Resumo
- Pesquisadores do Inpe que participaram de estudo recente sobre a mudança do clima na Amazônia nos últimos 40 anos alertam para dados ainda mais alarmantes sobre a região
- De acordo com eles, a área de 10% da bacia que registra alta acelerada nas temperaturas da estação seca corresponde a mais de 700 mil km² de floresta, e o ritmo do aquecimento indica transformações profundas nas próximas décadas.
- Estudo dividiu o bioma em células de 11 km para analisar dados de temperatura e chuva entre 1981 e 2023.
- A projeção é que os extremos podem acumular uma alta de até 3,5 °C até a metade do século, impactando diretamente o regime de chuvas, a segurança alimentar e a geração de energia no Brasil.
- A porção centro-norte da Amazônia, distante do “arco do desmatamento” e com territórios indígenas e florestas intactas, virou o novo foco de aquecimento, mostrando que a conservação local não blinda a floresta das mudanças globais.
- A seca extrema amplia a degradação (perda de densidade e umidade) em áreas remotas. No trimestre de setembro a novembro de 2024, a plataforma TerraBrasilis registrou 31.077 km² de área degradada.
- A transição climática recente e a previsão de um El Niño forte entre o final de 2026 e início de 2027 ligam o sinal de alerta para novos picos de seca e degradação no bioma.
A recente publicação do estudo internacional na revista Communications Earth & Environment revelou uma nova geografia da crise climática no bioma amazônico. No entanto, o recorte de dados analisado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) traz alertas ainda mais específicos para o cenário nacional: a área de 10% da bacia que registra alta acelerada nas temperaturas da estação seca corresponde a mais de 700 mil km² de floresta, e o ritmo do aquecimento indica transformações profundas nas próximas décadas.
A pesquisa, que reuniu mais de 50 cientistas – entre eles, especialistas do Painel Científico para a Amazônia e do (INPE) – é considerada a avaliação mais detalhada já feita sobre como o clima mudou na região: os pesquisadores dividiram toda a Amazônia em células de 11 km e analisaram dados de temperatura e chuva entre 1981 e 2023.
De acordo com o levantamento feito pelos cientistas brasileiros Liana O. Anderson, Ana Paula Aguiar e Luiz Aragão, enquanto a média do bioma subiu 0,21 °C por década, as temperaturas máximas extremas no período mais seco registraram um salto médio de 0,49 °C a cada dez anos.
Para a pesquisadora Liana Anderson, os resultados indicam que a intensificação dos extremos pode trazer consequências ambientais, sociais e econômicas.
“Se contabilizarmos as mudanças nas temperaturas extremas durante a estação seca que já observamos nestas últimas década (0,49 °C), podemos estimar que em 2050 a região poderá sofrer com um aumento total de 3,5 °C, o que terá grandes consequência locais, como deterioração social e ambiental e portanto consequentemente e diretamente econômica, assim como mudanças nos regimes de chuvas, afetando a produção de alimentos e energia do País”, disse
O avanço invisível da degradação
O estudo chama a atenção por focar na porção centro-norte da Amazônia, historicamente caracterizada por baixa interferência humana e distante do chamado “arco do desmatamento”. Para Luiz Aragão, o fato de os eventos extremos se intensificarem justamente em áreas com floresta intacta e territórios indígenas preservados comprova que as ações de combate ao desmatamento local, embora indispensáveis, já não são suficientes para blindar o ecossistema das mudanças globais.
“A parte central e norte da Amazônia enfrenta poucos distúrbios antrópicos, como desmatamento e queimadas, quando comparada à fração leste e sul. Os resultados da pesquisa têm implicações para a busca de soluções, com estratégias de adaptação e mitigação para atingir as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa”, afirma Aragão.
Na prática, o impacto climático sobre essas áreas consolidadas manifesta-se no aumento da degradação florestal — processo em que a floresta perde densidade e umidade sem necessariamente ser corte raso. Registros da plataforma TerraBrasilis, operada pelo INPE, mostram o tamanho desse impacto: apenas no trimestre entre setembro e novembro de 2024, a área degradada na Amazônia atingiu 31.077 km².
De olho no El Niño
Os pesquisadores destacam que eventos climáticos extremos recentes na Amazônia reforçam a importância de acompanhar a evolução das condições climáticas na região. A seca de 2023/2024, por exemplo, esteve associada a temperaturas elevadas e a condições do Oceano Pacífico relacionadas à transição de La Niña para El Niño.
O cenário merece atenção diante das condições previstas para 2026. As previsões mais recentes indicam alta probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte entre setembro e novembro, com possibilidade de persistência do fenômeno até o início de 2027.
O INPE acompanha esse fenômeno por meio do Painel El Niño 2026-2027, desenvolvido em parceria com outras instituições, que disponibiliza mensalmente informações atualizadas sobre o monitoramento, as previsões e os possíveis impactos do El Niño no Brasil. Acesse aqui a edição de agosto do Boletim do Painel El Niño 2026-2027.
A pesquisadora Ana Paula Aguiar, coordenadora científica da Sala de Situação da plataforma TerraBrasilis do INPE, tem acompanhado a evolução dos focos de calor do Programa Queimadas e dos alertas de degradação do sistema Deter (Programa BiomasBR) na ferramenta e explica.
“Por ora, os efeitos do El Niño ainda não estão sendo sentidos, embora se perceba um incremento nas últimas semanas. Os resultados do nosso artigo são muito preocupantes porque, em anos de seca extrema, a área degradada é muito superior ao desmatamento, e se distribui em áreas remotas”.
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