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GENTE DA TERRA 8 de julho de 2026

Mulheres unem tradição e ciência na criação de biocosméticos no Oeste do Pará

A marca familiar Amélias da Amazônia foi criada na comunidade São Domingos, dentro Flona do Tapajós
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As irmãs Marileide, Marilene e Marcilene criaram o Amélias da Amazônia. Elas transformam sementes nativas em autonomia financeira por meio da extração sustentável do óleo de andiroba. Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
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Resumo

  • O grupo de mulheres ribeirinhas Amélias da Amazônia, da comunidade São Domingos (Flona do Tapajós, PA), extrai artesanalmente óleo de andiroba e copaíba para cosméticos e medicamentos desde 2016.
  • O projeto familiar gera receita extra que ajuda no sustento das casas, financia a educação dos filhos e prepara uma nova geração de jovens para administrar o negócio e trazer tecnologias para a comunidade.
  • Os óleos artesanais servem de matéria-prima para a Mahá Biocosméticos, marca criada por farmacêuticas da Ufopa que desenvolve produtos capilares científicos a partir de ativos nativos, fortalecendo a economia e ajudando a manter a floresta em pé.
  • A Mahá atua na Oka Hub (em Belterra, PA), uma incubadora do Sebrae que conecta o conhecimento ancestral de povos tradicionais à ciência, oferecendo infraestrutura e capacitação para negócios sustentáveis da região.
  • O modelo atual focado nos ciclos naturais e no coletivismo (bioeconomia) contrasta com o passado da região na década de 1930, quando Henry Ford tentou implantar o “fordismo” e a produção em massa de látex na Vila Americana, projeto que fracassou por ignorar a cultura e a dinâmica local.

Do alto de seus 30 ou 50 metros, a andiroba lança frutos maduros ao chão. O impacto divide a casca dura em quatro partes e espalha as sementes pelo terreno. A partir daí, começa o trabalho das Amélias da Amazônia, grupo de mulheres ribeirinhas que produzem óleos para fins medicinais e cosméticos desde 2016.

Elas vivem na comunidade São Domingos, que fica dentro da Floresta Nacional do Tapajós, no Oeste do Pará. Todo o trabalho é feito de maneira manual, e respeita o ritmo ditado pela natureza e pelos costumes locais.

O primeiro passo é coletar as sementes, que têm características angulares, arredondadas, cor de café e textura semelhante à cortiça. Para chegar ao produto final, é preciso esperar em média três meses, o que inclui as etapas de higienização, cozimento, secagem e quebra da semente, seguidas do preparo da massa e da decantação.

“Aprendemos essa técnica de tirar o óleo da andiroba com nossos avós e os nossos pais, que nos passaram essa cultura e tradição”, explica a ribeirinha Marileide da Silva Monteiro.

Marileide conta que a maior parte das sementes se perdia. Algumas famílias pegavam para fazer remédios, mas era muito pouco.

“Uma irmã teve a ideia de fazer o óleo para vender e nós nos juntamos. Era uma forma de conseguir um recurso extra para casa e não ter que ficar trabalhando tanto na roça debaixo do sol”, complementa.

O empreendimento reúne 16 pessoas, mas é liderado por três irmãs: além de Marileide, Marilene e Marcilene. O protagonismo das mulheres no projeto foi uma das inspirações para o nome da marca.

Ressignificando “Amélia”

No senso comum, “Amélia” virou símbolo de mulher submissa ao marido, que suporta qualquer coisa sem reclamar, em referência à marcha carnavalesca composta em 1942 por Mário Lago e Ataulfo Alves.

As Amélias da Amazônia ressignificaram o estereótipo. Enfrentaram a desconfiança de alguns homens da comunidade e seguiram com o projeto de criar o próprio negócio, mesmo que isso significasse executar tarefas mais pesadas.

“A gente estava acostumada a trabalhar em roça com o nosso pai. Plantando, fazendo farinha, cortando seringueira. Quando veio a ideia de começar o negócio dos cosméticos, tivemos que arrancar os tocos de árvores no machado, limpamos todo o terreno na enxada, fizemos uma horta e outras estruturas. Foi muito trabalho”, explica Marilene Dias da Silva.

Produtos do Amélias da Amazônia. Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Hoje, além dos óleos de andiroba e de copaíba, fabricam sabonetes, velas, incensos, cremes e repelentes. Todos com base em matérias-primas amazônicas.

