No município do Acará, no nordeste paraense, a agricultura e o extrativismo moldam a vida de mais de 40 mil pessoas. Ali, a união entre o manejo sustentável e o aproveitamento integral de frutos amazônicos deu origem a óleos e manteigas de alta pureza — um negócio que já elevou em 30% a renda das famílias locais.
A semente desse impacto nasceu de uma memória de infância de Gilberto Nobumassa, fundador da FortParaOil. Ele cresceu vendo o pai vender polpas de cupuaçu na feira, enquanto as sementes eram descartadas. Anos depois, como engenheiro mecânico no setor de óleo de palma, Gilberto teve um estalo: aplicar o rigor industrial de extração às sementes regionais. “Era a chance de conectar os dois mundos e atender a um mercado que clama por ingredientes autênticos da floresta”, afirma.
“Era a oportunidade ideal de conectar os dois mundos e alimentar um mercado que pede por ingredientes da floresta”, diz.
Fortalecimento comunitário
Em parceria com 70 famílias de comunidades rurais do município, o negócio executa práticas regenerativas para conservar o meio ambiente, garantir qualidade de frutas e sementes por meio da tecnologia industrial e agrária, assim como fortalecer a geração de renda.
As comunidades fornecem amêndoas de espécies nativas como andiroba, murumuru, tucumã e pracaxi, muito usadas pelas indústrias de cosméticos e alimentos. Após a coleta das amêndoas, é a vez dos processos de separação da polpa, secagem, quebra e extração dos óleos, feita por prensagem a frio para preservar propriedades terapêuticas e funcionais das sementes.
“Queremos garantir qualidade e a preservação de propriedades que agreguem valor ao produto final”, explica.
Ver essa foto no Instagram
Pureza como diferencial competitivo
Embora a demanda por insumos naturais de origem amazônica esteja em crescimento, impulsionada pela busca por produtos com menor impacto à saúde e ao meio ambiente, a forma como a indústria nacional e internacional reconhecem esse diferencial ainda passa por algumas divergências.
“Temos parcerias em indústrias de dentro e fora do Brasil, mas há diferenças em como eles veem o mercado. Em negociações aqui no Brasil, notamos que o preço, somado ao desconhecimento sobre o potencial da região amazônica, pode gerar preconceitos e desvalorização da matéria prima. Já nas negociações com países da América do Norte, Europa e Ásia, observamos que eles já chegam valorizando pureza e origem baseada na preservação da biodiversidade, o que nos abre possibilidades com mercados cada vez mais estratégicos. Temos parcerias com diversas empresas brasileiras, mas o mercado internacional ainda valoriza mais nossos insumos que o nacional”, relata.

Para o empreendedor, a consolidação da bioindústria na Amazônia passa necessariamente pela ampliação da escala e investimentos em educação e formação de profissionais e agricultores que saibam como valorizar seus produtos.
“Não é possível pensar a região apenas com negócios embrionários. A Amazônia é gigantesca e precisa de projetos escaláveis, mas sem repetir o modelo da monocultura para preservar a biodiversidade”, afirma.

A proposta da FortParaOil é continuar avançando em uma escala baseada em tecnologia, personalização e inovação, responsáveis pelos mais de 400 clientes da empresa e um aumento de 30% na renda das famílias e cooperativas parceiras.
“Fizemos um levantamento interno para medir impacto e constatamos que a renda das famílias aumentou 30% apenas com a organização básica da cadeia produtiva, o que já faz uma grande diferença e pode ficar ainda melhor. É um excelente indicativo que estamos no caminho certo”, conta.
Em curto, médio e longo prazo, as parcerias institucionais e investimentos de impacto são importantes para viabilizar essa expansão de forma economicamente justa e ambientalmente responsável. Entre os acordos firmados para FortParaOil está um memorando de entendimento com o World Resources Institute (WRI) para a regeneração de 300 hectares em áreas de pequenos agricultores até 2026, aliando recuperação ambiental e geração de renda.
Outros apoios incluem investimentos em pesquisa e inovação fundo a parceiros públicos e privados. Uma dessas parcerias é o acesso aos laboratórios do Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, em Belém. Lá a empresa realiza testes com extração supercrítica, tecnologia avançada que amplia as possibilidades de inovação na cadeia de óleos vegetais, gerando um aproveitamento ainda maior de recursos, mas preservado pureza e propriedades.


