Enquanto o Brasil discute grandes safras e tecnologias de ponta, 82% dos agricultores familiares do País ainda trabalham às cegas, sem qualquer orientação técnica. Um estudo lançado nesta terça-feira, 24, propõe uma solução audaciosa para romper esse isolamento: a criação de um sistema nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) inspirado na estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS).
A ideia é transformar o apoio ao campo um direito contínuo e universal, tornando o conhecimento a ferramenta mais barata e eficiente para frear o desmatamento e multiplicar a renda no interior do País.
O levantamento “Assistência Técnica e Extensão Rural para Agricultura Familiar”, fruto de uma parceria entre Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, FOLU Brasil e Fundação Solidaridad, revela o tamanho do abismo: apenas 18% dos produtores familiares têm acesso a suporte hoje. Sem essa ponte, famílias inteiras ficam vulneráveis às oscilações do clima e presas a métodos de baixa produtividade.
A pobreza como motor do desmatamento
O estudo identifica um ciclo trágico, especialmente na Amazônia: a falta de assistência técnica empurra o produtor para a subsistência e, no limite, para a degradação ambiental como estratégia de sobrevivência. Mariana Pereira, gerente de Programas da Fundação Solidaridad e colíder na Coalizão Brasil, aponta que a ATER é a saída dessa armadilha.
“Em muitos desses locais, o desmatamento é um sintoma trágico da pobreza: onde não chega o conhecimento técnico nem o apoio do Estado, a vulnerabilidade econômica acaba se tornando o motor da degradação ambiental”, comenta Pereira.
Estrutura contínua e governança moderna
A proposta do “SUS da ATER” prevê financiamento garantido e capilaridade total. Carla Gheler, coordenadora no CEBDS e também colíder na Coalizão Brasil, defende que uma governança bem coordenada é o que permite ao produtor adotar práticas regenerativas que recuperam o solo e conservam recursos naturais.
“Uma ATER estruturada, bem coordenada e orientada por resultados permite que a agricultura familiar tenha acesso a conhecimento, tecnologia e práticas regenerativas que aumentam produtividade, resiliência climática e conservação dos recursos naturais”, afirma Gheler.
O impacto direto é a possibilidade de produzir mais na mesma área, reduzindo a pressão sobre a mata virgem e cortando emissões de carbono.
Exemplos paraenses e nacionais
No Pará, a estratégia para cobrir os 144 municípios já utiliza incentivos econômicos, como o Cheque Pecuária e o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), para atrair o produtor e criar vínculos de longo prazo. No plano federal, o Bolsa Verde e o Programa Florestas Produtivas tentam escalar essa lógica.
“A pesquisa defende a universalização da ATER como um objetivo para que todos os agricultores tenham acesso ao apoio técnico da mesma forma que todo cidadão tem acesso à saúde via SUS”, reforça Mariana Pereira.
Futuro digital e parcerias acadêmicas
Para modernizar o setor, o relatório sugere o e-ATER, um sistema unificado para monitorar impactos e integrar dados climáticos às decisões no campo. Além disso, propõe reaproximar as universidades das demandas rurais para qualificar extensionistas em temas como agroecologia e baixo carbono.
“Se queremos escalar a adoção de práticas sustentáveis e regenerativas no campo, precisamos fortalecer os instrumentos que levam assistência técnica qualificada aos produtores. Uma governança moderna da ATER pode ampliar o acesso a boas práticas produtivas, gerar ganhos de produtividade e contribuir para resultados climáticos e socioambientais positivos em toda a cadeia agroalimentar”, conclui Carla Gheler.


