Resumo
- O primeiro semestre de 2026 teve o menor índice de desmatamento na Amazônia dos últimos dez anos. O Cerrado também registrou a menor área de perda de vegetação desde 2021.
- Foram perdidos 1.295 km² na Amazônia (queda de 38% comparado a 2025) e 3.142 km² no Cerrado (queda de 6%).
- Especialistas apontam que a volta de investimentos federais, o aumento de fiscais e a aplicação de multas sufocaram a impunidade.
- A redução do desmatamento melhora a diplomacia e transforma o Brasil em parte da solução climática global.
- A chegada do fenômeno El Niño no segundo semestre preocupa devido ao risco de seca severa e queimadas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
O primeiro semestre de 2026 fechou com uma marca histórica na Amazônia: o bioma registrou a menor área com sinais de desmatamento dos últimos dez anos. Dados do Deter (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real), divulgados pelo Inpe nesta sexta-feira, 10, mostram que entre janeiro e junho foram identificados 1.295 km² sob alerta de perda de vegetação.
É o menor patamar para o período desde o início da série histórica do sistema, em 2016.
Os avisos do Deter servem como alertas rápidos para guiar a fiscalização em campo, apontando onde há perda de vegetação nativa em tempo real. Eles indicam uma redução no ritmo de novas derrubadas, e não a recuperação da floresta que já foi perdida. Os números oficiais são de outro sistema do instituto, o Prodes, mais preciso e divulgado anualmente.
Antes de 2026, o melhor resultado do primeiro semestre havia sido registrado em 2017, com 1.332 km² sob alerta. Desde então, o índice vinha oscilando bastante: chegou a 1.645 km² em 2024 e bateu o pico de quase 4 mil km² em 2022.
Mato Grosso (489 km²), Pará (391 km²) e Amazonas (184 km²) lideraram o desmatamento da Amazônia neste ano, até o momento.
O Cerrado também apresentou redução na perda de vegetação nativa. O Deter apontou 3.142 km² sob alerta entre janeiro e junho deste ano — o menor valor para o primeiro semestre desde 2021
Junho manteve tendência
A tendência de queda se confirmou no mês de junho isolado:
- Na Amazônia: O Deter detectou 297,26 km² com sinais de desmatamento, uma redução de 35% frente aos 457,61 km² registrados em junho de 2025.
- No Cerrado: Os avisos recuaram 5,3%, passando de 508,69 km² para 481,53 km² na mesma comparação.
“Os números estão mostrando que esse processo de redução está sendo cumulativo, redução sobre redução. Então, estamos numa trajetória positiva, tanto na Amazônia como no Cerrado”, disse a Folha de S.Paulo o ministro do Meio Ambiente e Mudança Climática, João Paulo Capobianco.
Fatores que Explicam a Redução
Segundo Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas, o recuo da destruição ambiental está diretamente ligado à volta de ações do governo federal, incluindo planos de controle, recomposição de orçamentos e equipes de fiscalização, além de punições financeiras para infratores.
Para ele, no entanto, os índices de desmatamento ainda são elevados em termos mundiais.
“O desafio agora é transformar essa redução em tendência estrutural. Chegar a 2030 com o desmatamento em nível residual —algo abaixo de 100 mil hectares [1.000 km²] por ano no país— já seria uma enorme vitória e muito próximo do espírito da meta de desmatamento zero.”
Para Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, os resultados desde 2022 mostram que conter o desmatamento depende de decisão política e melhora a imagem externa do Brasil.
“O mundo aprendeu a ‘ler’ o Brasil a partir do desmatamento. Cada ponto de queda transforma o país de problema em solução, um ativo que nenhum outro membro do G20 tem”
A Ameaça do El Niño
A chegada do fenômeno El Niño no segundo semestre pode trazer uma seca severa para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Isso favorece incêndios — provocados por ações humanas criminosas, acidentais ou queimadas — e deve colocar à prova a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, instituída em 2024 após grandes incêndios anteriores.
As mudanças climáticas decorrentes da perda de vegetação também prejudicam a própria produção na Amazônia.
O calendário técnico e a taxa oficial (Prodes)
O Inpe também analisa os dados por um calendário próprio, que vai de agosto a julho do ano seguinte. Esse modelo permite avaliar um ciclo completo de desmatamento, já que o ritmo da atividade e a capacidade de monitoramento mudam conforme as estações de chuva e seca.
Nos primeiros 11 meses do ciclo atual (agosto de 2025 a junho de 2026), os alertas recuaram 37,2% na Amazônia (somando 2.485,90 km²) e caíram 7,9% no Cerrado (chegando a 4.689,40 km²). Esse ciclo fecha com os dados de julho.


