O que muitos pecuaristas veem como terra cansada, o pesquisador Emerson Borghi, da Embrapa Pecuária Sudeste, enxerga como um dos maiores ativos do agronegócio brasileiro. Atualmente, o País soma 100 milhões de hectares de pastagens degradadas, mas uma fatia de 28 milhões tem potencial direto para a agricultura. O segredo para destravar esse valor não é substituir o gado, mas usar a Integração Lavoura-Pecuária (ILP) para fazer com que a soja ou o milho paguem a reforma do pasto.
A transição para o sistema ILP muda a estrutura da fazenda. Ao rotacionar grãos com braquiária, o produtor elimina o cenário de solo exposto, erosão e plantas daninhas.
“A evolução acontece com o tempo. Ganhos na fertilidade do solo, como aumento de matéria orgânica, carbono e da atividade biológica, criam um ambiente que reflete em elevação de produtividade, seja para grãos ou para a pecuária, onde o grande reflexo é o ganho de peso animal”, destaca Borghi.
Um dos principais trunfos da integração é o retorno financeiro rápido. A soja, cultura mais utilizada no sistema, amortiza os custos da renovação da pastagem logo no primeiro ano. Além do caixa, a ILP oferece uma “apólice de seguro” natural contra as mudanças climáticas.
“A ILP é a oportunidade de transformar um cenário degradado, de baixa produtividade, em um sistema que a agricultura amortiza os custos para renovar a pastagem ou então propicia a utilização desses grãos dentro da propriedade, diminuindo a dependência externa”, explica Borghi.
No sistema de plantio direto viabilizado pela integração, as raízes das forrageiras criam canais no solo, permitindo que as culturas seguintes busquem água em camadas profundas.
“A matéria orgânica, entre vários benefícios, atua como uma esponja. Esse efeito melhora a retenção de água e nutrientes, essenciais para o desenvolvimento das plantas sob estresse”, destaca o pesquisador.
Outro fator determinante para a sustentabilidade é a manutenção do solo coberto, diminuindo a evaporação e a evapotranspiração das plantas. Embora as mudanças climáticas possam causar perdas de produtividade em qualquer sistema, Borghi reforça que a tecnologia faz a diferença.
“Em um sistema de integração, usando os preceitos do sistema de plantio direto, a sua perda é menor do que quem não faz”, conta.
Assim, a ILP não apenas recupera o solo e melhora a produtividade, mas apresenta maior resiliência contra as mudanças climáticas.
Apesar dos lucros evidentes, a implementação esbarra na cultura do campo. O desafio, segundo Borghi, é adaptar o pecuarista tradicional ao uso de máquinas e ao planejamento agrícola rigoroso. A mensagem é clara: a agricultura não chega para expulsar o boi, mas para profissionalizar o negócio pecuário.


