Por Tereza Coelho
O açaí é muito mais que energia! Um estudo da UFPA (Lafico) revelou que o consumo regular do fruto na infância e adolescência pode prevenir sintomas de ansiedade e depressão. A ciência confirma o que o paraense já sabia: açaí é saúde mental
Os resultados foram publicados no início de 2026 na revista Food Research International, abrindo caminho para testes clínicos com humanos.
A pesquisa partiu de uma pergunta central: é possível que um alimento tradicional da Amazônia tenha efeito preventivo, sobre transtornos mentais? A resposta até o momento, aponta que sim. Especialmente em comportamentos relacionados a ansiedade e depressão.
Os testes foram realizados com ratos adolescentes, fase equivalente à infância e adolescência em humanos. Parte dos animais recebeu diariamente suco clarificado de açaí, em dose proporcional ao consumo humano de meio litro por dia. Já o outro grupo não ingeriu o fruto.
Em entrevista ao portal Amazônia Vox, a doutoranda em Ciências Farmacêuticas Marta Barbosa, uma das autoras do estudo, celebrou os resultados positivos da pesquisa.
“Em todas as avaliações, o grupo que ingeriu açaí teve significativa melhora comportamental em relação aos animais que não receberam açaí, demonstrando redução dos parâmetros de ansiedade e depressão, associada aos efeitos dos compostos bioativos”, afirma Marta.
Os animais que consumiram açaí demonstraram maior disposição para explorar ambientes abertos, comportamento associado à redução da ansiedade, e menor tempo de imobilidade no teste de nado forçado, indicador relacionado a comportamento depressivo.
“Blindagem” natural para o cérebro contra a ansiedade
Para entender como o açaí ajuda a mente, os cientistas da UFPA foram além da observação do comportamento e olharam o que acontecia dentro das células cerebrais. O resultado? O fruto funciona como um poderoso sistema de limpeza e proteção.
O estudo mostrou que o açaí aumenta as defesas naturais (antioxidantes) em áreas que controlam nossos sentimentos. Veja o impacto nas regiões principais:
- Controle emocional: No córtex pré-frontal, o açaí aumentou o nível de substâncias que protegem a mente.
- Resposta ao estresse: No hipocampo, área que nos ajuda a lidar com a pressão, as células ficaram mais fortes.
- Combate ao medo: Na amígdala (o “centro do medo” do cérebro), o açaí reduziu os danos causados pelo desgaste celular.
Um dos grandes destaques foi o aumento de uma enzima chamada catalase, que combate inflamações e o estresse das células.
“Nos animais que tiveram dieta à base de açaí, a gente teve uma melhora significativa dessa enzima”, explica a pesquisadora Marta.
Um escudo para os neurônios
Na prática, o açaí cria um mecanismo de defesa em áreas sensíveis do cérebro. Para a neurocientista Cristiane Maia, coordenadora do estudo, os dados provam que o fruto é um neuroprotetor — ou seja, ele blinda os neurônios.
“Comprovamos que o açaí, por si só, melhora as condições de emocionalidade para os testes que aplicamos, de ansiedade, depressão e locomoção espontânea […]. Me parece que, além de tudo, o açaí é também um neuroprotetor”, afirma Cristiane.
Próximo passo: Testes em humanos
A descoberta é tão promissora que a equipe já prepara a fase seguinte: testes com voluntários no Hospital Militar de Belém. O objetivo é confirmar se esse “efeito protetor” observado nos animais se repete em pessoas de diferentes idades e estados emocionais.
Essa pesquisa surge em um momento crítico, onde mais de 1 bilhão de pessoas sofrem com transtornos mentais, como ansiedade e depressão, segundo a OMS. Ao transformar um alimento típico da região em inovação científica, os pesquisadores reforçam a riqueza da Amazônia, mesmo enfrentando a falta de recursos e investimentos para a ciência local.


