Resumo
- Estudo publicado na revista Environmental Geochemistry and Health revela que mais de um terço (35,5%) dos peixes coletados no Lago Puruzinho (baixo Rio Madeira) apresentavam concentrações de mercúrio acima dos limites de segurança da Anvisa, com médias muito elevadas em peixes predadores (piscívoros).
- Nos lagos do Araguaia (Cerrado), onde não há histórico expressivo de garimpo, apenas 4% das amostras ultrapassaram os limites permitidos. No entanto, o estudo aponta que o mercúrio se acumula na cadeia alimentar e que o consumo frequente de peixes predadores já pode representar riscos.
- O estudo detalha o processo de biomagnificação — onde o metal se acumula a cada elo da cadeia alimentar —, indicando que esse acúmulo se mostrou ainda mais intenso no Araguaia, embora os níveis totais sejam menores que no Madeira.
- A ingestão semanal estimada de mercúrio por comunidades ribeirinhas e indígenas (que consomem cerca de 300 gramas de peixe por semana) ultrapassou o limite tolerável estabelecido pela FAO/OMS no Rio Madeira, acendendo um alerta para a inadequação dos limites vigentes para quem depende fortemente do pescado.
- Os pesquisadores apontam que, no Araguaia, a presença de mercúrio não vem do garimpo, mas sim da mudança no uso da solo (como desmatamento para soja e pecuária e queimadas), que erosiona o solo e libera o metal naturalmente presente nele para os rios.
Mais de um terço dos peixes coletados em um lago do baixo Rio Madeira, na Amazônia, tinha mercúrio acima dos limites de segurança fixados pela Anvisa. No Rio Araguaia, no Cerrado, onde não há histórico relevante de garimpo, a proporção foi bem menor (4%), mas o metal também se acumula na cadeia alimentar, e o consumo frequente de peixes predadores já pode ultrapassar o limite semanal tolerável. É o que mostra um estudo publicado em 14 de julho na revista científica Environmental Geochemistry and Health, que analisou 626 peixes coletados entre 2019 e 2024.
A equipe, que inclui Wanderley Rodrigues Bastos, da Universidade Federal de Rondônia
a (UNIR), comparou duas bacias com históricos de degradação distintos. No Madeira, a coleta ocorreu no Lago Puruzinho, em uma região marcada por garimpo, desmatamento, queimadas e hidrelétricas.
No Araguaia, foram estudados quatro lagos da planície de inundação do rio, onde as principais pressões são o desmatamento e o fogo. Foram analisados 352 peixes de 19 espécies no Madeira e 274 de 17 espécies no Araguaia.
A análise comparativa indica que o acúmulo de mercúrio nos peixes pode ir além dos impactos clássicos da mineração de ouro, apontando também para distúrbios ambientais como o desmatamento e as queimadas.
Madeira concentra os maiores valores
No Lago Puruzinho, a concentração de mercúrio nos peixes variou de 37 a 2.473 microgramas por quilo (µg/kg), com média de 750. O limite da Anvisa é de 500 µg/kg para espécies não predadoras e de 1.000 µg/kg para predadoras. Ao todo, 35,5% dos peixes do lago (125 indivíduos) ultrapassaram esses limites, principalmente o tucunaré da espécie Cichla pleiozona, com 41 exemplares, e as espécies Serrasalmus rhombeus e Pellona castelnaeana, com 25 cada.
Nos lagos do Araguaia, a variação foi de 6 a 1.947 µg/kg, com média de 202. Só 11 amostras, ou 4%, passaram dos limites.
Nas duas bacias, os peixes que comem outros peixes (piscívoros) ou animais maiores (carnívoros) tinham muito mais mercúrio do que os detritívoros, que se alimentam de matéria orgânica no fundo.
No Madeira, a média nos piscívoros foi de 1.033 µg/kg, contra 189 nos detritívoros. No Araguaia, foi de 744 contra 42. É o processo chamado de biomagnificação: o metal se acumula em cada elo da cadeia e chega mais concentrado aos predadores. A espécie Pellona castelnaeana teve os maiores valores nas duas bacias.
Um resultado que os autores destacam: a biomagnificação foi mais intensa no Araguaia, ou seja, o mercúrio ali sobe de forma mais eficiente pela cadeia, ainda que os níveis totais sejam menores.
Risco para quem depende do peixe
Os pesquisadores estimaram quanto mercúrio uma pessoa de 65 kg ingeriria por semana em três cenários: 50 gramas de peixe (padrão urbano), 100 gramas (padrão rural) e 300 gramas (populações ribeirinhas e indígenas, para quem o peixe é a principal proteína).
O parâmetro de comparação foi o limite semanal tolerável de 1,6 µg (micrograma) por quilo de peso corporal, definido por comitê da FAO e da OMS. Para chegar a esse número, o estudo estimou que 80% do mercúrio total nos peixes está na forma de metilmercúrio, a mais tóxica.
No Madeira, a ingestão média estimada foi de 0,425 µg/kg por semana no cenário urbano, 0,896 no rural e 2,769 no ribeirinho, esta última acima do limite. No Araguaia, os valores foram de 0,124, 0,249 e 0,746. Na média por tipo de peixe, os excessos estatisticamente significativos apareceram só no cenário ribeirinho: no Madeira, para planctívoros, carnívoros e piscívoros; no Araguaia, apenas para piscívoros.
Em alguns exemplares isolados, porém, o limite foi superado com consumo bem menor. No cenário rural, 45 peixes carnívoros e piscívoros do Madeira ficaram acima do limite.
No Araguaia, isso ocorreu com exemplares de três espécies predadoras. Já as espécies herbívoras, detritívoras e onívoras foram as mais seguras nas duas bacias, segundo os autores.
Sem garimpo, mas com desmatamento
O estudo argumenta que o garimpo histórico não explica o mercúrio encontrado nos lagos do Araguaia. Amostras de sedimento da região estão em faixas comuns em lagos tropicais não impactados, enquanto no rio Beni, afluente do Madeira, sedimentos sob influência de garimpo passam de 500 µg/kg.
Para os autores, isso aponta para outro fator: a mudança no uso da terra, com desmatamento para soja e pecuária, que erode o solo e leva ao rio o mercúrio naturalmente presente nele; as queimadas também contribuem.
É uma interpretação dos pesquisadores. O estudo não mediu diretamente a origem do mercúrio, já que não houve coleta simultânea de água, sedimento e organismos da base da cadeia alimentar nos mesmos pontos.
Limites vigentes
A conclusão do estudo é que os limites da Anvisa e da FAO/OMS podem bastar para populações que comem pouco peixe, como se estimou para o Araguaia, mas parecem inadequados para comunidades muito dependentes dele, como as ribeirinhas do Madeira.
Os autores defendem recomendações de saúde ajustadas à dieta de cada região.


