Resumo
- O Pará registrou 60.664 hectares de exploração madeireira entre agosto de 2024 e julho de 2025, sendo 68% (41.538 ha) autorizados e 32% (19.126 ha) ilegais, segundo a Rede Simex (Imazon, ICV e Imaflora).
- O total explorado teve uma alta de 40% em relação ao ciclo anterior, impulsionado pelo crescimento de 83% nas áreas autorizadas, enquanto a extração ilegal recuou 6%.
- A área de exploração ilegal de 19,1 mil hectares é a segunda menor dos últimos cinco anos, mas equivale à retirada não rastreada de 38 mil a 57 mil árvores sem plano de manejo.
- Para identificar a extração regular e a ilegal, os pesquisadores cruzam imagens de satélite com dados oficiais do Simlam-PA, Semas-PA, Ideflor-Bio e Serviço Florestal Brasileiro.
- Três municípios concentram quase 37% de toda a ilegalidade do estado: Ipixuna do Pará (2.380 ha), Rondon do Pará (2.371 ha) e Moju (2.304 ha).
- Tomé-Açu (4º lugar com 1.729 ha) figura entre os maiores exploradores ilegais desde o início da série histórica, assim como Rondon do Pará e Goianésia do Pará.
- Paragominas reduziu a exploração ilegal em quase 70%, caindo de 3.823 hectares no ciclo anterior para 1.170 hectares no período atual.
- As terras indígenas responderam por apenas 2% da exploração ilegal (424 hectares), o segundo menor volume da série histórica do Simex.
- Toda a exploração ilegal em terras indígenas no período esteve concentrada na TI Amanayé, que aparece nos relatórios do Simex pela quinta vez consecutiva.
O setor florestal do Pará vive um momento de transição marcado pelo avanço do manejo sustentável e pela persistência de gargalos no combate à ilegalidade. Dados do levantamento da Rede Simex — composta por Imazon, ICV e Imaflora — mostram que a área total sob exploração madeireira no estado cresceu 40% entre agosto de 2024 e julho de 2025, impulsionada por um salto de 83% nas atividades devidamente autorizadas.
Ao todo, 68% do volume de corte no estado seguiu os parâmetros legais, somando 41,5 mil hectares de manejo aprovado pelos órgãos ambientais. Paralelamente, a extração clandestina registrou uma leve retração de 6%, registrando a segunda menor taxa em cinco anos. No entanto, o volume sem comprovação de origem ainda preocupa o setor produtivo e ambientalistas, somando 19,1 mil hectares cortados sem licença.
“Os números mostram que há muito a avançar. Precisamos fortalecer a fiscalização, ampliar as ações de combate e responsabilização dos infratores e criar mecanismos de incentivo ao manejo florestal, principalmente o comunitário”, pontua a pesquisadora do Imazon, Camila Damasceno.
O impacto no mercado
Para o agronegócio florestal, a entrada de produtos sem origem no mercado fragiliza a concorrência leal e deprecia o valor do manejo correto. Especialistas do Imazon apontam que a área explorada ilegalmente responde pela retirada estimada de 38 mil a 57 mil árvores de madeira de lei que entraram na cadeia de comercialização sem plano de manejo, vistoria técnica ou rastreabilidade.
“Quando essa quantidade massiva de madeira chega ao mercado sem garantia de origem, todo o setor florestal é prejudicado, enfraquecendo os esforços de transparência e os investimentos de quem opera de forma regularizada no estado”, alerta Carlos Souza Jr., coordenador do programa de monitoramento da Amazônia do Imazon.
Para fortalecer a legalidade, a pesquisa ambiental defende um duplo caminho: o rigor fiscalizatório contra o corte pirata e o incentivo direto às modalidades de manejo florestal sustentável, sobretudo as iniciativas comunitárias.
Exemplo de gestão em Paragominas
A extração não autorizada no Pará apresenta um forte caráter regionalizado. Cerca de 37% de toda a ilegalidade mapeada se concentra em apenas três municípios do nordeste paraense: Ipixuna do Pará (2,38 mil ha), Rondon do Pará (2,37 mil ha) e Moju (2,30 mil ha). Cidades como Tomé-Açu e Goianésia do Pará também mantêm histórico recorrente nos relatórios de não conformidade, demandando ações focadas de regularização fundiária e fiscalização.
“Rondon do Pará e Goianésia do Pará, por exemplo, aparecem nessa relação há cinco anos. Essa repetição demonstra que é preciso intensificar a atuação dos órgãos responsáveis pelo controle ambiental, além de fortalecer alternativas de produção sustentável que contribuam para reduzir a pressão sobre a floresta”, observa. Camila
Por outro lado, o município de Paragominas consolidou uma virada positiva no monitoramento territorial. Historicamente posicionado entre os líderes de cortes irregulares, o município reduziu a extração clandestina em quase 70% no último período, caindo de 3,8 mil para 1,17 mil hectares.
O caso demonstra que a integração entre fiscalização, uso de dados de satélite do Simlam-PA e investimento no setor produtivo formal consegue conter a pressão ilegal sobre a vegetação nativa.
Proteção de territórios e tecnologias de rastreio
Em territórios protegidos, as terras indígenas responderam por apenas 2% do total de extração ilegal registrada no estado (424 hectares) — reforçando a função dessas áreas como barreiras de contenção. Contudo, todo o volume ilícito identificado nessa categoria ficou concentrado dentro da Terra Indígena Amanayé, que acumula cinco ciclos seguidos de registro de invasões.
“A redução da extensão afetada não significa que o problema esteja resolvido. A ocorrência de exploração ilegal em uma área protegida é extremamente sensível e exige atenção urgente. Além dos danos ambientais, essas ações representam violações aos direitos dos povos originários, expondo as comunidades a conflitos, ameaças e restrições ao direito de circular livremente em sua própria terra, com possíveis impactos sobre a saúde e os modos de vida tradicionais”, explica a pesquisadora.
Para identificar a conformidade das operações em todo o estado, os pesquisadores da Rede Simex cruzam imagens de satélite de alta resolução com dados cadastrais e de licenciamento da Semas-PA, Ideflor-Bio e do Serviço Florestal Brasileiro (SFB).
Esse monitoramento independente permite verificar se os lotes de onde a madeira foi retirada possuem licença válida de Manejo Florestal Sustentável, garantindo transparência para compradores nacionais e internacionais.


