Pelo menos 13 mil pessoas morreram por ano, entre 2012 e 2021, na América Latina por causas ligadas ao calor, mas a Organização Meteorológica Mundial (OMM) alerta que o número real é bem maior, já que os casos são subnotificados.
A informação faz parte do relatório “Estado do Clima na América Latina e no Caribe 2025”, lançado nesta segunda-feira, 18, em Brasília. Apresentado no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) junto com o Inmet e o Cemaden, o documento mostra que um ano de recordes em quase todos os aspectos climáticos transformou o calor em um fardo invisível para a saúde pública, já que a maioria dos governos da região não publica dados organizados sobre essas mortes.
“Em 2025, a região sofreu com calor recorde, seca persistente, ciclones tropicais devastadores, recuo acelerado das geleiras e elevação do nível do mar, com graves consequências para as comunidades, os sistemas alimentares e as economias em toda a região”, diz o relatório
Os dados revelam o tamanho desse vaivém agressivo do clima: enquanto chuvas torrenciais e deslizamentos castigaram países como Peru, Equador, Colômbia, Venezuela e Brasil, o furacão Melissa devastou a Jamaica, destruindo mais de 40% do PIB do país.
Na outra ponta, a seca afetou 85% do território do México e o derretimento das geleiras andinas acelerou, ameaçando a água de 90 milhões de pessoas.
O exemplo do Brasil
O Brasil ilustra bem essa mistura de extremos e falta de dados. O INMET registrou sete ondas de calor ao longo de 2025. Em fevereiro, o Rio de Janeiro bateu os 44°C e, em dezembro, São Paulo registrou 37,2°C, a maior temperatura em 64 anos de medições, forçando escolas a adiarem a volta às aulas.
Apesar do cenário sufocante, as mortes causadas pelo calor permanecem invisíveis nas estatísticas oficiais.
Além do impacto direto na saúde, o clima extremo bagunça os motores econômicos da região, afetando a agricultura, a geração de energia e a infraestrutura das cidades. O relatório aponta ainda que, mesmo com uma queda geral nos incêndios em comparação com 2024, o Brasil continua isolado na liderança das queimadas na América Latina.
O chamado para a ação
Com esse cenário difícil pela frente, a saída proposta pela OMM é integrar os alertas meteorológicos diretamente aos sistemas de atendimento da saúde pública. Além disso, é preciso melhorar:
- A notificação padronizada das doenças e mortes relacionadas ao calor
- A integração prática dos alertas meteorológicos precoces com os limites de tolerância da saúde pública
- O investimento em infraestruturas de saúde resistentes ao calor
- A coordenação entre diferentes setores para gerenciar os riscos do calor extremo
- O desenvolvimento de capacidades e de redes de contatos entre especialistas em clima e saúde para colocar projetos conjuntos em prática, como a definição de limites para os sistemas de alerta
A secretária-geral da organização, Celeste Saulo, reforçou que o relatório é um chamado urgente para agir.
“Ele nos insta a fortalecer as observações, investir em serviços, corrigir as deficiências nos sistemas de alerta precoce e garantir que as informações climáticas cheguem a quem mais precisa.”
A mesma preocupação com a infraestrutura foi destacada pelo diretor do Inmet, Carlos Alberto Andrade e Jurgielewicz, que explicou que “a instalação de novas estações meteorológicas permitirá maior agilidade na atualização e disponibilização de dados, fortalecendo a capacidade de monitoramento e resposta a eventos climáticos extremos”.
Como caminho para o futuro, a organização cobra a execução do Plano de Ação em Saúde de Belém, aprovado na COP30, para adaptar os hospitais e postos de saúde à nova realidade climática e proteger as populações mais vulneráveis.
Com informações da AFP e do Inmet