“Com o dinheiro, a gente já consegue pagar uma escola para o meu filho. Também posso dar um calçado melhor para ele. Não dá para dizer que está suprindo tudo, mas já é um começo e os ganhos ajudam a família a passar o mês”, conta Marileide.

Uma nova geração da família está sendo preparada para assumir o negócio, também com o protagonismo delas. É o caso de Silvia Gabrielly, de 23 anos, filha de Marileide. Ela divide o tempo entre o trabalho como agente ambiental no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a administração das redes sociais das Amélias.

O plano de Silvia é investir nos estudos e trazer novos saberes e tecnologias para a comunidade.

“Eu já fiz vários cursos na área ambiental e na área de turismo. Agora, estou fazendo uma graduação em tecnologia ambiental. Quero entender mais sobre as plantações, a produção dos produtos e a gestão do negócio. Também precisamos de mais conhecimentos para administrar e divulgar o trabalho”, diz a jovem.

Biocosméticos

Os óleos produzidos pelas Amélias não ficam restritos à comunidade São Domingos. Eles são matéria-prima para a Mahá Biocosméticos. O negócio foi idealizado pelas farmacêuticas Melissa Karen Lage e Bruna de Souza quando faziam graduação na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).

Elas se especializaram em produtos capilares, como xampus, condicionadores e máscaras de nutrição. A ideia veio de uma necessidade pessoal de Melissa, que identificou uma lacuna no mercado.

“Na época, quase não havia opções para cabelos cacheados, principalmente os que fizessem um efeito a longo prazo e que realmente tratassem dos fios. Eu iniciei os experimentos com o óleo da babosa, até que minhas orientadoras sugeriram os ativos da Amazônia. Então, decidimos usar óleos e manteigas daqui da região”, explica a farmacêutica.

Saiu a babosa (Aloe vera) – com origem africana e árabe, e produzida no Brasil principalmente no Sudeste – e entraram os óleos da andiroba e da castanha-do-pará, espécies nativas da Amazônia. Para isso, foi essencial estabelecer parcerias com comunidades tradicionais.

“Nós sempre quisemos fazer algo que beneficiasse todo o território. Quando as pessoas compram nossos produtos, estão fortalecendo as cadeias produtivas locais”, explica Melissa.

Melissa Karen Lage, farmacêutica e sócia da Mahá Biocosméticos. Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Ela explica que uma preocupação do negócio, desde o início, foi apoiar o esforço da população local em manter a floresta em pé. Por isso, a equipe das Amélias conheceu os laboratórios da Mahá, enquanto Melissa e Bruna ofereceram capacitação para o reaproveitamento dos resíduos da andiroba.

Para que a integração econômica local fosse ainda mais completa, outros materiais importantes para os cosméticos teriam de ser produzidos na região. Porém, alguns insumos – como mentol, glicerina e essências – precisam ser comprados de empresas de São Paulo ou do Rio de Janeiro. Assim como as embalagens biodegradáveis.

Apesar das dificuldades logísticas, a Mahá passa por um processo de expansão e consegue comercializar produtos para todo o Brasil.

O plano agora é aumentar esse volume de vendas. Uma parceria foi feita com a Bemol, grupo varejista de Manaus (AM), e o processo produtivo foi terceirizado: hoje fica sob responsabilidade da Ekilibre da Amazônia, fábrica de Alter do Chão (PA).

As farmacêuticas têm conseguido dedicar mais tempo à parte criativa. Manejando diferentes elementos naturais e insumos químicos, tubos de ensaio e equipamentos eletrônicos, desenvolvem novas fórmulas.

“Algumas pessoas acham que as coisas da Amazônia ainda são apenas artesanais. Essas coisas têm valor, mas também fazemos ciência. Estamos na universidade e desenvolvemos nossos produtos com todo o critério científico. Ao mesmo tempo, valorizamos as tradições da comunidade”, diz Melissa.

Ancestralidade e inovação

O laboratório da Mahá fica na Oka Hub, uma incubadora de empresas de bioeconomia em Belterra (PA). Idealizada pela Colabora Lab, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a ideia é que pequenos negócios recebam infraestrutura, capacitação e estabeleçam contatos com outras empresas.

Há uma rede que conecta esses empresários com instituições como a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), além das comunidades tradicionais.

“Os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos que vivem na Amazônia acumularam um saber de valor inestimável, que agora ganha outra dimensão com a bioeconomia. São conhecimentos sobre como usar, de modo sustentável, os recursos da região que, apesar de abundantes, não são inesgotáveis”, diz diretor técnico do Sebrae Nacional, Bruno Quick.

