Resumo
- A identificação individual de bovinos no Pará pode passar de 0,2% do rebanho, em 2025, para 30,2% até 2030, o equivalente a cerca de 7,5 milhões de animais.
- A projeção depende de os frigoríficos aptos do estado levarem a rastreabilidade aos seus fornecedores com incentivos e assistência técnica em campo.
- No projeto-piloto que embasa a estimativa, 59 fornecedores receberam apoio para identificar individualmente cerca de 26 mil cabeças de gado.
- O estudo calcula que um frigorífico de médio porte gaste cerca de R$ 1,7 milhão em 12 meses para atender até 120 produtores, sendo 86% do valor destinado a incentivos ao produtor, principalmente os kits de identificação.
- Na frente de requalificação comercial, 73 dos 96 produtores visitados no assentamento Tuerê, em Novo Repartimento (PA), recusaram inicialmente a proposta, segundo levantamento da Fundação Solidaridad.
A identificação individual de bovinos no Pará pode saltar de 0,2% do rebanho, em 2025, para 30,2% até 2030, alcançando cerca de 7,5 milhões de animais. Para isso, os frigoríficos precisam levar a rastreabilidade aos seus fornecedores com incentivos e apoio técnico.
A projeção foi apresentada nesta terça-feira, 1º, no lançamento de relatório do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), que reúne estratégias de rastreabilidade individual e de requalificação comercial para a cadeia bovina no Brasil em dois projetos-piloto realizados no Pará.
O Pará foi escolhido para sediar os pilotos por reunir condições institucionais e territoriais relevantes, com iniciativas locais tanto de rastreabilidade quanto de regularização e reinserção comercial.
O estado também concentra o segundo maior rebanho bovino do País e reúne desafios presentes em outras áreas da Amazônia, como a coexistência de propriedades rurais, assentamentos, Terras Indígenas, Unidades de Conservação, com diferentes formas de ocupação e uso da terra, segundo o Imaflora
No caso da rastreabilidade individual, a estratégia foi testada em projeto-piloto da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira (AdT), no qual 59 fornecedores de frigoríficos receberam apoio para implementar a identificação individual de aproximadamente 26 mil cabeças de gado.
“A experiência do projeto-piloto mostra que é possível dar escala e replicabilidade às ações e traz aprendizados importantes para fortalecer a sustentabilidade da pecuária”, afirmou Natália Grossi, coordenadora do Programa de Cadeias Agropecuárias da AdT, durante o lançamento do estudo.
Para o frigorífico, o trabalho consiste em usar equipes que já mantêm contato com o pecuarista, como originação e ESG, e colocar técnicos em campo para acompanhar a brincagem. O estudo estima que uma empresa de médio porte gaste cerca de R$ 1,7 milhão em 12 meses para atender até 120 produtores.
Desse valor, 86% vão para incentivos ao produtor, principalmente os kits de identificação, doados a quem adere.
O projeto-piloto integra o Programa Pecuária Sustentável do Pará e foi desenvolvido em parceria entre o Imaflora e a AdT, com financiamento do Bezos Earth Fund, pelo programa Future of Food, e da União Europeia, pelo programa AL-INVEST Verde.
Apoio ao produtor
As experiências indicam que a ampliação da identificação individual dos animais depende de uma combinação de medidas. Entre elas estão incentivos econômicos, financiamento compartilhado, assistência técnica contínua, apoio documental e acompanhamento nas propriedades.
“Nosso desafio foi apresentar caminhos para que a política de identificação animal avance sem perder de vista a regularização ambiental, a inclusão produtiva e a permanência de pequenos produtores no mercado formal”, avaliou Bruno Vello, coordenador de políticas públicas do Imaflora.
Passivo ambiental dificulta adesão de famílias
A outra frente do relatório mostra que ampliar a rastreabilidade também exige enfrentar as dificuldades de produtores que estão fora ou sob restrições no mercado formal devido a pendências ambientais.
Das 96 propriedades visitadas no assentamento Tuerê, em Novo Repartimento (PA), 73 produtores inicialmente recusaram a proposta de requalificação comercial, 17 ficaram indecisos e seis aderiram. Após a oferta do Bônus Desbloqueia Já e do atendimento presencial do Núcleo de Atendimento ao Produtor (NAP), outras sete famílias aderiram à iniciativa.
O levantamento, feito pela Fundação Solidaridad, relaciona a resistência principalmente ao tamanho do passivo ambiental, que chegava, em média, a 29,2 hectares, equivalente a cerca de 44% da área média das propriedades. Para essas famílias, destinar quase metade da área à recomposição da vegetação significa perda imediata de espaço para produzir e, com ela, de renda.
“Quando quase metade da propriedade está em área de passivo, o modelo tradicional de requalificação encontra seu limite. A resistência que mapeamos mostra que, para trazer esses pecuaristas à legalidade, precisamos adequar as exigências à realidade da Amazônia e oferecer caminhos produtivos de transição”, explicou Paulo Lima, gerente de programas da Fundação Solidaridad.
Incentivos financeiros e alternativas para elevar a produtividade nas áreas já abertas podem facilitar a transição. Além disso, a combinação do bônus e da assistência técnica voltada à intensificação sustentável da pecuária e à implantação de sistemas agroflorestais com cacau ajuda a reduzir a percepção de risco entre as famílias.
Uma análise de escalabilidade apontou São Félix do Xingu, Marabá e Novo Repartimento como territórios prioritários para a expansão da estratégia de requalificação comercial.


