As terras indígenas Kayapó e Cachoeira Seca, localizadas no Pará, lideraram os índices de redução do desmatamento por corte raso na Amazônia Legal em 2025, com 68% e 54% de recuo respectivamente; Mas continuam integrando, junto da TI Munduruku, também no estado, o grupo de 13 territórios que concentram 51% de toda a destruição na região.
Ao todo, o desmatamento por corte raso — remoção total da vegetação para dar lugar à agropecuária — somou 30.128 hectares em 2025 em toda a Amazônia Legal. O número representa o menor patamar da série histórica iniciada em 2016 e uma queda de 25% em relação a 2024 (quando atingiu 40.178 hectares).
Os dados constam em um relatório inédito da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) obtido pelo jornal Folha de S.Paulo. O documento monitora 395 áreas e aponta que, embora apresente melhora, a pressão de atividades ilegais na região norte permanece crítica.
Apesar do recuo global, o problema é disseminado: 82% das terras monitoradas pela Funai sofreram algum nível de exploração.
Dos mais de 30 mil hectares derrubados, 15,3 mil concentram-se em 13 territórios localizados no Maranhão, Pará, Mato Grosso, Amazonas e Roraima. As áreas estão situadas no chamado “arco da devastação”, região pressionada pelo avanço da agropecuária, garimpo e extração ilegal de madeira. São elas:
- Porquinhos dos Canela-Apãnjekra
- Sararé
- Utaria Wyhyna/Iròdu Iràna
- Kanela Memortumré
- Aripuanã
- Kayapó
- Alto Rio Negro
- Cachoeira Seca
- Raposa Serra do Sol
- Bacurizinho
- Parque do Aripuanã
- Munduruku
- Batelão
O comportamento do desmatamento variou entre essas áreas. Enquanto sete territórios registraram queda significativa — como Cachoeira Seca (-68%), Kayapó (-54%) e Sararé (-32%) —, outros seis apresentaram alta expressiva, liderados por Kanela Memortumré (+166%), Aripuanã (+129%) e Bacurizinho (+30%). Não há dados na reportagem sobre se o desmate na TI Munduruku recuou ou aumentou.
Diante da assimetria dos dados, os técnicos da autarquia sugerem uma mudança de estratégia na fiscalização: “considerando a tendência observada de alta concentração de grande parte do desmatamento em um grupo restrito de terras indígenas, a atuação focada nestas áreas com ações de proteção territorial tende a otimizar os resultados na redução dos índices de desmatamento nas terras indígenas como um todo”.
Degradação e incêndios florestais
O impacto ambiental nos territórios indígenas vai além do corte raso. Somando a degradação florestal (extração seletiva de madeira, que atingiu 43.076 hectares) e os danos a áreas em processo de regeneração (8.540 hectares), o total de floresta afetado por crimes ambientais chegou a 81,7 mil hectares em 2025 — recuo de 36% frente aos 128 mil hectares de 2024.
O fogo também se provou um desafio crônico: 195 terras indígenas da Amazônia Legal registraram queimadas em 2025. A exemplo do desmatamento, o impacto concentrou-se em apenas seis territórios, que responderam por metade da área queimada: Parque do Araguaia (MT), Raposa Serra do Sol (RR), São Marcos (RR), Parabubure (MT), Parque do Tumucumaque (AP/PA) e Kraolândia (TO/MA).
Houve recuo expressivo no Parque do Araguaia, onde a área afetada caiu 46% (de 798,6 mil para 432,5 mil hectares). Em contrapartida, os incêndios avançaram na Raposa Serra do Sol (+36%, chegando a 354 mil hectares) e quase dobraram em São Marcos, com alta de 78% (saltando de 86,8 mil para 154,3 mil hectares).
Desafio nacional
Os dados da Funai ressaltam a complexidade para o cumprimento das metas climáticas do Brasil, que precisa quadruplicar o ritmo atual de restauração florestal para recuperar 12 milhões de hectares até 2030.
A reportagem da Folha de S.Paulo procurou o Ministério dos Povos Indígenas, a Funai, o Ministério do Meio Ambiente e o Ibama para que comentassem o relatório e detalhassem os planos de contingência para as áreas críticas, mas não obteve retorno até a publicação dos dados.


