Resumo
- Após dois anos de seca severa, a Amazônia recuperou sua superfície de água em 2025, fechando o ano 2,6% acima da média histórica, aponta MapBiomas.
- Pará liderou os ganhos no país, seguido por Goiás e Amazonas.
- No Brasil, a superfície de água cai década após década: foram 2,6 milhões de hectares perdidos entre 1985-1994 e 2015-2024.
- INPE aponta mais de 80% de chance de um novo El Niño no 2º semestre de 2026, que pode reverter a recuperação dos rios
O Pará teve o maior ganho de superfície de água no País em 2025: 142 mil hectares (ha) acima da média dos últimos 40 anos. O resultado acompanha a recuperação de rios, lagos e áreas alagadas na Amazônia, que voltaram a crescer, segundo dados divulgados nesta terça, 16/6, pelo MapBiomas.
Depois de dois anos de seca severa, que baixaram o nível dos rios e isolaram comunidades inteiras, os números indicam um respiro para a região: em 2025, foram 11,5 milhões de hectares de superfície de água, 287 mil a mais que a média histórica, uma alta de 2,6%.
Além do Pará, o ranking dos estados que mais recuperaram superfície de água é formado por Goiás e Amazonas, com 91 mil ha e 87 mil ha. No outro extremo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso tiveram os piores resultados, com 527 mil ha e 336 mil ha a menos, puxados pela seca no Pantanal.
Água para além da Amazônia
A Amazônia concentra 61,4% de toda a superfície de água do Brasil, e boa parte dessa água está em rios que cortam o Pará. O rio Amazonas, maior deles, responde sozinho por quase 20% de toda a superfície de água do bioma, com 2,25 milhões de hectares.
Em seguida, entre os que passam pelo estado, aparecem o Tocantins (880 mil ha), o Xingu (356 mil ha) e o Trombetas (169 mil ha).
Ao todo, os 12 principais rios da Amazônia reúnem 58% de toda a água mapeada na região, e metade das cidades, vilas e comunidades do bioma está a até 50 km de algum deles. Quando o nível dos rios sobe ou desce, é a rotina dessas populações que muda primeiro.
O impacto vai muito além do bioma: a seca ou a cheia dos rios atinge desde a navegação e a pesca das comunidades ribeirinhas até a umidade que abastece as chuvas e mantém as lavouras do Centro-Sul, levada pelos rios voadores.
Recuperação desigual
Apesar do ano positivo, 20 das sub-bacias amazônicas, o equivalente a 37% delas, registraram valores menores que a média histórica. Para Bruno Ferreira, pesquisador da equipe da Amazônia do MapBiomas e do Imazon, os números merecem atenção.
“Mesmo com essa recuperação, a situação ainda é preocupante no longo prazo, já que na região eventos climáticos extremos estão cada vez mais frequentes, além de sinais de instabilidade no regime hídrico, influenciados tanto pelas mudanças climáticas quanto pelas transformações no uso da terra”, diz ele.
Brasil mais seco
O alívio na Amazônia, porém, não muda o quadro nacional. A superfície de água do Brasil vem encolhendo década após década: entre 1985-1994 e 2015-2024, o país perdeu 2,6 milhões de hectares cobertos por água, uma área quase do tamanho de Alagoas.
Especialistas reforçam que, no ano passado, o número voltou a subir, mas seguiu abaixo do normal. Foram 18,2 milhões de hectares de superfície de água no período, 5,3% a mais que em 2024, ainda assim abaixo da média histórica, de 18,5 milhões. Hoje, a água cobre apenas 2% do território nacional.
“Ao longo das últimas quatro décadas, observa-se uma tendência de redução da superfície de água no Brasil. Como se trata de um parâmetro naturalmente dinâmico, não podemos olhar apenas para o dado de 2025 de forma isolada”, explica Juliano Schirmbeck, coordenador técnico do MapBiomas Água.
Alívio é ameaçado por El Niño
A seca que assolou a região amazônica em 2023 e 2024 coincidiu com o último El Niño, fenômeno de aquecimento do Pacífico que reduz as chuvas no norte e leste do bioma. Assim, a volta das chuvas em 2025 ajuda a explicar a recuperação da superfície de água registrada agora.
O quadro pode se inverter de novo em 2026. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) aponta mais de 80% de chance de um novo El Niño no segundo semestre, e projeções do Centro Europeu de Previsões de Tempo de Médio Prazo (ECMWF) indicam um fenômeno possivelmente recorde, com anomalias acima de 2°C no Pacífico.
“O déficit de precipitação previsto para as bacias hidrográficas da Amazônia constitui fator determinante para a redução dos níveis fluviais, com impactos que se estendem além do período seco, em função da defasagem entre a ocorrência das chuvas nas cabeceiras e seus efeitos ao longo das bacias”, diz trecho da nota técnica do INPE.
Saiba mais
- Rios voadores: São “correntes” de umidade que se formam quando a floresta amazônica libera água para o ar. Esse vapor viaja com os ventos por milhares de quilômetros e cai como chuva em outras regiões do país, ajudando a abastecer lavouras e reservatórios bem longe da Amazônia.
- El Niño: É um aquecimento fora do normal das águas do oceano Pacífico que se repete de tempos em tempos e bagunça o clima no mundo inteiro. No norte e no leste da Amazônia, costuma significar menos chuva — e, por consequência, rios mais baixos.


