Resumo
- O Índice de Transparência e Governança Pública (ITGP) classificou 16 dos 17 municípios do arquipélago paraense nas faixas “Ruim” ou “Péssimo” em relação à divulgação e gestão de dados sobre adaptação climática.
- Nenhum dos municípios avaliados possui plano de adaptação climática, apenas dois emitem alertas antecipados de desastres e somente um mantém um conselho sobre mudanças climáticas ativo.
- A região pontuou melhor na métrica de governança formal (29,74 pontos) do que na de comunicação com a sociedade (16,91 pontos), evidenciando que as informações de risco não chegam às comunidades vulneráveis.
- O monitoramento do Observatório do Marajó registrou uma piora no desempenho da região entre 2025 e 2026, com a nota média caindo de 37 para 29,74 pontos.
- A falta de preparação ocorre às vésperas de um forte El Niño previsto para 2026, fenômeno que intensifica problemas já enfrentados pelas comunidades locais, como secas extremas, queimadas, falta d’água e isolamento.
- Para reverter o cenário, o Observatório cobra a publicação de planos de adaptação com metas claras, mapas de risco em linguagem acessível, canais de alerta permanente e o funcionamento efetivo de conselhos ambientais com participação popular.
O Arquipélago do Marajó é uma das regiões do Pará mais afetadas pelas mudanças climáticas — com chuvas cada vez mais irregulares, avanço do nível do mar e temperaturas mais altas —, mas os municípios da região ainda falham em mostrar à própria população o que estão fazendo diante desse cenário.
É o que revela o módulo de Adaptação Climática do Índice de Transparência e Governança Pública (ITGP), que avaliou os 17 municípios marajoaras e colocou a região na faixa “Ruim”.
Segundo a Transparência Internacional – Brasil, 16 dos 17 municípios avaliados ficaram entre as faixas Ruim e Péssimo. Nenhum alcançou a faixa Regular, e apenas um chegou à faixa Bom.
A avaliação considera exclusivamente informações públicas disponíveis nos portais das prefeituras e dos órgãos municipais de meio ambiente e defesa civil — ou seja, mede se a informação sobre adaptação climática e gestão de riscos está pública, organizada e acessível, e não a capacidade operacional de resposta a desastres.
O levantamento é dividido em duas frentes, e a diferença entre elas ajuda a entender o problema. Em Transparência e Governança — que avalia a existência de plano de adaptação, órgão de meio ambiente, defesa civil estruturada e mapeamento de áreas de risco —, os municípios do Marajó somaram 29,74 pontos em média. Já em Comunicação e Participação — que mede se a população é informada sobre riscos, se há audiências públicas e conselho ativo —, a média caiu para 16,91 pontos.
Na prática, isso significa que a estrutura formal existe no papel com mais frequência do que a informação chega a quem precisa dela.
Sem plano de adaptação climática
Os números individuais reforçam esse quadro: nenhum dos 17 municípios avaliados possui plano de adaptação climática, apenas 2 divulgam alertas antecipados de desastres, e só 1 tem órgão colegiado de Mudanças Climáticas criado e ativo.
Para Ediane Lima, agroecóloga e gestora de projetos do Observatório do Marajó, a ausência dessa estrutura tem consequência direta na vida das pessoas.
“Não ter planos de adaptação coloca em risco toda a população; a informação só cumpre sua função quando chega a quem mora na encosta, na beira do rio, na área que alaga, na comunidade que ficou sem ter por onde se deslocar porque o rio secou — e quando essa pessoa tem onde ser ouvida antes de a decisão ser tomada”, afirma.
Segundo ela, o Marajó é “uma das maiores unidades de conservação da costa norte do País” e, ao mesmo tempo, “uma das mais ameaçadas hoje pelas mudanças do clima”, com problemas que se intensificam a cada ano, como seca de rios, queimadas, insegurança hídrica e alimentar e isolamento de comunidades.
“A maioria dos municípios não terem planos não é uma opção, é algo que precisa urgentemente avançar”, afirma.
O Observatório do Marajó avalia a transparência climática da região desde 2025, o que permite comparar resultados entre uma edição e outra pela primeira vez — e a comparação não é favorável: a nota média caiu de 37 para 29,74 pontos, uma queda de 7,26 pontos.
Histórico de secas e o El Niño
A região carrega um histórico de eventos climáticos que vêm se intensificando. Em 2023, durante uma seca severa que atingiu toda a Amazônia, lideranças da própria equipe do Observatório do Marajó conviveram com problemas respiratórios causados pela fumaça das queimadas, poços artesianos secos ou com pouca água, e calor extremo.
Foi nesse contexto que nasceu o monitoramento cidadão da calamidade climática no Marajó, iniciativa do Observatório que hoje é uma das principais fontes de registro de como as comunidades vivem a crise climática na prática.
A seca de 2023 foi puxada pelo El Niño daquele período — fenômeno que, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia, deve se repetir em 2026 com uma das intensidades mais fortes já registradas desde 2015/2016.
E o levantamento do ITGP mostra que, diante desse cenário, nenhum município do Marajó está preparado para os efeitos já previstos: secas severas, queda no nível dos rios, mais queimadas e isolamento de comunidades.
Recomendações às prefeituras
Diante dos resultados, o Observatório do Marajó recomenda que as prefeituras da região adotem uma série de boas práticas:
- elaborar e publicar planos municipais de adaptação às mudanças climáticas, com metas e prazos definidos;
- divulgar o mapeamento de áreas de risco em linguagem acessível para quem mora nelas;
- construir planos emergenciais para calamidades;
- manter canal permanente de comunicação de risco e alerta;
- realizar monitoramento constante junto aos moradores; divulgar com antecedência o calendário de audiências públicas sobre clima;
- garantir o funcionamento efetivo do conselho municipal de meio ambiente, com atas e pautas públicas; e publicar em formato aberto os dados sobre gestão de riscos e desastres.


