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MEIO AMBIENTE 28 de abril de 2026

Bioeconomia em áreas degradadas cria produção sustentável no Pará

Projetos de agrofloresta e agroecologia têm transformado comunidades no estado
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Foto: Belterra Agroflorestas
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Em uma antiga área de pasto, na zona rural de Canaã dos Carajás, no Pará, está instalada uma fazenda-laboratório da Belterra Agroflorestas. É nesta fazenda, chamada de São Francisco, que a Belterra desenvolve um trabalho de restauração de pastagens por meio de um sistema agroflorestal (SAF) para o cultivo de cacau.

Nesse sistema agroflorestal, próximo à Floresta Nacional dos Carajás, diferentes culturas coexistem. O plantio de bananeiras, por exemplo, é usado para criar um ambiente favorável, com bastante sombra, para o crescimento do cacau e das espécies florestais.

Apoiada pela Vale desde 2020 e, mais recentemente, pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio do Fundo Clima, a Belterra é um exemplo de empresa que começou como startup e que tem se dedicado a recuperar áreas degradadas com sistemas agroflorestais (SAFs).

Além de movimentar a economia da região, esse projeto ajuda a promover a restauração florestal, conectando pequenos e médios produtores ao mercado de créditos de carbono.

Produção sustentável

Só na região amazônica há atualmente 789 startups que produzem um impacto positivo sobre a floresta, segundo a plataforma Jornada Amazônia. Mas elas não são as únicas. Outras cadeias produtivas ligadas à floresta, à agroecologia, à bioeconomia e à agricultura familiar também estão impulsionando a economia e a geração de renda na região amazônica, especialmente no Pará.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que é vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), por exemplo, tem desenvolvido mais de 40 projetos relacionados à bioeconomia na região amazônica.

Entre eles, há projetos relacionados ao guaraná, ao cacau e à castanha. Há também projetos voltados à produção de grãos e até de carne, com balanços favoráveis de carbono, ou seja, com baixa emissão de gases de efeito estufa.

“São projetos que estão em plena execução e com diferentes abordagens. Um desses exemplos é o melhoramento genético do açaí, uma cultura que tem uma importância enorme para a população amazônica”, disse Alexandre Hoffmann, engenheiro agrônomo, pesquisador e gerente-adjunto de portfólios e programas de PD&I da Embrapa.

Em entrevista à Agência Brasil, Hoffmann destacou que é possível manter a biodiversidade das florestas e, ao mesmo tempo, gerar produções agrícolas sustentáveis na região.

“A biodiversidade da Amazônia tem um potencial que não foi ainda explorado em sua totalidade. Mas isso não significa derrubar a floresta. Muito pelo contrário: significa manter a floresta em pé e utilizá-la de forma sustentável, não só a floresta em si, como também os recursos que lá estão”, disse ele.

 

“A manutenção da floresta em pé é uma questão de sobrevivência não só da região amazônica. Isso diz respeito também às questões de balanço hídrico, às reações às mudanças climáticas. E isso tudo envolve ciência, tecnologia e identificação de produtos que podem ser extraídos e utilizados pela biodiversidade”, ressaltou o pesquisador.

Assentamento Palmares II

Além das agroflorestas, há diversos outros projetos sustentáveis na região amazônica que buscam preservar a biodiversidade, ao mesmo tempo em que geram renda e segurança alimentar. Muitos desses projetos são tocados por agricultores familiares e comunidades tradicionais.

Em um antigo assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Teto (MST), chamado de Palmares II, localizado na cidade de Parauapebas, por exemplo, produtores rurais estão iniciando o plantio de mandioca.

Também apoiados pela Vale, cerca de 33 produtores e produtoras da Associação dos Produtores da Vila Palmares Sul (Aprovipar) decidiram unir forças no plantio da mandioca para fortalecer a agricultura familiar e a agroecologia.

Há cerca de dois anos, eles se aliaram à Cooperativa dos Produtores de Alimentos de Parauapebas (Coopa) para dar um destino à sua produção. O primeiro passo já foi dado, com a inauguração da Casa de Farinha da Palmares II, onde a mandioca produzida pela agricultura familiar vai ser descascada, lavada, prensada, escaldada e torrada para se transformar em diversos tipos de farinha.

O vice-presidente da associação, Roberto de Almeida Menezes, destacou que não adianta produzir se não for possível beneficiar ou escoar a produção.

“Só arrancar e vender a mandioca é muito difícil. É preciso beneficiar. Hoje, Parauapebas não produz nem 2% dos derivados de mandioca que consome. Vem tudo de fora. Então, nós não temos medo de colocar nosso produto no mercado”, acrescentou.

Para aumentar essa produção, os produtores chamaram um especialista para fazer um processo de análise e de correção do solo, além da adubação adequada.

“Nosso plantio foi iniciado no final de 2024. A mandioca precisa de 18 meses para estar pronta. Então, ainda teremos mais uns meses para a colheita”, disse o vice-presidente.

Para produzir essa mandioca, as famílias assentadas vêm trabalhando na consolidação da agroecologia, um modelo de produção que vai além da agricultura tradicional, promovendo práticas sustentáveis e sem o uso de agrotóxicos.

Segundo o próprio MST, a agroecologia é até mesmo uma alternativa para o enfrentamento das mudanças climáticas, já que procura utilizar técnicas e manejos mais naturais e que não promovem a degradação ambiental.

A diretora de soluções baseadas na natureza da Vale, Patricia Daros, ressaltou que o MST é um dos maiores produtores de alimentos orgânicos do Brasil. Ela afirma que a empresa olha para o território em que atua e vê oportunidades.

