Resumo
- A Presidência brasileira da COP30 lançou dois “Mapas do Caminho” globais com foco no abandono dos combustíveis fósseis e no fim do desmatamento até 2030.
- Os guias atacam os dois principais fatores de emissões globais: o setor energético (75% dos poluentes) e a destruição das florestas (11%).
- Desenvolvidos com apoio do PNUD, os documentos servem como manuais práticos e voluntários para transformar os discursos do Acordo de Paris em políticas públicas e metas nacionais.
- O mapa de transição energética introduziu o Índice de Prontidão de Belém para que cada país avalie sua situação nos pilares de demanda, oferta e economia, recebendo recomendações sob medida.
- O plano energético também propõe o “Mutirão TAFF” para acelerar ações coordenadas contra combustíveis fósseis até 2033.
- O mapa florestal estabelece cinco frentes de atuação (conservação, manejo/bioeconomia, combate à degradação, combate ao desmatamento e restauração) e abrange florestas de todo o mundo.
- O documento aponta que o financiamento é o maior obstáculo no setor florestal, exigindo alta nos recursos de US$ 84,5 bilhões para mais de US$ 300 bilhões anuais até 2030, além de maior participação internacional.
- Os relatórios abrem caminho para a meta de mobilizar US$ 1,3 trilhão ao ano até 2035 para países em desenvolvimento, transferindo a responsabilidade de implementação direta a cada governo nacional.
A Presidência brasileira da COP30 lançou nesta terça-feira, 3, dois documentos decisivos para acelerar a ação climática no mundo: o Mapa do Caminho para a Transição para o Afastamento dos Combustíveis Fósseis e o Mapa do Caminho para Parar e Reverter o Desmatamento e a Degradação Florestal até 2030.
Apresentados pelo presidente da conferência, André Corrêa do Lago, e pela diretora-executiva, Ana Toni, os mapas atacam diretamente os dois maiores vilões das emissões globais de gases de efeito estufa: o setor de energia (responsável por 75% dos poluentes) e a destruição florestal (que responde por 11%).
Elaborados com o apoio do PNUD, os documentos funcionam como manuais práticos e voluntários para ajudar as nações a transformar os discursos do Acordo de Paris em leis, investimentos e resultados concretos.
“Nossa intenção é ajudar os países a terem políticas, tanto na direção de zerar o desmatamento quanto na direção do afastamento dos [combustíveis] fósseis. Políticas baseada nas informações, na ciência e nos dados que já estão disponíveis hoje”, disse Corrêa do Lago.
Transição Energética
O mapa voltado à energia reforça que abandonar o petróleo, o gás e o carvão é uma meta urgente, inevitável e totalmente possível. Para orientar essa transição de forma justa e sem comprometer o abastecimento ou inflacionar os preços, o documento introduziu o Índice de Prontidão de Belém (Belém Readiness Approach).
Por meio desse sistema, cada país fará uma autoavaliação baseada em três pilares:
- Demanda de energia: uso no transporte, indústrias e construções;
- Oferta de energia: ritmo de redução da produção fóssil e avanço das renováveis;
- Economia global: dependência fiscal de combustíveis fósseis e acesso a investimentos.
Ao cruzar a exposição ao problema com a capacidade de resposta, o país descobre em qual perfil (ou arquétipo) se encaixa e recebe recomendações sob medida. A iniciativa propõe também o Mutirão TAFF (Transitioning Away From Fossil Fuels), uma agenda internacional acelerada até 2033, conectada aos próximos prazos do Acordo de Paris.
Para a diretora-executiva da COP30, Ana Toni, todos os países já estão em condições de iniciar o trabalho nacional imediatamente.
“A transição é inevitável, então, comece a planejar agora e o mais breve possível. Porque isso vai ser bom para o seu país, para a sua sociedade, para a sua economia”, afirmou.
Proteção Florestal
No setor ambiental, o mapa florestal abrange a proteção de matas tropicais, subtropicais, temperadas e ecossistemas como manguezais. Embora o desmatamento mundial tenha caído de 17,6 milhões de hectares por ano na década de 1990 para 10,9 milhões de hectares na última década, os índices continuam alarmantes — com as florestas tropicais concentrando 88% dessa perda.
O plano nacional para manter as matas em pé foi estruturado em cinco frentes:
- Conservação de áreas nativas;
- Manejo sustentável, agrofloresta e bioeconomia;
- Combate à degradação (perda de saúde da floresta por secas e incêndios);
- Combate ao desmatamento ilegal;
- Restauração e reflorestamento.
O documento aponta que o maior gargalo para barrar o desmatamento é o financiamento. O PNUMA estima que os recursos globais para as florestas precisam subir dos atuais US$ 84,5 bilhões por ano para mais de US$ 300 bilhões até 2030.
O relatório cobra maior investimento internacional, apontando que 88% da conta atual é paga com orçamentos públicos dos próprios países em desenvolvimento.
O desafio de colocar em prática
Os dois guias abrem caminho para o relatório de financiamento que a presidência brasileira lançará para detalhar a mobilização de US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 para os países em desenvolvimento.
“Os Mapas do Caminho fazem exatamente isso, criam uma plataforma e um processo, que mostram no horizonte o que é possível a partir de experiências das mais diversas formas e vindas de diferentes povos. Colocam isso em perspectiva, que permite avançar em pequenos aspectos que vão se somando, criando uma sinergia e avançando em soluções globais”, disse o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco,
Com a transição para a COP31, em Antália (Turquia), o recado deixado por Belém é que a estrutura global de acordos está pronta. O compromisso agora cabe a cada governo — a começar pelo próprio Brasil, de quem se espera a publicação rápida de seu mapa de transição energética nacional.
“Com este mapa, a Presidência da COP30 encerra seu mandato devolvendo a bola aos países. Acabaram as desculpas: cada país pode e deve fazer seu diagnóstico para se situar e começar a lição de casa já. A transição para longe dos combustíveis fósseis é urgente, necessária e complexa, mas o mapa mostra vários caminhos para chegar até ela”, destaca Stela Herschmann, líder de Política Internacional do Observatório do Clima.