Segundo os organizadores, 11 negócios são apoiados atualmente na Oka Hub, um espaço, segundo o lema oficial, “onde a ciência encontra a floresta, onde ancestralidade vira inovação”.

“Ao apoiar esses ambientes de inovação, estamos proporcionando os meios necessários para que a tecnologia sirva como ferramenta de escala e sustentabilidade para os saberes da floresta, gerando emprego e renda qualificada na própria região”, completa.

Fordismo x “Amazonismo”

Se o presente em Belterra e na Floresta do Tapajós é de valorização do modo de vida e da economia amazônica, em um passado já distante, os projetos para a região eram totalmente diferentes.

Os vestígios deste período estão próximos, a poucos metros da Oka Hub. São casas de madeira pintadas em verde e branco, em uma área conhecida como Vila Americana. A estética é anacrônica, importada do Meio-Oeste dos Estados Unidos.

Na década de 1930, a Ford Motor Company, de Henry Ford, pretendia cultivar seringueiras em massa, para extrair látex e usar na indústria de pneus. A vila era o centro administrativo e residencial de elite norte-americana que trabalharia na região, como engenheiros e gerentes.

Uma grande caixa d’água de ferro alimentava o sistema hidráulico das moradias. A sirene no topo soava em diferentes horários do dia e regulava os turnos de trabalho na plantação.

Henry Ford nunca visitou Belterra e a empresa vendeu os ativos ao governo brasileiro em 1945, depois de o projeto fracassar. As casas hoje são ocupadas por instituições públicas, como as sedes da Prefeitura e da Câmara Municipal, e por moradores locais. A vila foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A Vila Americana simboliza hoje uma Amazônia que resistiu às tentativas externas de exploração, argumenta a historiadora Venize Nazaré Ramos Rodrigues, da Universidade do Estado do Pará (UEPA). Ela é autora do artigo Belterra: cidade americana no coração da Amazônia.

A autora interpreta esses conflitos como resultado do choque entre a lógica do fordismo — sistema marcado pela produção em massa, padronização e fragmentação do trabalho —, e os modos de vida amazônicos, ligados aos ciclos da natureza, à liberdade criativa e ao engajamento coletivo.

“Não se pode pensar em modernidade para a Amazônia sem levar em consideração os povos que vivem nessa região, a floresta e a relação que se estabelece entre homem e natureza”, diz o artigo.

A autora ressalta que o capital americano “fez pouca ou quase nenhuma concessão à cultura local, implantando um sistema que normatizava desde o sistema de trabalho até o lazer e as relações sociais, interferindo na vida pessoal e no padrão de convivência local, afetando as diversas dimensões do viver nativo”, complementa a historiadora.

Ciência na floresta

A “modernidade” na Amazônia hoje se traduz pela união entre tradição e ciência. Um dos símbolos disso é o Museu de Ciências da Amazônia (MuCA), instituição que reúne pesquisa e educação ambiental.

Em destaque, estão as coleções científicas ligadas à biodiversidade do bioma, incluindo animais peçonhentos, como serpentes, e as pesquisas relacionadas à conservação ambiental e à diversidade ecológica.

O responsável pelas áreas educacional e laboratorial do museu, Arthur Carvalho, afirma que a relação com as comunidades tradicionais é um dos diferenciais do projeto.

“Tudo o que a gente tem hoje de conhecimento científico partiu do conhecimento empírico, do conhecimento tradicional. O que torna o MuCA único é isso: estar próximo dessas comunidades, poder dialogar e aprender com elas”, reflete Arthur.

Exemplos concretos dessa integração foram apresentados ao longo desta reportagem. A Oka Hub, incubadora de negócios e de pesquisas, usa espaços dentro do MuCA. As farmacêuticas da Mahá Biocosméticos trabalham na Oka Hub e usam óleos produzidos na Floresta do Tapajós pelas ribeirinhas da Amélias da Amazônia.

Arthur defende que, para alcançar todos os potenciais culturais, científicos e econômicos da região, é preciso ampliar investimentos e mobilizar o engajamento coletivo na defesa da Amazônia.

“Existem aqui empresas de tecnologia que trabalham uma série de soluções, mas que ainda não têm credibilidade que mereciam. As pessoas deveriam valorizar mais a região e apoiá-la para que cresça cada vez mais”, pede o amazônida.

Fonte: Agência Brasil

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