“Somos uma grande empresa, temos o nosso negócio que é produzir minério de ferro, cobre e níquel, mas a gente está dentro de um território. E não podemos negligenciar isso. O mercado de restauração florestal hoje no Brasil está pujante. Sistemas agroflorestais são fáceis? Não. Mas se você olhar para uma Belterra que não existia cinco anos atrás e hoje é uma das maiores empresas de restauração florestal no Brasil, estes são negócios que estão dando certo”, destacou.

Bioeconomia

Tanto a Belterra Agroflorestas quanto o projeto de produção e de beneficiamento da mandioca por meio de projetos que envolvem a agricultura familiar e a agroecologia materializam uma das grandes tendências da atividade agropecuária para as próximas décadas: o avanço da chamada bioeconomia.

De maneira geral, a bioeconomia é um modelo econômico baseado no uso sustentável dos recursos naturais. Além desses projetos serem sustentáveis, eles também fortalecem as tradições locais e as cadeias produtivas. Na Amazônia, os resultados positivos dessa forma sustentável de negócio tem atraído, cada vez mais, investimentos de governos e da iniciativa privada.

Em uma estimativa conservadora, que desconsidera os efeitos de novas políticas climáticas, a Associação Brasileira de Bioinovação (Abbi) diz que a bioeconomia poderá movimentar US$ 108 bilhões no país até 2050.

Só no Pará, por exemplo, a bioeconomia da sociobiodiversidade tem movimentado R$ 13,5 bilhões por ano, impulsionada por cadeias produtivas ligadas à floresta, aos rios e à agricultura familiar, segundo dados do Relatório Técnico Preliminar: Análise da Bioeconomia da Sociobiodiversidade no Estado do Pará. O documento foi elaborado pela Rede Pará de Estudos sobre Contas Regionais e Bioeconomia.

Integração

Embora já estejam provocando algumas mudanças e até ajudado a movimentar a economia da região amazônica, esses diversos projetos de bioeconomia, no entanto, ainda são incipientes na tarefa de mitigar a crise climática. Para Pedro Abel Vieira, pesquisador da área de estudos estratégicos da Embrapa, os projetos desenvolvidos na Amazônia são atualmente fragmentados e heterogêneos, sem conversarem entre si.

“Os projetos são positivos, mas sem foco”, diz ele, que defende uma visão mais holística ou integrada para a Amazônia. “Nós precisamos ocupar, e ocupar no sentido institucional de Estado, da presença do Estado lá. É preciso dar direções e criar institucionalidades [nessa região]”, destacou.

Depois dessa presença, ressalta ele, é preciso também dar um direcionamento para esses projetos e garantir previsibilidade.

“Nós temos que avançar agora no que a gente chama de bioeconomia ampliada [um processo que combinaria inovação científica com conhecimento tradicional, especialmente para promover a biodiversidade, o desenvolvimento rural e a descarbonização industrial]. E isso só é possível com coordenação”, reforçou Vieira.

Estratégia inclusiva

Projetos de agloflorestas e agroecologia, que buscam transformar terras degradadas em uma produção sustentável, ocorrem no momento em que as mudanças climáticas apontam que o reflorestamento é uma questão urgente mundo.

Um estudo publicado pela revista Nature em 2024 apontou que, em 2050, a Amazônia poderá atingir o chamado “ponto de não retorno”, em que a floresta não seria capaz de se sustentar e o bioma começaria a sofrer um processo de savanização.

Isso pode fazer com que plantações em todo o país também sejam impactadas e perdidas, já que a Amazônia é fundamental para a manutenção do regime de chuvas no Brasil.

Por isso, a bioeconomia aparece como uma boa alternativa para o Brasil. No início deste mês, o governo federal lançou o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), uma estratégia para tornar a bioediversidade um dos grandes ativos do país.

No lançamento do plano, a secretária nacional de Bioeconomia do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Carina Pimenta, defendeu que o plano é uma grande estratégia de desenvolvimento nacional que olha para os ativos ambientais não apenas do ponto de vista da conservação, mas de como fazer o uso deles dentro das atividades econômicas, “gerando um novo ciclo de prosperidade”.

“A Estratégia Nacional de Bioeconomia tem uma formulação muito interessante”, admitiu o pesquisador Roberto Porro, da Embrapa Amazônia Oriental. No entanto, destacou ele à Agência Brasil, é preciso observar se essa estratégia criada pelo governo federal vai garantir também o fortalecimento da sociobiodiversidade e da economia inclusiva, principalmente na região amazônica.

“A bioeconomia está sendo abarcada por uma gama muito grande de atividades, de setores e de possibilidades econômicas e isso traz consigo uma série de desafios”, destacou.

“Quando você trabalha com comunidades tradicionais ou com um segmento social que tem sido marginalizado há décadas, então não é adequado você trabalhar com a lógica do mercado pura e simples e com os tempos ou com o cronograma que o mercado demanda”, reforçou.

Para ele, não basta pensar na bioeconomia em uma perspectiva de preservação das florestas se não se garante a justiça social.

“Não basta você substituir combustível fóssil e não basta você ter uma produção agrícola mais produtiva se você fizer isso às custas de questões sociais e das culturas locais”, afirmou. “Por isso eu espero que se consolidem essas iniciativas voltadas a uma bioeconomia inclusiva, de fato. Uma bioeconomia que possa contribuir e não prejudicar esses grupos”.

Fonte: Agência Brasil

* A repórter viajou a convite da Vale.

#agrofloresta agroecologia Belterra bioeconomia PRINCIPAL recuperação de áreas degradadas
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