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MEIO AMBIENTE 16 de junho de 2026

Estudo mostra que territórios indígenas são escudos contra colapso climático

Áreas geridas por comunidades tradicionais estocam um terço do carbono irrecuperável da Terra
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O povo Mamoadate, que cria uma rede de proteção ao redor de palmeiras e árvores frutíferas nativas, garantindo o banquete da fauna local, é citado no estudo. Foto: Ingrid Kelly/Secom
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Resumo

  • Territórios indígenas guardam mais de um terço do “carbono irrecuperável” da Terra — aquele que, se liberado, tornaria impossível reverter o colapso do clima.
  • Essas áreas abrigam 60% dos mamíferos terrestres do planeta, superando em biodiversidade muitas reservas administradas por governos.
  • Práticas como o respeito a áreas sagradas (presente em 96% das comunidades estudadas) e tabus de caça e colheita funcionam como leis ambientais invisíveis e ultraeficientes.
  • Entre 2018 e 2024, as pressões industriais e os incêndios fizeram essas terras perderem o equivalente à poluição anual de 1,7 bilhão de carros em carbono.
  • Embora cuidem de metade das áreas naturais do mundo, os povos indígenas só têm o direito legal de suas terras reconhecido em 19% delas.

Não é força de expressão nem mera coincidência geográfica: a saúde do planeta depende, literalmente, da presença e das tradições dos povos indígenas. Um estudo global publicado na renomada revista científica Humanities and Social Sciences Communications jogou luz sobre um fato incontestável: a cultura de preservação dessas comunidades é a linha de defesa mais eficiente que a Terra possui contra o aquecimento global e a extinção de espécies.

Ouvindo lideranças de 43 comunidades espalhadas por seis continentes, a pesquisa revelou que rituais, idiomas e normas passadas de geração em geração não são apenas folclore — são ferramentas de gestão ambiental de ponta.

Juntos, os territórios indígenas estocam mais de um terço de todo o “carbono irrecuperável” do mundo, aquela reserva crítica que, se subir para a atmosfera, sela o destino climático da humanidade.

“Os territórios indígenas protegem o clima e a vida silvestre em uma escala alcançada em poucos lugares; frequentemente armazenam mais carbono e abrigam mais espécies do que áreas protegidas pelos governos nacionais. Descobrimos que o alto armazenamento de carbono e a biodiversidade presentes nesses territórios não são coincidência. Eles existem graças à presença contínua dos povos indígenas, e não apesar dela”, explica Sushma Shrestha, diretora de ciência indígena da Conservation International e líder da pesquisa.

As “leis invisíveis” que salvam o ecossistema

O estudo mostra que o segredo do sucesso está no respeito absoluto aos ciclos naturais. Enquanto 100% dos entrevistados relataram que já sentem os efeitos extremos das mudanças climáticas na pele, impressionantes 96% apontaram que suas comunidades mantêm santuários intocados, reservados exclusivamente para fins sagrados ou culturais.

Na prática, essas áreas viraram os últimos refúgios para florestas primárias.

Pelo mundo, essa governança se manifesta em estratégias fascinantes:

  • No Brasil: O povo Mamoadate cria uma rede de proteção ao redor de palmeiras e árvores frutíferas nativas, garantindo o banquete da fauna local.
  • No Equador: Os Kichwa proíbem rigidamente a caça de fêmeas de antas e onças-pintadas para assegurar a sobrevivência das espécies.
  • Na Indonésia e Rússia: Famílias Batak Toba barram o desmatamento perto de rios contra a erosão, enquanto os Yukaghir decretam silêncio absoluto nas águas durante a desova do salmão.
  • No Quênia: Os anciãos Pokot decidem o uso da terra cantando histórias ecológicas para os mais jovens em grandes assembleias.

Batalha desigual

Apesar de operarem como os verdadeiros guardiões do mundo, esses povos enfrentam uma batalha desigual. As indústrias extrativas, como a mineração e a exploração madeireira, já impactam diretamente 61% das comunidades ouvidas.

O prejuízo é medido em toneladas: em apenas seis anos, os territórios perderam 2 bilhões de toneladas métricas de carbono devido a invasões e incêndios — o equivalente ao estrago de quase dois bilhões de carros rodando por aí.

O grande nó da questão é jurídico e financeiro. Os povos indígenas administram metade das zonas naturais da Terra, mas só têm o papel passado de suas terras em 19% dos casos.

Sem segurança jurídica, fica muito mais difícil barrar o avanço de grileiros e grandes corporações. Para piorar, embora o mundo prometa bilhões em fundos de conservação, o dinheiro quase nunca chega na ponta, direto nas mãos das organizações indígenas.

Para Johnson Cerda, coautor do estudo que lidera a relação da Conservation International com essas comunidades, ignorar esse cenário não é mais uma opção:

“O conhecimento indígena sustenta alguns dos esforços de conservação mais eficazes do mundo e, ainda assim, por muito tempo foi ignorado, minimizado ou relegado ao segundo plano. Com este estudo, os povos indígenas levantam suas vozes e compartilham suas experiências. Esperamos que formuladores de políticas públicas, em nível nacional e internacional, invistam nesse conhecimento e incorporem essas práticas em suas decisões. Em um momento em que as crises do clima e da biodiversidade se intensificam, ouvir as comunidades indígenas é uma questão de sobrevivência.”

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