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Home»MEIO AMBIENTE»Fumaça de queimadas deve ser tratada como ameaça à saúde pública, dizem especialistas
MEIO AMBIENTE 15 de setembro de 2026

Fumaça de queimadas deve ser tratada como ameaça à saúde pública, dizem especialistas

Pico dos incêndios de 2024 na Amazônia fez o ar ficar cinco vezes mais poluído do que no centro de São Paulo
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Fumaça prejudica a visibilidade e traz riscos para a saúde da população. Foto: Reprodução Projeto Saúde e Alegria
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Resumo

  • Especialistas alertam que as partículas nocivas (PM2,5) emitidas por queimadas afetam desproporcionalmente populações vulneráveis na Amazônia — como crianças, idosos, indígenas e comunidades tradicionais —, provocando desde picos agudos até meses seguidos de exposição a um ar impróprio.
  • Dados indicam que, durante o pico de queimadas em 2024, a fumaça cobriu partes da Amazônia por até 138 dias, fazendo com que o ar em Terras Indígenas de Rondônia chegasse a ser cinco vezes mais poluído do que no centro de São Paulo.
  • A OMS associa o material particulado PM2,5 a 4,2 milhões de mortes anuais no mundo, além de doenças cardiovasculares e câncer de pulmão, destacando que os danos à saúde continuam mesmo após o fogo ser apagado, já que a fumaça se desloca por centenas de quilômetros.
  • A região conta com iniciativas comunitárias e tecnológicas de combate e monitoramento, como o Observatório do Marajó, que mobiliza lideranças em 17 municípios paraenses, e o projeto Marajó Sem Fumaça, que alia brigadas locais à inteligência artificial em Ponta de Pedras (PA).
  • O evento marcou o lançamento da Rede Ar, plataforma do Ipam com 91 sensores de baixo custo instalados em 13 estados que medem a qualidade do ar a cada dois minutos em cidades, escolas, áreas rurais e Unidades de Conservação.

Os impactos dos materiais particulados presentes na fumaça liberada por queimadas e incêndios florestais devem ser tratados como um risco crescente para a saúde pública, segundo especialistas que participaram do seminário “Política, ciência e territórios no Manejo Integrado do Fogo no Brasil”.

O evento marcou o Dia Internacional do Ar Limpo e destacou pesquisas sobre gestão e impactos do fogo, monitoramento da qualidade do ar e os efeitos da poluição sobre a vida da população amazônica. Efeitos nocivos das partículas são sentidos sobretudo por crianças, idosos e povos e comunidades tradicionais da Amazônia.

“Bebemos cerca de 2 litros de água por dia, mas respiramos mais de 10 mil litros de ar. Por isso é tão importante termos dados sobre o que respiramos. Em épocas de queimadas, comunidades indígenas são expostas a um ar muito pior do que nas principais cidades e avenidas do país. Essa exposição vai desde momentos agudos, com dias de ar muito ruim, até uma exposição contínua, com meses seguidos de ar impróprio para a saúde”, destacou Filipe Arruda, pesquisador do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

Em 2024, queimadas recordes fizeram com que grandes porções da Amazônia fossem cobertas por partículas nocivas à saúde por até 138 dias, de acordo com estudo do Ipam.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a exposição ao PM2,5, principal material particulado fino associado às queimadas, está relacionada a 4,2 milhões de mortes por ano no mundo, além de doenças cardiovasculares e câncer de pulmão.

Ao serem inaladas, essas partículas podem atravessar as paredes dos pulmões, entrar na corrente sanguínea e afetar todos os sistemas do corpo humano.

“A fumaça não respeita fronteiras e pode afetar territórios a centenas de quilômetros de distância. Quando vemos um incêndio florestal, é natural que a primeira preocupação seja o controle do fogo, mas, na saúde, existe uma dimensão de exposição da população que se perpetua mesmo quando o fogo é extinto”, pontua Fábio David Reis, coordenador de Vigilância de Determinantes Ambientais em Saúde.

Dessa forma, segundo Fábio, a atuação da vigilância em saúde nas políticas de fogo é essencial para compreender o impacto real das queimadas, além de permitir a implementação de práticas que levem em conta populações sensíveis e os riscos da exposição contínua à fumaça.

“Precisamos entender quem está potencialmente exposto, quais partículas estão no ar e até quando essa contaminação pode durar. O desafio é fazer essas informações dialogarem”, completa.

O evento foi realizado pelo Instituto Ar, pela startup brasileira umgrauemeio e pelo projeto  Marajó Sem Fumaça, com parceria do Ipam, IBAMA/Prev Fogo e do Integra Fogo. A iniciativa também conta com apoio do Clean Air Fund.

