O que se projetava para acontecer nas próximas décadas na Amazônia brasileira já começou. Dois novos estudos liderados por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelam que a maior floresta tropical do mundo enfrenta estações secas mais longas e alterações drásticas nas chuvas.
O cenário, que coloca em xeque a biodiversidade e o abastecimento de água, pode ser agravado em 2026 pela ameaça de um “super El Niño” — aquecimento do Oceano Pacífico que pode elevar as temperaturas globais em mais de 2 °C acima da média. As informações são da Agência Fapesp.
As pesquisas trazem dados alarmantes sobre o comportamento da floresta. Um dos artigos, publicado no International Journal of Climatology, mostra que a estação seca pode se estender por até seis meses, com um déficit hídrico acumulado de -150 milímetros (mm).
Já o trabalho divulgado na revista Perspectives in Ecology and Conservation analisou o período de 2023-2024 e confirmou um salto de 19% nos alertas de degradação florestal e 9% nas áreas queimadas, com 4,2 milhões de hectares atingidos pelo fogo. Isso revela que que o ciclo seca-fogo-degradação está se fortalecendo, reduzindo a capacidade do ecossistema de se restabelecer.
A engenheira ambiental Débora Dutra, primeira autora dos artigos e doutoranda em sensoriamento remoto no Inpe, destaca a gravidade da situação:
“Há alguns anos, quando começamos a discutir cenários climáticos para a Amazônia, muitas vezes esse futuro era visto como algo distante nas conjunturas mais pessimistas. Porém, estamos observando que os extremos de anomalia mais pessimistas estão acontecendo no presente. Quando comparamos os dados de hoje com as projeções, vemos o quão crítica vai ficando essa situação à medida que incluímos cenários pessimistas na análise climática.”
O risco no Sudoeste da Amazônia
O estudo detalhou a situação no sudoeste da Amazônia, abrangendo o Acre e partes do Amazonas e de Rondônia. Embora a região abrigue áreas com mais de 90% de cobertura florestal, ela está sob forte pressão de desmatamento.
Os resultados mostram que, em cenários de altas emissões de gases de efeito estufa, há uma intensificação dos déficits hídricos na estação seca, sobretudo nessa porção sudoeste. As projeções indicam períodos secos mais intensos entre junho e setembro, com déficits que podem ultrapassar -21 mm/mês até o fim do século no cenário mais pessimista.
Esse agravamento tende a causar maior mortalidade de árvores e perda de biodiversidade, reduzindo a capacidade da floresta de atuar como sumidouro de carbono e reforçando um ciclo de retroalimentação entre degradação e aquecimento global.
Metas para 2030 e ação prática
Liana Anderson, pesquisadora do Inpe que lidera o laboratório TREES (Tropical Ecosystems and Environmental Sciences), alerta que o Brasil está em um momento decisivo para cumprir metas internacionais até 2030 e se o esforços forem reais, é possível atingi-las.
“É preciso pensar na conexão entre meio ambiente, desenvolvimento e economia como uma tríade indissociável, seja pelo lado da exploração ou pelo preço a ser pago pela reconstrução após os impactos. Acho que essa crise climática abre oportunidade de repensarmos caminhos e como acelerar iniciativas sustentáveis, que busquem qualidade de vida, justiça social e ambiental. Existe mobilização da comunidade científica para contribuir e mostrar alternativas. A questão é quem está disposto a escutar o que vem sendo estudado ao longo das últimas décadas.”
Parceria contra o fogo
Os estudos sugerem a adoção de análises integradas e governança do fogo, unindo indicadores climáticos a sistemas de alerta. Exemplo disso é a iniciativa “Fogo em Foco”, parceria entre o Inpe e o Corpo de Bombeiros Militar, que teve continuidade autorizada para 2026 para aliar a ciência à prevenção e combate na ponta.
Liana Anderson conclui:
“Essa aproximação é uma forma de aliar o que a ciência consegue entregar com a realidade de quem atua na ponta, tanto em estratégias de prevenção quanto de combate. Tentamos costurar ciência e ações na sociedade. Mas ainda há um ponto em que precisamos avançar, que é a magnitude do impacto econômico e o quanto isso significa para o desenvolvimento do país.”


