produtos locais também sofrerão aumento nos custos do transporte interno e nos insumos agrícolas utilizados”, explica.
Poderia ser melhor
Pedro ressalta ainda que, embora o Pará tenha uma vantagem produtiva, esse potencial ainda é pouco aproveitado. Segundo ele, a proteção econômica poderia ser maior se o estado investisse em um modelo produtivo que vá além da exportação de produtos primários. Este avanço abriria margens para mais ganhos logísticos e maior integração entre produtores e mercado.
“Investimentos em infraestrutura, armazenamento e distribuição seriam fundamentais para ampliar esse efeito de proteção. Unir a diversificação de mercados com agregação de valor, eficiência logística e gestão de risco são lições estratégicas fundamentais para aproveitar mais este potencial”, defende.
Para o especialista, investir em mudanças estruturais é essencial para aumentar a segurança da economia local. Isso porque crises internacionais são recorrentes e tendem a se tornar mais frequentes no futuro, impulsionadas por desafios como as crises climática e energética.
“Choques geopolíticos tendem a ser recorrentes. Portanto, a resiliência econômica passa a ser um elemento central para proteger a população e a economia local. Deve ser uma estratégia central e não um acessório”, comenta.


