A Amazônia ocupa um papel estratégico no debate global sobre transição energética. Rica em recursos naturais, biodiversidade e com grande capacidade de geração por fontes renováveis, a região reúne condições fundamentais para liderar um novo modelo de desenvolvimento sustentável. No entanto, essa mesma região que abastece boa parte do País com energia limpa ainda convive com profundas desigualdades no acesso à eletricidade.
Um estudo lançado pela iniciativa Uma Concertação pela Amazônia em parceria com o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) expõe o contraste citando um dilema estrutural: enquanto a Amazônia sustenta o sistema energético nacional, parte da sua população permanece à margem dos benefícios dessa produção.
O estudo mostra que a Amazônia Legal responde por cerca de 25,7% de toda a energia elétrica gerada no Brasil, mas consome apenas 8,4%. Grande parte dessa produção vem de hidrelétricas no Pará como a Usina Hidrelétrica de Tucuruí e a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que juntas podem gerar quase 20.000 MW.
Apesar disso, o acesso à energia não acompanha essa abundância. No Pará, aproximadamente 4,8% da população ainda vive sem eletricidade, mas este cenário é ainda mais crítico em outros estados amazônicos, como Rondônia e Acre.
A pesquisa aponta que essa desigualdade é pautada na própria história nacional, visto que a região é conhecida por produzir energia em larga escala, embora não consiga distribuí-la de forma efetiva entre seus moradores.
Uso de combustíveis fósseis
Nas áreas mais isoladas, como comunidades indígenas, unidades de conservação e assentamentos rurais, mais de um milhão de pessoas ainda dependem de sistemas de geração movidos a diesel.
O grande problema é que além de poluentes e caros, esses sistemas operam de forma limitada, muitas vezes fornecendo energia por apenas algumas horas ao dia. No cotidiano das pessoas, o impacto é certo: escolas funcionam sem iluminação adequada, unidades de saúde enfrentam restrições e as atividades econômicas ficam comprometidas em localidades que vivem do extrativismo.
O estudo chama atenção para outra contradição: enquanto o Brasil amplia o uso de energia limpa, a própria região que torna isso possível ainda depende, em parte, dos combustíveis fósseis.
Adaptação como solução
A análise das instituições aponta caminhos claros para enfrentar o problema. Uma das principais apostas está no investimento em sistemas descentralizados de energia renovável, adaptados à realidade amazônica, como uso de energia solar, biomassa e bioenergia.
Essas fontes são apontadas como alternativas viáveis para substituir o diesel nas comunidades isoladas. Além de reduzir custos e emissões, essas soluções podem garantir maior autonomia energética para as populações locais.
Outro ponto central destacado pelo estudo é a integração entre energia e sociobioeconomia. Ao conectar a geração de energia com o fortalecimento das cadeias produtivas do açaí, pescado e óleos vegetais, é possível fortalecer a economia local e promover desenvolvimento sustentável.
A pesquisa cita que até o setor agropecuário seria beneficiado com a democratização do acesso à energia elétrica, visto que mais de 220 mil estabelecimentos rurais da Amazônia Legal não possuem acesso regular a eletricidade. Destes, 84 mil locais não possuem qualquer acesso a energia elétrica.
Democratizar o acesso
Ao mesmo tempo em que possui potencial para liderar a transição energética, a Amazônia enfrenta pressões crescentes por exploração de recursos naturais. A expansão da mineração e o interesse por petróleo impulsionada pela exploração na foz do Rio Amazonas colocam a região no centro de disputas econômicas, geopolíticas, ambientais e sociais, afetando especialmente povos indígenas e comunidades tradicionais.
Sem o investimento efetivo na democratização do acesso a energia elétrica, essas comunidades enfrentariam dificuldades para sobreviver em meio ao avanço dessas iniciativas. No Pará, esse duelo já foi observado com a implementação de hidrelétricas, como a de Belo Monte.
Neste caso, existe um debate judicial que se arrasta por anos cobrando indenizações aos povos indígenas das proximidades, que tiveram acesso a água, comida e manutenção de suas tradições comprometidas.
Em 2024, por exemplo, o MPF pediu uma indenização de pelo menos R$ 42,5 milhões à Norte Energia por morte de peixes em Belo Monte. Já em 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que o Governo Federal fizesse um repasse imediato de R$ 19 milhões às comunidades indígenas afetadas. O valor é referente à Compensação Financeira pela Utilização dos Recursos Hídricos (CFURH), dinheiro que a União recebeu pela exploração da usina.
O estudo aponta que, mais que uma questão de infraestrutura, o acesso à energia deve ser tratado como um direito fundamental já que, na Amazônia, a ausência ou precariedade desse serviço amplia desigualdades históricas e limita oportunidades de desenvolvimento.
Por isso, a transição energética, segundo os pesquisadores, precisa ir além da troca de fontes. Ela deve ser conduzida como uma transformação social, baseada na participação das comunidades, transparência e justiça territorial.
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