Resumo
- Relatório da OMM e do Met Office aponta 91% de chance de o planeta ultrapassar o limite de aquecimento do Acordo de Paris entre 2026 e 2030, impulsionado por gases de efeito estufa.
- A Amazônia terá aquecimento acima da média global e redução de chuvas até 2035. Meses de seca (maio a setembro) serão ainda mais severos, elevando o risco de incêndios e prejudicando a absorção de carbono.
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No Pará, a estiagem pode afetar a navegação em rios (isolando comunidades tradicionais), gerar perdas na agropecuária por falta de água e piorar a qualidade do ar devido às queimadas.
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Especialistas cobram políticas imediatas de adaptação, focadas no combate ao desmatamento, prevenção ao fogo e gestão hídrica para proteger os 30 milhões de habitantes da região.
Por Tereza Coelho
A temperatura média global deve permanecer em níveis historicamente elevados pelos próximos cinco anos, aumentando os riscos de eventos climáticos extremos em diversas partes do planeta, como a Amazônia, por pelo menos, 10 anos.
O alerta é da Organização Meteorológica Mundial (OMM) e do Met Office, serviço meteorológico do Reino Unido, que divulgaram uma nova projeção apontando que o aquecimento global seguirá avançando ao longo desta década.
Segundo o relatório, há 91% de probabilidade do planeta ultrapassar a marca de 1,5°C de aquecimento entre os anos de 2026 e 2030. Os cientistas apontam ainda uma chance de 75% de que os próximos cinco anos também fique acima desse limite, ultrapassando o limite de 1,5°C estabelecido no Acordo de Paris.
As projeções indicam que cada ano entre 2026 e 2030 deverá registrar temperaturas entre 1,3°C e 1,9°C acima da média observada entre 1850 e 1900.
Outro alerta preocupante aponta 86% de probabilidade de que um novo recorde anual de temperatura global seja estabelecido antes do fim desta década.
Em entrevista a Reuters, a cientista Melissa Seabrook, do Met Office comenta que ultrapassar temporariamente o patamar definido no Acordo de Paris não significa que ele tenha fracassado, já que o limite de 1,5°C se refere a uma média de longo prazo. Entretanto, os resultados mostram que o mundo está cada vez mais próximo de ultrapassar esse patamar de forma permanente.
“A ciência é muito clara ao mostrar que a janela para manter a temperatura média global em 1,5°C está se fechando rapidamente”, diz a pesquisadora.
Amazônia sob pressão
Entre as regiões que mais preocupam os pesquisadores está a Amazônia, pois os modelos climáticos projetam temperaturas acima da média em praticamente toda a floresta tropical nos próximos anos, com aquecimento ainda mais intenso do que o previsto.
As previsões para o período entre 2026 e 2035 mostram que a Amazônia poderá registrar elevações de temperatura superiores às observadas em outras regiões tropicais do planeta. Além disso, os modelos indicam uma tendência de redução das chuvas em parte significativa da floresta.
Para o intervalo entre maio e setembro de 2026 a 2030, que coincidem com meses tradicionalmente mais secos em grande parte da Amazônia brasileira, os cientistas identificaram uma maior probabilidade de chuvas abaixo da média.
O cenário também aparece nas projeções para a próxima década, que indicam menos chuva sobre a região quando comparadas às projeções climáticas convencionais.
A combinação entre calor mais intenso e redução das precipitações aumenta o risco de secas prolongadas, incêndios florestais e perda de biodiversidade. Todos esse ingredientes podem comprometer a capacidade da floresta de armazenar carbono, um dos serviços ambientais mais importantes para a regulação do clima global.
Pará em alerta
No Pará, os impactos podem ser sentidos de forma severa em diferentes setores. Por um lado, a redução das chuvas tende a afetar os rios que sustentam a mobilidade de milhares de comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas.
Episódios recentes de seca extrema já provocaram dificuldades no transporte fluvial, interrupções no abastecimento de água e prejuízos à pesca artesanal em diversas regiões do estado.
O setor agropecuário também pode enfrentar desafios maiores, já que essas temperaturas elevadas aumentam a evaporação da água do solo e elevam a demanda hídrica das culturas agrícolas, enquanto períodos mais longos de estiagem ampliam os riscos de perdas de produtividade.
Outra preocupação está relacionada ao aumento da ocorrência de queimadas. Em anos de seca severa, a vegetação torna-se mais vulnerável ao fogo, favorecendo a propagação de incêndios florestais que liberam grandes quantidades de gases de efeito estufa e afetam diretamente a qualidade do ar.
Adaptação climática urgente
O relatório da OMM reforça que o aquecimento global continuará sendo impulsionado principalmente pelo acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera. Mesmo com oscilações naturais do clima, como os fenômenos El Niño e La Niña, a tendência de longo prazo permanece de aumento das temperaturas.
Por isso, os especialistas defendem a ampliação das políticas de adaptação climática, especialmente em regiões vulneráveis como a Amazônia.
Entre as medidas consideradas estratégicas estão o fortalecimento da gestão dos recursos hídricos, a prevenção de incêndios florestais, a proteção dos territórios tradicionais e o combate ao desmatamento.
As projeções indicam que a floresta enfrentará um ambiente mais quente e potencialmente mais seco na próxima década, tornando ainda mais urgente a adoção de ações capazes de reduzir sua vulnerabilidade e preservar a vida de mais de 30 milhões de pessoas, além de incontáveis espécies da fauna e flora.
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