Por Tereza Coelho
Dá para transformar resíduos da floresta em produtos de alto valor e fortalecer a pegada sustentável dos seus clientes? Há 26 anos, a Fibras da Amazônia confirma que sim. Comandado pelos sócios Hilson Rabelo e Elivane Rabelo, a empresa produz papelaria artesanal, ecobags e outros itens presenteáveis a partir de fibras reaproveitadas de miriti, tururi e patchouli.
A matéria-prima dessas fibras são utilizadas principalmente no artesanato, mas após o uso inicial, os resíduos viravam lixo em áreas de várzea a manguezais, contribuindo com a poluição de áreas do nordeste paraense. A rede de parcerias firmada com artesãos, pequenos comerciantes e instituições resolveu este problema, permitindo gerar lucro extra em todas as etapas, além de criar produtos que levam a sustentabilidade e o meio ambiente em seu DNA.
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Para Hilson, também artesão, o diferencial está na ‘rede de negócios sustentáveis’, que potencializa o alcance e o impacto da causa pelo manejo consciente dos recursos naturais.
“A experiência (do cliente final) começa naqueles primeiros segundos, quando você vê ou toca nas embalagens. Essa conexão imediata faz muita diferença e leva nossa mensagem ainda mais longe, por isso essa rede é tão fundamental”, afirma.
Atualmente, a Fibras da Amazônia utiliza matéria-prima vinda de Abaetetuba, município famoso pela produção artesanal de miriti — ícone cultural do Círio de Nazaré. Boa parte do insumo provém do reaproveitamento de resíduos da confecção dos tradicionais brinquedos locais.
A empresa transforma esse material em biomassa, base para a produção de papel artesanal, seu principal produto. Hoje, o portfólio inclui kits corporativos personalizados, como pastas, blocos, crachás plantáveis e ecobags, segmento que impulsiona o negócio e responde por mais da metade do faturamento — que atingiu R$ 60 mil em 2025.”
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Segundo o empreendedor, a proposta geral vai além da estética dos produtos. A ideia é que cada item carregue uma história de produção sustentável e cooperação entre diferentes atores da cadeia.
“Seja para um pequeno empresário que compra da gente para criar uma entrega especial do seu produto ou para uma empresa que faz acordo com a gente para produzir press kits, a mensagem do nosso compromisso com o meio ambiente percorre toda a cadeia produtiva. E chega ao cliente com valor agregado, que também pode fazer parte desse ciclo ao plantar seu crachá ao final do evento que participou, por exemplo”, explica.
A produção da empresa fica concentrada em Belém, enquanto a operação comercial possui duas unidades em Salinópolis. O município, destino de grande fluxo turístico durante as férias escolares e no verão, tornou-se um ponto estratégico para atrair novos clientes. A operação tem apresentado bons resultados, com um gasto médio de R$ 300 por visitante.
Cultura e legado
A identidade cultural da região também é parte central do projeto. Nas estampas das peças aparecem elementos da cultura amazônica, como referências marajoaras, tapajônicas e ícones urbanos da capital paraense.
Para Elivane Rabelo, essa conexão com o território e com outros empreendedores fortalece tanto a marca quanto o impacto socioambiental do negócio.
“Participamos de vários eventos com pequenos comerciantes e produtores todos os anos. Esse ecossistema (mercadológico) voltado para o (fortalecimento do) meio ambiente gera trocas e ideias incríveis para novos produtos”, declara.
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Segundo ela, ouvir todos os envolvidos na cadeia produtiva é essencial para criar soluções mais sustentáveis e inovadoras.
“Precisamos ouvir todas as pontas da cadeia e valorizar cada etapa. Assim como a natureza fica mais próspera com mais espécies, para a gente também funciona assim. Cada contribuição já fortalece”, reforça.
O modelo colaborativo também se reflete nos futuros projetos da empresa. Entre eles está o desenvolvimento de carvão vegetal feito a partir de fibra de coco, para reaproveitar o volume de cascas descartadas no turismo de Salinópolis. Já a outra iniciativa, desenvolvida em parceria com o Laboratório de Óleos da Amazônia (LOA), pretende criar embalagens biodegradáveis a partir de biopolímeros produzidos com batata e fibra de miriti.
A meta da empresa é faturar R$ 100 mil em 2026 com as novas iniciativas, reforçando que a bioeconomia possui valor econômico sem precisar degradar o meio ambiente.
“A COP30 foi muito especial para nossas vendas e saímos de lá ainda mais fortalecidos. Agora vamos levar nossas ideias para outros mercados com certeza de que a bioeconomia tem valor e pode ficar ainda mais presente no dia a dia das pessoas”, declara Hilson.


