Por Tereza Coelho
Um estudo baseado na Análise de Custo-Benefício (ACB) concluiu que a exploração de petróleo na Foz do Amazonas pode gerar mais prejuízos do que benefícios ao Brasil. O levantamento, divulgado nesta quinta-feira, 23, aponta perdas socioeconômicas bilionárias, aumento de riscos climáticos e desperdício de oportunidades ligadas à transição energética.
De acordo com o estudo, a exploração na região (que dura 40 anos em média) pode gerar um prejuízo líquido de cerca de R$ 22,2 bilhões para ao País. Isso ocorre porque os custos totais do projeto, somados aos impactos ambientais ao longo de sua operação, superam os benefícios econômicos diretos.
O prejuízo é explicado por um fator central: o petróleo da Foz do Amazonas só chegaria ao mercado em cerca de 12 anos, prazo que coincide com a previsão de declínio da demanda mundial, segundo a Agência Internacional de Energia. Esse descompasso eleva o risco de ‘ativos encalhados’, situação em que os investimentos deixam de gerar retorno antes de se tornarem obsoletos
O diagnóstico indica que, quando os custos financeiros, climáticos e ambientais são considerados, o investimento na nova fronteira petrolífera pode se transformar em um risco nacional. A metodologia utilizada é a mesma adotada pelo governo federal para comparar a exploração de petróleo com alternativas como energias renováveis e biocombustíveis.
A Análise Socioeconômica de Custo-Benefício (ACB) considera três cenários: Real por Real, que compara a alocação de recursos; BTU por BTU, que avalia a equivalência energética; e Litro por Litro, que considera a equivalência dos combustíveis em volume.

Custos indiretos
Além do custo financeiro, a atividade pode emitir aproximadamente 446 milhões de toneladas de dióxido de carbono ao longo de quatro décadas. Esse volume contribui para o agravamento da crise climática e gera custos indiretos, como eventos extremos, perdas econômicas e impactos à saúde pública.
Nesse cenário, a continuidade do projeto expõe o Brasil ao risco de construir uma infraestrutura bilionária que pode se tornar ultrapassada antes de gerar retorno, forçando o Estado a absorver prejuízos e elevando os gastos em comparação com investimentos imediatos na transição energética.
O economista Daniel Thá, consultor da WWF-Brasil afirma que parte da precificação estimada do petróleo também está relacionada com os investimentos em transição climática.
“Esse fator já é levado em consideração por eles porque o jogo vai mudar muito em breve. Para o Brasil é extremamente arriscado apostar tudo em uma infraestrutura que logo mais começará a entrar em desuso, especialmente entre nações mais ricas”, destaca.
Desenvolvimento e riscos ambientais
A Foz do Amazonas é considerada uma área ambientalmente sensível por abrigar ecossistemas importantes, como manguezais, áreas de pesca e o sistema de recifes amazônicos.
O estudo destaca que esses ambientes desempenham papel fundamental na regulação do clima e na manutenção da biodiversidade. Segundo a análise, a exploração de petróleo na região amplia o risco de danos ambientais de grande escala e potencialmente irreversíveis para as comunidades amazônicas.
Embora parte da justificativa para a exploração da Foz do Amazonas esteja no argumento de que o petróleo poderia financiar o desenvolvimento sustentável, o estudo aponta que o Brasil já possui uma matriz elétrica majoritariamente renovável e condições de ampliar esse modelo.
O especialista em conservação do WWF-Brasil e doutor em Planejamento Energético, Ricardo Fujii, um dos coordenadores do estudo, afirma que a rota fóssil apresenta pior desempenho econômico e social para o país. Ele também destaca que o Brasil já reúne pré-requisitos para avançar na transição energética.
“O país já é autossuficiente em petróleo, e as reservas do Pré-Sal atendem à demanda interna durante o processo de transição energética”, comenta Ricardo Fujii.
Nesse contexto, a Amazônia surge como um ponto estratégico não para a expansão de combustíveis fósseis, mas para impulsionar uma economia baseada em energia limpa e de baixo impacto ambiental.
Alternativas mais vantajosas
O levantamento indica que investir o mesmo volume de recursos em fontes renováveis pode gerar ganhos expressivos. A eletrificação com base em energia eólica, solar e biomassa, por exemplo, poderia produzir um benefício líquido de cerca de R$ 24,8 bilhões.
Considerando a diferença entre o caminho fóssil e o renovável, o custo de oportunidade da escolha por fontes de baixo impacto ambiental pode chegar a R$ 47 bilhões. Em outras palavras, o estudo aponta que o País deixaria de obter ganhos com alternativas mais eficientes e sustentáveis ao optar pelo petróleo.
No comparativo energético, a produção de eletricidade renovável também se mostra mais barata do que a fóssil. Para entregar a mesma quantidade de energia, o petróleo pode custar até R$ 33 bilhões a mais ao longo do tempo.
O estudo ressalta que a decisão sobre explorar ou não petróleo na região vai além da economia e envolve o modelo de desenvolvimento que o País pretende adotar no longo prazo.
Ao priorizar fontes renováveis, o Brasil pode reduzir riscos, ampliar ganhos sociais e alinhar sua economia às exigências globais de combate às mudanças climáticas. Por outro lado, a expansão da exploração petrolífera tende a resultar em custos mais elevados e benefícios menores para a população.
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