Saúde de povos e comunidades tradicionais

Durante períodos de queimadas intensas, como os registrados na Amazônia em 2024, áreas conservadas costumam registrar índices de poluição atmosférica elevados. De acordo com dados produzidos pelo Ipam e divulgados na newsletter Um Grau e Meio, em 2024, três terras indígenas de Rondônia tiveram um ar até cinco vezes mais nocivo do que o registrado na área mais poluída do centro de São Paulo.

“Temos essa ideia de que as pessoas que estão em áreas conservadas têm ar puro, mas muitas vezes não é verdade, porque elas têm sofrido cada vez mais com a fumaça de incêndios florestais que passam despercebidos nas áreas urbanas”, explica Mariana Senra, assistente técnica do PrevFogo (Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais).

Para Thaianne Resende, diretora do Departamento de Qualidade do Ar do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, uma abordagem multissetorial sobre o fogo é essencial para medir adequadamente seus impactos em áreas fora dos centros urbanos e proteger a saúde dos povos e comunidades tradicionais.

“Cuidar das pessoas é cuidar da qualidade do ar, do clima e dos ambientes. A discussão sobre o fogo não pode estar limitada ao combate. Precisamos compreender melhor os efeitos da exposição à fumaça para entender quais áreas são críticas e como podemos lidar melhor com essa ameaça oculta”, comenta.

O evento destacou iniciativas comunitárias de monitoramento de queimadas e da qualidade do ar, como o Observatório do Marajó e o projeto Marajó Sem Fumaça.

Criado em 2023, o Observatório é uma ferramenta de monitoramento cidadão de calamidades climáticas na região. O modelo reúne indicadores próprios e mobiliza lideranças locais para a coleta de informações sobre a seca e o fogo durante os períodos de inverno e verão amazônico nos 17 municípios do Marajó, no Pará.

“Buscamos sensibilizar o poder público por meio desses dados. Percebemos que os municípios da região não estão preparados nem estão agindo adequadamente para a mitigação e a adaptação às mudanças climáticas. Cada vez mais pessoas têm relatado problemas de saúde, como tosse, pressão baixa e dificuldade para respirar”, alerta Bianca Barbosa, gestora de projetos do Observatório do Marajó.

Já o projeto Marajó Sem Fumaça combina uma brigada comunitária e tecnologia de inteligência artificial para detectar precocemente incêndios em Ponta de Pedras, município do Arquipélago do Marajó.

“Implementamos um modelo que é capaz de reduzir o tempo de resposta e, consequentemente, as emissões e os impactos à saúde. Os alertas chegam em tempo real aos celulares dos brigadistas, que podem agir antes que o fogo se espalhe.”, afirma Patrícia Ferrini, coordenadora do projeto Marajó Sem Fumaça.

Rede Ar

Além de debates, o seminário marcou o lançamento da Rede Ar, plataforma desenvolvida pelo Ipam que reúne dados de 91 sensores de qualidade do ar instalados em 13 Estados. O projeto fornecerá dados em tempo real sobre a concentração de material particulado na atmosfera, emitido principalmente por queimadas. As informações poderão apoiar políticas públicas de saúde e meio ambiente, além de servir como alerta para a população e os tomadores de decisão.

“O fogo tem consequências diretas para a saúde, para a economia e para a qualidade de vida, mas ainda é difícil fazer esse monitoramento em tempo real. Essas consequências, no entanto, são sentidas de forma desproporcional pelos povos da floresta. Por isso, é importante ampliar nossa capacidade de monitoramento e previsão para outras áreas do país”, destaca Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam.

Mapas interativos

Com sensores baseados em tecnologia nacional, mais baratos, adaptados à realidade amazônica e de fácil manutenção, o projeto pretende ampliar a quantidade e a diversidade dos pontos de coleta de dados de temperatura, pressão, umidade e partículas presentes no ar. Além das cidades, a plataforma fornece atualizações frequentes sobre unidades de conservação, áreas rurais e escolas.

“É um sensor feito na Amazônia e para a Amazônia. Queríamos medir uma partícula que é 10 vezes menor do que a espessura de um fio de cabelo e esbarramos na falta de infraestrutura básica para expandir essa rede. Em conversa com as comunidades indígenas, conseguimos criar um protótipo que usa energia solar e uma rede de internet indígena. Agora é possível, a cada dois minutos, gerar dados confiáveis e em tempo real com sensores de baixo custo e dados abertos”, destaca Filipe Arruda, que coordena a plataforma.

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