Resumo
- Cientistas alertam que o pico do atual El Niño — considerado o mais forte em 150 anos — deve coincidir com o fim da estação seca na Amazônia (outubro a dezembro), com potencial para provocar uma seca severa até março.
- Pecuaristas do Pará já se preparam para conter prejuízos decorrentes do estresse térmico no rebanho, da perda de qualidade das pastagens e da escassez de água, que aumentam os custos de suplementação alimentar.
- ]O governo e lideranças alertam para o isolamento de aldeias devido à seca dos rios e ao aumento do risco de incêndios em terras tradicionais; o governo federal estocou alimentos como medida preventiva.
- A floresta ainda não se recuperou totalmente da seca de 2023-24. Com cerca de um terço de sua área degradada, a vegetação rasteira está mais seca e suscetível a megaincêndios.
- O governo aposta em fiscalização, monitoramento por satélite e investimento em brigadas de incêndio, enquanto comunidades locais organizam grupos próprios para combater focos de fogo em áreas isoladas.
Enquanto uma onda de calor turbinada pelas mudanças climáticas provoca incêndios na Europa e inundações na Ásia, a Amazônia se prepara para uma seca que preocupa tanto defensores da floresta quanto produtores rurais. Segundo o The Guardian, cientistas preveem que o pico do El Niño atual deve coincidir com o pior momento possível para a maior floresta tropical do planeta: o fim da estação seca, entre outubro e dezembro, quando os rios atingem os níveis mais baixos e a vegetação rasteira fica mais suscetível ao fogo.
O fenômeno, que combina o aquecimento natural das águas do Pacífico com o aquecimento global provocado pelo homem, já é classificado por cientistas como o mais forte em 150 anos. Carlos Nobre, professor da Universidade de São Paulo e um dos principais climatologistas do País, afirmou à reportagem do jornal britânico que a Amazônia precisa estar preparada desde já até pelo menos março, já que o fenômeno tem grande probabilidade de provocar uma seca severa.
Produtores rurais já se mobilizam. Em um grupo de WhatsApp de pecuaristas do Pará, circulam alertas de que o El Niño deve causar estresse térmico nos animais, reduzir a qualidade das pastagens e agravar a escassez de água — fatores que elevam os custos com suplementação alimentar e podem reduzir o ganho de peso e a produção de leite do rebanho.
Comunidades indígenas, que historicamente ajudam a preservar a floresta e a manter o clima estável, enfrentam simultaneamente o desmatamento, o aquecimento global e os efeitos do El Niño.
O governo brasileiro já sinalizou risco maior de incêndios em terras tradicionais e afirma ter feito estoque de alimentos como precaução.
Na seca anterior, comunidades das bacias do Xingu e do Tapajós ficaram isoladas e enfrentaram escassez de água e alimentos quando os rios — principal via de transporte na região — secaram.
A floresta ainda não se recuperou
De acordo com o The Guardian, especialistas e indígenas afirmam que a Amazônia ainda luta para se recuperar da devastação causada pelo último El Niño, em 2023-24, que deixou rios em níveis recordes de baixa, provocou onda de incêndios e causou a morte em massa de botos e peixes.
Com um terço da floresta já degradado por atividades agropecuárias, mineração e mudanças climáticas, árvores e vegetação rasteira estão mais inflamáveis e vulneráveis a megaincêndios, o que amplia o temor de que partes da Amazônia ultrapassem um ponto de não retorno.
O governo tenta conter o problema com monitoramento por satélite, operações de fiscalização e mais investimento em combate a incêndios — estratégia que teria ajudado a reduzir a área queimada na Amazônia ao menor nível desde o início dos registros, em 1985.
Ainda assim, especialistas alertam que um ano de recuperação não é suficiente diante da ameaça atual.
O professor Jos Barlow, especialista em Amazônia do Lancaster Environment Centre, disse ao The Guardian ser difícil imaginar as consequências de secas e calor ainda mais intensos que os já registrados nos três El Niños anteriores (1997-98, 2015-16 e 2023-24).
A temporada de incêndios na Amazônia já começou, mas o pico ainda está a poucos meses de distância. Comunidades indígenas têm organizado suas próprias brigadas para conter focos em áreas mais isoladas da floresta.
Erika Berenguer, pesquisadora da Universidade de Oxford e autora de um livro sobre combate a incêndios florestais, destacou ao jornal britânico que a floresta úmida não deveria estar pegando fogo. Segundo ela, parte do problema é o efeito cumulativo de El Niños sucessivos em um intervalo de tempo relativamente curto.
“É como se você já estivesse doente e aí pegasse uma infecção. Essa infecção vai ter um impacto muito maior no seu corpo porque seu sistema imunológico já está comprometido, lutando contra a doença”, disse ela.


