Resumo
- Mapeamento de 2026 da Amazon Underworld identificou a presença de facções criminosas ou grupos armados em 768 dos 1.310 municípios pesquisados na Amazônia (59%).
- Em um terço desses municípios há atuação de mais de um grupo, e nove organizações operam em dois ou mais países da região.
- O Comando Vermelho (CV) está presente em quase 500 municípios amazônicos, controlando rotas de cocaína da Colômbia, Peru e Bolívia rumo a portos do Atlântico e ao exterior.
- Além do tráfico de drogas, facções dominam o garimpo ilegal, que virou a atividade mais lucrativa da região com a alta do ouro
- No Pará, o CV domina corredores fluviais, controla Belém e o porto de Barcarena, utilizando semissubmersíveis e novos métodos para enviar drogas à Europa
- A facção diversificou suas atividades e assumiu o controle do garimpo ilegal de ouro, como na Terra Indígena Sararé (MT), além de praticar extorsão e execuções.
- O PCC perdeu espaço para o CV na Amazônia brasileira, mas mantém bases estratégicas em Roraima, Rondônia, Tocantins e Maranhão, focando em distribuição e lavagem de dinheiro
- Além da expansão de grupos brasileiros para países vizinhos e Guianas, há registros de incursões de guerrilheiros e grupos armados colombianos em território brasileiro.
Redes criminosas ou grupos armados estão presentes em 59% dos municípios da Amazônia examinados pela Amazon Underworld, segundo um novo mapeamento da organização. O estudo cobre Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela e usa o recorte da Amazônia definido pela RAISG (Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada).
Em um terço dos municípios com presença confirmada, mais de um grupo atua, e nove organizações operam em dois ou mais dos seis países. A edição anterior apontava 67%, mas o universo pesquisado cresceu em 323 municípios, então comparar os percentuais não mostra queda na presença dos grupos.
A atuação de grupos criminosos na Amazônia não se limita mais ao tráfico de drogas, como no passado. Com a valorização crescente do ouro no mercado internacional, essas quadrilhas estão voltando sua atenção ao garimpo ilegal, que já desponta como a atividade criminosa mais lucrativa na região, superando até mesmo o tráfico de cocaína.
“Essa mudança acelerou a destruição por meio do desmatamento e da contaminação por mercúrio”, observou Bram Ebus, autor do relatório, fundador da Amazon Underworld e consultor do International Crisis Group, ao Mongabay.
Pará e Mato Grosso
De acordo com o InfoAmazônia, as facções brasileiras se espalharam pela Amazônia e hoje ligam as áreas de coca e de produção de cocaína da Colômbia, do Peru e da Bolívia aos portos do Atlântico e ao mercado internacional. O Comando Vermelho (CV), presente em quase 500 municípios amazônicos, inclusive na Bolívia e no Peru, controla rotas de passagem ligadas à Venezuela, ao Peru, à Colômbia e às Guianas. Tem forte presença na fronteira com a Bolívia, em Mato Grosso.
No Pará, o CV avançou pelos corredores fluviais e, segundo o relatório, controla totalmente Belém e arredores. Divide rotas de contrabando pelo porto de Barcarena e em direção ao Amapá. Ali, usa semissubmersíveis e métodos novos, como esconder cocaína em caixões, para abastecer rotas marítimas com destino à Europa. Autoridades brasileiras dizem que o Suriname, onde o CV também atua, vem se firmando como ponto de transbordo da droga.
Do tráfico ao garimpo
Em Mato Grosso, o CV domina o garimpo de ouro na Terra Indígena Sararé. O presidente do Ibama, Jair Schmitt, afirma que o crime organizado ocupa cada vez mais áreas de garimpo na região.
A tomada do Sararé veio depois das operações de retirada de invasores nos territórios Yanomami e Kayapó, iniciadas em 2023, que deslocaram garimpeiros e facções. O CV começou vendendo drogas e oferecendo “proteção”. Depois, passou a tocar os garimpos diretamente, ora enfrentando, ora se associando a policiais militares, da ativa ou aposentados, donos de minas, e a elites políticas ligadas ao ouro ilegal.
Segundo uma liderança indígena ouvida pelo relatório, os homens armados na mata já não são garimpeiros: são gente do Comando. Com o cerco do governo à lavagem de ouro, boa parte do metal ilegal passou a ser contrabandeada para a Venezuela.
Além de garimpo e drogas, a facção domina territórios com extorsão de comerciantes, empréstimos a juros abusivos e execuções por encomenda. O relatório descreve uma estrutura disciplinada, com tesoureiro, conselho fiscal e gerentes regionais, chamados de “torres”.
PCC perde espaço, mas mantém bases
O PCC perdeu terreno para o CV na Amazônia brasileira, mas mantém sua principal base em Roraima e presença estratégica em centros logísticos como Rondônia, Tocantins e Maranhão.
Enquanto o CV controla corredores fluviais, o PCC se concentra em centros de distribuição de drogas e em lavagem de dinheiro. Em Coari (AM), a disputa entre as duas facções coincidiu com alta de 91% nos homicídios entre 2022 e 2024 e levou o PCC a recrutar piratas que atuam nos rios.
Crime sem fronteira, nos dois sentidos
O CV tem presença na Bolívia, no Peru e na Colômbia e atua na Guiana Francesa e no Suriname. O PCC está na Bolívia e no Peru e também opera no Suriname e na Guiana.
O movimento contrário é mais raro, mas existe. Em agosto de 2026, comunidades indígenas da região de Pari-Cachoeira, no Amazonas, relataram a passagem de guerrilheiros colombianos pelo território. Grupos armados da Colômbia também cruzam a fronteira para cobrar propina de garimpeiros no rio Puruê.


